HAVERÁ RESENHAS E REVIEWS
28/01/2018
A PUBLICAÇÃO DO PRIMEIRO LIVRO
05/02/2018

4 ESTAÇÕES – PRIMAVERA 1

Notas da autora: Meu deus, há quanto tempo não faço uma notinha assim de começo de fanfic! XD Ahuahuahuhau! Que emoção!!!
Pessoal, é em teoria uma fanfic de Inuyasha, mas dá para ler tranquilamente sem conhecer a história, porque eu faço referências de itens do mangá/anime, mas os personagens e mundo são totalmente originais. :3
Tem algumas poucas palavras em japonês, mas dá para sobreviver usando o google.

PRIMAVERA 1

 

“Me dê isso aqui!”.

A espada reluziu. Um rápido flash dourado encheu o ambiente, antes da gloriosa Tessaiga rasgar a construção de uma ponta a outra.

 

***

 

“Você soube batalha mais recente?” – perguntou a voz de velhinha sob o grosso cobertor que cobria o futon inteiro.

– Essa? – o interlocutor apontou para trás com um leque fechado.

As portas feitas de madeira e papel não isolavam em nada os brados de luta do lado de fora. O pequeno quartinho por vezes tremia com o som do muro de pedra sendo golpeado.

– Não essa briga de meninos – disse a voz do cobertor. Alguém no exterior soltou um berro desesperado de dor. – Uma batalha de verdade. Em campo aberto, com dois clãs inteiros se colidindo de frente.

– Fiquei sabendo que houve um confronto na semana passada. O clã das plumas foi destruído.

– Pois houve um confronto ontem. Um informante de confiança disse que o clã das escamas também foi abaixo. E, ao que parece, os atacantes estão descendo para o sul.

A velhinha grunhiu cansada.

– Estão dizendo que eles despertaram um demônio antigo – completou.

– Então precisamos, também, de uma arma secreta – o interlocutor levantou-se, ajeitando seu haori colorido.

– Naoya – a velha alertou com a voz abafada. – Sabe o que acho desse plano.

– Nada realista. Eu sei.

– E você tem trabalho a fazer aqui.

– Não custa tentar. É uma técnica que só existe dentre o nosso clã.

– Uma lenda – a voz da velha soou alto e claro. Naoya soube que, às suas costas, ela saíra de seu esconderijo.

– A passagem está aberta. Eu posso sentir – argumentou.

– Você irá chorar.

Naoya parou, confuso.

Que espécie de alerta era esse?

– Nós somos youkais – afirmou, voltando-se para trás como se a outra precisasse ver as orelhas pontudas de raposa sobre sua cabeça. – Um pouco de violência está no nosso sangue.

A velhinha – uma raposa inteiramente branca enrolada sob o cobertor – deu um grunhido rabugento.

– Então leve a Tessaiga – ela disse. – Só você consegue segurá-la, mesmo.

– Trarei notícias boas – respondeu Naoya, antes de abrir a porta de correr e deixar o quartinho pelos jardins em plena batalha.

 

***

 

“Yui. Olha isso!” – dizia a colegial, mexendo no celular, enquanto andavam pela rua na volta da escola.

A garota com uma comprida trança castanha-avermelhada chegou a murmurar, mas continuava a observar um templo na calçada do outro lado, ao topo de uma escadaria de pedra.

– O que tem ali? – perguntou um dos dois garotos que andavam juntos.

– …Nada – Yui deu de ombros após alguns segundos. – Eu acho.

– Olha isso! – insistiu Mika, enfiando o smartphone na cara da amiga.

Eram fotos de filhotes de gatos.

Desajeitada, Yui scrollou pela rede social de Mika, vendo os bichinhos.

– Meu Deus, você mexe no celular feito a minha vó – a dona do celular afirmou, incrédula. – Vamos embora logo.

– Não corra. Seu cabelo vai virar um ninho que nem da outra vez – avisou Yui, antes de segui-la com os dois garotos.

 

***

 

Naoya pensou ter ouvido vozes jovens quando deixou a pequena construção arrebentada do templo. Primeiro achou que não havia nada de interessante para ter feito uma viagem no tempo.

Mas, após alguns passos, enxergou os prédios altos e a silhueta da cidade por entre as copas das árvores. Vez em quando um automóvel cruzava a rua.

– Veja só – deixou escapar, abanando-se com o leque. – É mesmo um outro mundo.

 

 

***

 

“Yui, precisamos conversar!” – exclamou o pai de família assim que a filha abriu a porta, fazendo-a dar um pulo.

– Você estava postado aí desde quando?! – Yui rangeu os dentes.

– Precisa se exercitar! – o pai de meia-idade, parrudo e com uma barba imponente, estendeu uma bola de basquete.

– Não! – o objeto voou feito uma bala com um tapa da garota.

– Deixe de frescura! Estão acabando os esportes para eu sugerir! – a bola quicou pelo corredor e quebrou algo na cozinha do apartamento.

– Foi você que me expulsou do dojo!

– Não queria dizer que era para virar sedentária! Vai ficar gorda!

Qual o problema em ser gorda?! – interveio a mãe com bobs no cabelo, quase tão grande quanto o marido – E quem foi que resolveu jogar basquete na cozinha?! – ela ergueu um prato quebrado.

– O pai! – exclamou Yui mais do que depressa, apontando um dedo acusador.

– Eu sabia! – a mulher começou a encurralar o acusado com seu corpanzil – Você acha que essas louças custam quanto?!

Yui não esperou a discussão prosseguir para fechar a porta do quarto. A gritaria do lado de fora a fizera se esquecer do porquê de ter resolvido sair, para início de conversa.

A garota sentou-se na cadeira diante da escrivaninha e deu um grunhido cansado.

Quando olhou janela afora, pensou ter visto uma luminosidade não usual surgir  na noite por um segundo.

Franzindo o cenho, aproximou-se do vidro aberto e espiou o que acontecia lá embaixo.

O décimo andar em que morava com sua família provia um ângulo muito bom para espiar o templo sem nome no quarteirão ao lado. Não precisou fazer muita força para ver, por entre algumas árvores, a silhueta de um homem.

Estava escuro, mas por vezes o indivíduo tentava mexer em algo que segurava.

Toda vez que o “algo” era manuseado com dúvidas, um forte estalo dourado repelia a mão do sujeito.

– O que é isso..?! – deixou escapar Yui.

O objeto, coberto com um tecido roxo, pareceu uma katana pela fração de segundo que pôde enxergá-lo sob o estouro dourado.

Ou melhor, que raios era o estouro? Um curto-circuito? Numa espada?

Para completar, o homem lá embaixo parecia usar um kimono completo, com um haori todo estampado. Não era um sacerdote, com certeza.

Mas então por que um cara de roupas tradicionais estava parado ali?

 

***

 

Naoya voltou a cobrir a Tessaiga com o grosso tecido roxo. Era impossível sacá-la, mas pelo menos sua barreira estava tão forte como sempre. Talvez fosse de alguma utilidade para caçar a criatura que perseguia.

Acabara perdendo o final da tarde realizando um reconhecimento da cidade, mas agora era hora de trabalhar.

– Não sei por que está vindo, mas considero que tenho sorte – anunciou, bem na hora em que uma mulher esguia subiu correndo as escadas de pedra.

A mulher – com cabelos lambidos e sebosos – mostrou perplexidade ao se deparar com um sujeito no templo sempre vazio; no entanto, em um pulo, seu corpo esticou-se com muitos e muitos estalar de ossos.

Centenas de pernas de inseto cresceram da pele branca. Uma carapaça cobriu parte do tronco alongado.

As pernas humanas desapareceram.

– Saia! – ordenou a horrenda cabeça feminina no topo de um corpo gigante de centopeia.

– Para que a pressa? – perguntou Naoya, dando um pequeno salto para o lado, o suficiente para desviar-se da investida desesperada da youkai.

A criatura virou-se para investir novamente.

O homem com orelhas de raposa abriu seu leque e virou-o na direção da centopeia.

Chamas arroxeadas se acenderam diante do rosto de mulher, formando um círculo preenchido por múltiplos quadrados perfeitos.

A youkai observou a cena confusa, mas não pôde se mexer pelo próximo segundo, no qual uma massa negra passou a sair da parte superior de seu corpo.

– Dê-me a sua essência – Naoya sorriu traiçoeiro, mesmo com o rosto de serenidade imutável.

A centopeia guinchou de dor, mas a massa negra logo acabou e a criatura voltou a se mover, bufando e encarando o outro.

– Ué? – Naoya gesticulou com o leque algumas vezes, verificando que o símbolo em chamas ainda funcionava – Só isso? – em seguida, espanou o leque pela fumaça negra acumulada diante de si, dissipando-a e procurando no ar, confuso.

A centopeia saltou raivosa, mostrando os dentes imensos na boca de pessoa.

– Oh, não – conseguiu dizer Naoya, pulando para trás e estendendo a espada embainhada para frente.

A youkai tentou colocar as mãos humanas para afastar o objeto, porém faíscas douradas estalaram ao primeiro toque, fazendo-a parar chocada.

 

***

 

O que é aquilo?!” – Yui comentou em voz alta, de boca aberta e quase pendurada para fora da janela.

Um monstro – sim, um monstro – estava se debatendo raivoso no templo, enquanto o sujeito estranho de kimono estava brigando de volta com poderes bizarros.

No último estalo dourado, teve certeza de que vira algo na cabeça do sujeito… e não era um chapéu.

– Ninguém está vendo isso?! – Yui, mesmo não sendo uma ávida usuária do celular, acabou por pegar no aparelho.

Entretanto, antes de ativar a câmera, viu o aplicativo de mensagens aberto.

Mika havia digitado: “Estou quase chegando”.

Yui arregalou os olhos ao se lembrar do compromisso antes de ser abordada pelo pai. Sua amiga vinha buscá-la para tomarem um lanche fora.

Ela passaria diante do templo.

– Não, não venha! Não chegue! – Yui segurou o telefone na orelha, esperando o aparelho chamar – Está tendo a maior treta ali!

Mas fora inútil. A linha estava ocupada.

Certamente Mika estava tagarelando com uma manicure ou uma de suas amigas de festa, falando de qualquer coisa que não é tão importante quanto um monstro na cidade.

Grunhindo de raiva, Yui agarrou uma blusa leve e saiu correndo.

 

***

 

Tudo bem. Isso era um contratempo inesperado.

Naoya esgueirou-se por entre as construções antigas do templo, tentando despistar a centopeia.

O problema era que ela não desistia. Talvez por ele ter arrancado suas energias e depois tê-la queimado com a barreira da Tessaiga, mas isso não era motivo para ficar insistindo, era?

– Qual é o problema dela? – Naoya abanou-se com o leque, refletindo sobre o ocorrido.

Foi quando o telhado velho do depósito caiu, com metade do corpo da youkai caindo no local. Naoya imediatamente saltou para fora, correndo para perto da escadaria de pedra.

Se seu ataque tradicional não funcionava, precisaria improvisar.

 

***

 

Mika viria pela rua diante do templo. Era o trajeto mais rápido para se encontrarem.

Então não adiantaria Yui dar uma volta imensa. Poderia se desencontrar com a amiga.

– Eles estão lá em cima. É só passar correndo – murmurou para si mesma, acelerando a corrida ao passar diante da escadaria do templo.

No entanto, por alguma desgraça do universo, escutou um guincho e um ruído bem quando cruzava os degraus: vendo uma sombra com o canto do olho, Yui só teve tempo de abaixar-se o máximo que conseguia sem bater a cara no chão.

Os arredores tremeram quando uma centopeia gigantesca – com um rosto horrendo de mulher no topo – caiu na rua após escorregar pelas escadas.

– O quê?! – Yui exclamou, apavorada e brava ao mesmo tempo. O rosto do monstro olhava para ela – Eu só estava de passagem! Você que caiu aqui!

“Hã?” – uma voz tranquila e destoante soou do alto da escadaria.

Yui virou-se para trás, vendo então a silhueta do homem do kimono sob as fracas lâmpadas do templo.

– Oh. Ainda está vivo – ele suspirou, sem saber o que fazer.

A garota estava abrindo e fechando a boca, sem saber se questionava algo ou se xingava tudo e todos, porém a centopeia gigante moveu-se de maneira brusca, obrigando-a a subir as escadas.

E deu de cara com o homem estranho do kimono.

Ele tinha longos cabelos muito lisos. Estava escuro, mas parecia alaranjado.

No topo da sua cabeça, havia orelhas.

Triangulares, pontudas e felpudas.

– O que é isso?! – Yui perguntou, agarrando uma das orelhas.

– Ei! Que falta de educação! – o outro respondeu, visivelmente chocado.

– É um lobo?

– Uma raposa!

Só perceberam que havia coisas mais importantes quando puderam sentir o tremor do corpanzil da centopeia chegando até onde estavam.

Yui deixou o sujeito estranho de lado e correu a toda velocidade para o templo, procurando por um lugar para se esconder.

 

“O que uma menina está fazendo aqui?” – questionou Naoya, analisando a adolescente de cima a baixo. Estava usando roupas que não costumava ver, mas parecia algo para se usar no conforto de casa… e não numa batalha contra um youkai.

– Não fuja para o mesmo lado que eu! – ela reclamou, cerrando os dentes feito um animal.

– Isso é uma cauda de escorpião? – Naoya puxou a grossa trança avermelhada na cabeça da garota.

– …Você está zoando, né?

O pequenino depósito – já parcialmente quebrado – começou a tremer com a aproximação da youkai gigante. Pelo visto, não adiantava se esconder duas vezes no mesmo lugar.

– Já que está aqui, vamos fazer o seguinte – Naoya propôs. – Você sai correndo e serve de isca para a criatura enquanto eu tento atacá-la pelas costas.

– Ah, tá. Conta outra – ela mostrou uma cara de desgosto e fuzilou-o com os olhos.

– É bastante rebelde para uma humana jovem prestes a morrer.

– Se é para eu morrer, que seja depois de você.

Naoya suspirou.

A garota continuava a fitá-lo.

Na cabeça.

– Isso aí é de verdade? – ela apontou as orelhas.

– Ah, por favor. Tem uma centopeia lá fora.

Naoya apontou para fora com a espada embainhada bem no instante em que a youkai derrubou a porta fina com uma investida.

A cabeça dela entrou no pequenino aposento. O corpanzil tampava a saída.

– Me dê isso aqui! – berrou a garota, agarrando o cabo da espada antes mesmo de Naoya erguer seu leque.

A espada reluziu. Os youkais só puderam observar chocados enquanto uma lâmina de proporções impossíveis saiu de dentro da bainha conforme a mocinha sacava a arma.

Um rápido flash encheu o ambiente, antes dela brandir a espada num movimento contínuo do saque e a gloriosa Tessaiga rasgar a construção de uma ponta a outra.

A centopeia, cortada bem na junta do corpo humanoide com o de inseto, gritou enquanto caía no chão se debatendo.

Partes da parede caíram. O teto só não caiu por já ter ido abaixo.

Naoya só pôde observar a cena de boca aberta, não dando a mínima para a youkai morrendo.

A garota, segurando a Tessaiga em sua forma plena com apenas uma mão, finalmente se dera conta dos últimos segundos e fitou a espada gigantesca.

– Que droga é essa?! – berrou nervosa, gesticulando com a arma.

Vamos nos acalmar­ – ressaltou Naoya, empurrando a bainha contra a lâmina e selando os poderes da espada antes que alguém perdesse um braço. – Foi só um youkai – acrescentou, quando a outra já estava desarmada.

A garota abriu e fechou a boca, indignada, indicando da centopeia para Naoya.

– Está tudo bem. Seu cérebro está em pane – ele tentou dizer, em sua voz inalterada.

O bem da verdade era que também queria entrar em pane.

O que foi isso? Todas as meninas humanas agora sabiam brandir uma espada youkai?

– O que… – a garota começou, confusa. – O que vai fazer com isso?! – foi o que conseguiu dizer por fim, indicando a carcaça da centopeia.

– Oh. É verdade.

Naoya aproximou-se do corpo inerte de odor muitas vezes mais forte do que um cadáver humanoide.

Pôde enxergar uma pequenina luz ao topo do corpo de centopeia.

Puxando a manga do kimono e fazendo uma careta, enfiou a mão no cadáver pelo ferimento aberto e passou a fuçar por entre carne e entranhas.

– Isso é desagradável – comentou, sob o olhar chocado da garota. – Não é assim que costumo fazer.

Quando finalmente sentiu algo entre os dedos, puxou a mão de volta o mais rápido possível.

Manchado de sangue, havia uma pedrinha do tamanho de um grão de areia entre seus dedos.

– Só isso?! – Naoya exclamou, incrédulo – Meu deus. As coisas estão difíceis por aqui.

– Eu… eu… – balbuciou a adolescente humana, até completar: – Eu vou para casa.

E saiu andando, com a expressão chocada estampada na cara pelo caminho todo.

Naoya, por sua vez, suspirou cansado e igualmente saiu andando, a fim de retornar ao Poço Come-Ossos.

Não tinha sido um início nada bom.

Fora só cansativo…

E confuso.

Essa primavera seria complicada.

 

 

***

Notas da autora de novo: DEIXEM COMENTÁRIOS! Os escritores não seriam nada sem seus leitores!!! XD Obrigada!!!

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