ESCOLHENDO PELA CAPA
19/02/2018
O LIVRO ARRASTADO
08/03/2018

4 ESTAÇÕES – PRIMAVERA 2

“O que ela fez para você?!” – acusou Yui, enraivecida.

Mika, com as roupas inteiramente ensanguentadas, não se moveu no chão.

 

*

 

“Então, caso observem na página 128, podem perceber uma mudança na personalidade do protagonista” – dizia a voz distante. – “Srta. Uesugi, você está me ouvindo?”.

– Yui – sussurrou Mika, cutucando a amiga. – Acorda!

Yui, na última carteira da sala, piscou algumas vezes ao se ver na aula, embora não estivesse dormindo.

– Estou acordada – retrucou.

– Srta. Uesugi, onde nós estávamos, mesmo? – questionou cansado o professor no tablado.

– Na página 94 – chutou Yui, sem titubear.

– Muito bem. Reforço no final de semana.

– Não, espera! – exclamou a garota num salto, porém o sinal de fim da aula abafou sua voz – Professor! – o homem de feição pouco marcante deixou a sala naturalmente – Professor Katsuragi!

Yui desabou derrotada sobre a cadeira, resmungando inconformada.

– Você já é ruim na matéria dele – Mika mexeu nos cabelos cheios com as unhas decoradas, aproximando-se já com a bolsa pronta para ir embora. – Não precisa dormir para completar o pacote.

– Eu não estava dormindo – reforçou Yui.

 

*

 

Uma centopeia-monstro. Com cabeça de mulher. E um homem de cabelos laranjas com orelhas de raposa. Tinha certeza de que vira tudo isso… principalmente porque brandira uma espada gigante no meio deles.

Era difícil se concentrar em alguma coisa quando essa imagem fica rodando por dias e dias seguidos na mente.

“Yui” – chamou uma vozinha suave.

– O quê?! Estou prestando atenção! – a garota exclamou, fazendo o amigo, Kouta, encará-la perplexo.

Todas as pessoas na fila do fast food ergueram uma sobrancelha para Yui, fazendo-a se lembrar de que estavam numa lanchonete bastante lotada. Kouta fez expressão de bichinho envergonhado.

– Desculpa – disse a garota entre dentes, mesmo estressada. O cabelinho chanel e os grandes olhos castanhos tornavam Kouta mais frágil do que ele já parecia. – É que tem acontecido algumas coisas…

Yui ajeitou-se na fila, vendo que só havia uma Mika debruçada no balcão na sua frente, fazendo um pedido extenso.

– Você está me ouvindo? É um milk-shake, duas tortas de maçã e os lanches que pedi! – dizia ela para o atendente assustado – Está prestando atenção?!

Yui olhou com pena para o rapazinho alto e magricelo atrás do balcão, porém começou a perceber que, mesmo descontando a bronca de Mika, ele realmente parecia desatento.

Olhava para os lados com frequência e até parecia suar. Deu uma olhadela bastante perturbadora para Mika, antes de desviar o rosto para o chão.

…Esse indivíduo era estranho.

– Youkai..? – sibilou Yui, quase que inconscientemente.

– O quê? – Kouta inclinou a cabeça.

– Nada.

Isso era um absurdo. Agora tudo e todos pareciam um suposto monstro.

– Uesugi, você está bem? – interveio uma voz familiar.

A garota olhou para o lado. Um jovem bastante apagado estava encarando-a.

– Miura, desde quando você estava aí? – retorquiu Yui.

– Desde que saímos da escola.

Kouta suspirou.

 

*

 

“Não, não adianta me empurrar aquele bocó” – disse Yui ao celular, andando lentamente para casa. O sol começava a se pôr e as poucas árvores visíveis por cima dos muros das residências farfalhavam suavemente.

– Mas por quê? – retrucou Mika do outro lado da linha. Ela ainda parecia comer – O Shinji é bem apessoado, tira notas boas e nunca fez nada de errado!

– Olha. Se ele é tão bom assim, por que não fica para você?

A amiga ainda reclamou um pouco antes de mudar de assunto. Começaram a falar de doces e logo haviam esquecido de todo o resto.

– Tenho uma outra chamada – disse Yui após um tempo, escutando sons de sinos do celular.

– Bom, eu já cheguei em casa – respondeu Mika. – Depois te mando mensagens.

A garota desligou, dando espaço para a nova chamada.

– Diga, Kouta – atendeu Yui, se dando conta de que estava diante da escadaria de pedra do templo sem nome.

Hesitante, subiu os degraus passo após passo, vendo primeiro os telhados vermelhos aparecerem, e então as paredes velhas remendadas com materiais novos. Os depósitos e anexos estavam praticamente novos em folha, já que tiveram de ser restaurados quase por completo.

Não fazia muitos dias desde que parara de ver dois pedreiros idosos entrando e saindo do terreno.

– Yui?! – exclamou Kouta no celular, confuso.

– Aconteceram algumas coisas! – ela justificou-se.

– Que coisas?

Yui andou pelo local, confirmando que era só um templo vazio cuidado pela prefeitura.

– Tem um cara que eu vejo de vez em quando… – começou, tentando explicar da forma menos maluca.

– Faz umas duas semanas?

– Como você sabe?!

– É o tempo que você esteve estranha – arrebatou Kouta.

– Ah. Enfim – retomou Yui. – Eu vejo ele esperando em esquinas e, toda vez que esse cara me vê de volta, vem se aproximando para falar comigo!

Kouta ficou em silêncio por um tempo, avaliando a voz histérica da amiga.

– Não é só um entregador de panfletos, então. É tipo um… stalker?

– É! – exclamou Yui mais alto do que pretendia – Eu sempre corro, por isso ele nunca me alcançou, mas agora não consigo ficar em paz!

Não queria se envolver com ninguém que andava com centopeias-monstro.

– Isso é horrível, Yui! – berrou Kouta com uma voz aguda, quase fazendo a garota cair da escadaria – Precisa ir à polícia! Precisa denunciar esse tarado imediatamente!

– Hã? – conseguiu dizer, quando retornara para a rua – Eu acho que não é exatamente isso…

– Claro que é isso que tem de fazer! Não pode esperar que algo te aconteça! Sabe que o bairro está perigoso ultimamente!

– Bom, meio que já aconteceu…

– O quê?! – o lado feminino de Kouta, normalmente bastante contido, começava a vir à tona rapidamente – O quê?! – ele repetiu. Quase podia vê-lo se descabelando.

– Não! Não é isso que você está pensando! – Yui tentou acalmá-lo, mas não tinha certeza se era ouvida.

– O que é que aconteceu, então?!

– Foi tipo… – a garota pensou em algo. – Uma briga. Eu não tinha nada a ver com ela, mas fui pega no fogo cruzado!

– Era uma mulher? – Kouta parecia ter entendido tudo.

Yui pensou na centopeia.

– Era.

– Meu Deus, Yui. Esse cara deve ter sérios problemas. Fique longe dele!

– Estou tentando…

A garota suspirou e desligou. Imaginava que o amigo fosse ligar de novo, mais tarde.

“Moça” – perguntou uma vozinha.

Yui deu um pulo e virou-se para trás, esperando ver algum fantasma.

– Quer comprar? – perguntou uma menina de primário, estendendo uma cesta cheia de bonequinhos variados de pano – Meus pais que fazem.

Olhando um pouco mais para baixo, viu que a criança usava um avental com o logotipo de uma loja. As chuquinhas na sua cabeça também tinham bonequinhos pendurados.

– Estou sem dinheiro agora, desculpa – respondeu Yui. – Venha de novo amanhã.

Possivelmente sua mãe iria querer um. Ela adorava pendurar esse tipo de coisa na cozinha.

A menina assentiu várias vezes e foi embora.

 

*

 

“Estou a salvo!” – pensou Yui triunfantemente, entrando no quarto e batendo a porta.

E gritou audivelmente quando se virou para a escrivaninha e havia um homem sentado diante dela.

– COMO ENTROU AQUI?! – Yui berrou em plenos pulmões, procurando algo com que pudesse arrebentar o desgraçado.

– Não se exalte – o homem de longos cabelos laranjas abanou-se com um leque listrado. – Seus pais me deixaram entrar.

Yui parou.

– O quê? – perguntou, após um segundo inteiro – Por quê?

– Porque eles me conhecem – disse ele, deixando a colegial sem reação. – Há uns sete dias, mas já posso dizer que somos conhecidos. De onde você achou que tinha vindo o youkan caro do outro dia?

Yui recordou-se do doce sobre a mesa e de seus pais comendo-o.

– Achei que meus pais tivessem comprado!

– Como pode ver, sou educado e consigo conversar com humanos – o homem declarou com sua face de sorriso cerrado. A expressão não dizia muita coisa e era impossível deduzir uma idade pela sua cara lisa.

– Esse não é o ponto! – Yui soltou tudo que segurava e bagunçou os próprios cabelos – Estava conversando o quê com os meus pais?! Contou para eles sobre o bichão no templo, por acaso?

– Nah – ele gesticulou com o leque. – Achei que histórias com youkais pudessem chocar humanos. Aparentemente meus semelhantes vivem escondidos nessa cidade.

Semelhantes. Ele era mesmo outro monstro.

E então a garota notou algo diferente na cabeça do homem – ou a ausência de algo diferente.

– Cadê as suas orelhas estranhas? – perguntou.

– São orelhas de raposa! – ele respondeu indignado – Achei que deveria guardá-las para tomar chá com um casal humano.

Com um “puf” audível e um pouco de fumaça branca, as orelhas felpudas surgiram instantaneamente no topo da cabeça laranja. Elas deram pequenos tremeliques, como que se espreguiçando.

Yui apertou os olhos e passou a analisar o homem de cima a baixo.

– O que é? – perguntou ele, curioso.

– …Você não tem um rabo de raposa?

Pela primeira vez, o youkai sobressaltou-se e ajeitou seu kimono super-estampado.

Como você é rude! – ele exclamou, incrédulo.

– O quê?! Só perguntei!

– Não pergunte!

– Então não venha em casa!

“Olha” – interveio o youkai, após quase um minuto inteiro brigando com frases sem argumento. – “Yui, não é?”.

A garota mostrou os dentes feito um animal raivoso.

– Meu nome é Naoya – ele apresentou-se rapidamente, deduzindo o motivo da irritação. – Pronto. Não somos mais desconhecidos.

A colegial parecia que ia mordê-lo. Na orelha de raposa; e arrancar um pedaço.

– Estou aqui para pedir sua ajuda – continuou Naoya, em sua voz mais tranquilizante.

– Por quê?! Para quê?!

“Yui. Está tudo bem aí?” – brigou a mãe do andar de baixo, achando que a filha fazia um escândalo sozinha.

– Por quê?! – repetiu Yui, agora sussurrando.

– Vim caçar youkais – disse ele primeiramente. Ao ver a cara amarrada da outra, continuou: – Sou o sacerdote supremo de um clã e estamos em guerra com, bem, vários outros clãs. Como sempre acontece. E, para ganhar, precisamos de um poder que… sai de dentro de Youkais Maiores.

Yui não sabia qual pergunta fazer primeiro. Talvez devesse xingá-lo fortemente antes.

– Então vá caçar – resolveu dizer. – Boa sorte. Tchau.

– Calma – Naoya a freou com um gesto, vendo que estava pronta para abrir a porta e expulsá-lo da maneira que conseguisse. – Não estaria aqui amigavelmente, trazendo chazinhos, se eu pudesse dar um jeito sozinho.

– Como assim? Você é um monstro como os monstros que quer caçar – Yui sentiu as lembranças da centopeia gigante vindo à tona mais uma vez. Ele bem que poderia mudar de assunto.

– Geralmente eu consigo… – Naoya tentou desenhar algo no ar – remover a essência youkai do meu inimigo. A sua principal fonte de energia e vida. Quando minha técnica é bem-sucedida, o alvo morre.

Yui ergueu uma sobrancelha. A mulher youkai do outro dia parecia bem viva.

– Mas… algo é diferente neste lugar. A essência dos youkais não é tão forte; não é o que os forma – explicou ele. – E isso quer dizer que não os mato com minha técnica.

– Você fala como se não fosse daqui – a garota cruzou os braços. Havia uma pontinha de esperança em sua voz. A de que ele fosse embora logo para onde quer que morasse.

– Se me ajudar, eu vou embora.

– Não está esperando que uma menina do ensino médio te ajude, né?!

– Eu sei que você fazia kendô. E que era muito boa – Naoya disparou a informação que conseguira com os donos do apartamento.

O youkai puxou de trás da cadeira uma espada embainhada, enrolada em um tecido roxo. Uma espada que Yui conhecia.

– Essa espada, que existe há gerações no meu clã, não pode ser usada por youkais. Ela nega nossa existência e tenta nos repelir com uma poderosa barreira – Naoya estendeu mais o objeto, como que dizendo para pegá-lo.

– Olha aqui – Yui puxou a espada sem cerimônia nenhuma, libertando a forma gigantesca da lâmina. – Onde é que kendô vai ajudar nessa coisa?!

Naoya desviou-se da lâmina, que começava a cortar colcha e livros do pequeno quarto.

– Você pode brandi-la… usando a disciplina do kendô… – tentou dizer.

– Sabe que eu fui expulsa, não sabe? – Yui devolveu a espada para a bainha com uma violência que fez a cadeira de Naoya rolar um pouco para trás.

– Pense que irá ajudar as pessoas – o youkai deu um sorriso forçado até mesmo para sua face traiçoeira. – Não quer youkais rondando seu bairro, quer?

– Não existe essa coisa de youkais!

– O quê? Sério? – Naoya encarou-a.

A centopeia, além dele mesmo, deveria ter sido uma boa referência.

– Não, quero dizer – a garota bufou. – Não existem youkais andando por aí! Aquilo lá, no templo, foi uma ocorrência única! Senão, todo mundo já teria visto bichos e monstros pela rua!

– Não sei como é a vida nessa cidade, mas é claro que há youkais por aí. – Naoya abanou-se com o leque – Você, inclusive, carrega respingos de energia deles. Youki. Sinal que encontrou um há pouco tempo.

Yui gaguejou, sem reação. Isso pareceu incomodá-la de uma maneira que ultrapassara sua fúria incondicional.

– Quer descobrir qual o youkai? – Naoya abriu um pouco os olhos muito cerrados – Quer saber qual o “monstro” que esteve no caminho do seu cotidiano?

A garota engoliu seco.

Por um instante, se esqueceu da raiva, da vontade de negar o dia no templo e do absurdo da situação.

Por um instante, só pôde pensar:

Então tem youkais na cidade.

 

“Me mostre” – Naoya ouviu a mocinha dizer, após longos segundos. – “Prove essa história dos monstros”.

O youkai não pôde deixar de sorrir, apesar dos muitos questionamentos em mente.

– Sente-se aqui – disse, indicando o piso diante da cadeira. – Vamos. Eu não mordo.

– Parece ser um bicho que morde. É uma raposa…

– Vamos, rápido.

Um pouco desconfiada, a colegial sentou-se no piso com as pernas cruzadas; ela usava uma bermuda preta por baixo da saia.

– Meu Deus. Não é mesmo nada delicada, não?

– Vai logo! – Yui reclamou.

Naoya levantou-se e concentrou seus poderes nas pontas dos dedos.

Ao movimentar a mão sobre a cabeça da humana, um símbolo foi desenhado em fogo arroxeado. A colegial franziu o cenho para o formato quadrado que lembrava uma letra, mas logo passou a encarar o youkai de pé.

Naoya fechou os olhos.

Pôde ver um cenário borrado. Muitas mesas e cadeiras bastante polidas, preenchidas por dezenas e dezenas de pessoas. Algumas estavam de pé e formavam fila diante de um balcão.

Yui estava lá na frente. Perto dela, uma garota era atendida por um funcionário uniformizado.

Um funcionário bastante perturbado.

– Aí está você – disse Naoya em voz alta, abrindo os olhos.

– “Você” quem? – Yui gesticulou impaciente – O que você fez?

– Vamos atrás do youkai. Posso sentir sua presença na redondeza – Naoya deu tapinhas nas costas da garota com o leque.

– Mas agora?! Já está escuro lá fora!

– Como se isso fosse um impedimento. Não estava claro quando você matou uma centopeia gigante – a raposa agarrou a garota pelo pulso e puxou-a.

 

*

 

“Yui! Venha jantar!” – exclamou o pai de família da pequena cozinha.

Silêncio absoluto.

– Yui? – repetiu sua esposa, também aguardando alguns segundos.

Silêncio pesado.

– Ela não está em casa. Incrível – o homem colocou as mãos na cintura, estupefato. – Naoya também sumiu de repente. É só eu entrar no banheiro que as pessoas vão embora daqui!

– Vai ver elas acham que você vai demorar – a mulher deu de ombros.

E, cansados, sentaram-se apenas os dois para jantar.

 

*

 

“Por que aqui?! Como sabe que é aqui?!” – continuava perguntando Yui enquanto seguia Naoya a contragosto por um pequeno parque verde no meio da cidade. Os postes de iluminação tinham suas luzes interrompidas pelas copas das muitas árvores e não faziam seu trabalho direito.

– Veja só. Não tem ninguém aqui – Naoya analisou calmamente, seguindo pelo fino caminho de ladrilhos.

– Porque pessoas sumiram aqui ultimamente! – Yui cerrou os dentes como se pudesse intimidar as sombras – Não sei se é um tarado ou um maluco qualquer, mas ninguém quer vir aqui!

E por que raios ela estava ali? Quem é que seguiria um homem-raposa noite afora?

Yui estava pronta para ir embora quando notou que, por entre as árvores e do outro lado de uma cerca baixa de metal, podia ver o fast food em que foi com Mika e Kouta mais cedo.

Um youkai. No seu cotidiano.

– Por aqui. Sinto o youkai para cá – disse Naoya, atravessando um conjunto fechado de moitas bem ao centro do parque.

Yui andou devagar enquanto uma silhueta voltava-se para trás chocada. Um rapazinho magricelo e uniformizado olhou-a nos olhos apavorado.

– Não consigo mais fazer isso! – ele berrou, estridente – Não consigo!

E saiu correndo a toda velocidade como um animalzinho assustado, passando pela colegial e por Naoya sem nem se ater às suas presenças.

– Aquilo, pra mim, era só um cara – comentou Yui, apontando por onde o sujeito foi embora.

– Oh, aquilo também era um youkai, mas um pequeno e que não vem ao caso – respondeu o outro com naturalidade. – A fonte do youki que chega a grudar em você está ali.

Naoya apontou com o leque para uma árvore.

Tudo estava escuro no entorno. A fraca luz laranja dos postes não ajudava em nada.

– Pode sair – disse a raposa. – Estamos esperando.

Yui viu algo se mexer atrás do grosso tronco. A silhueta humana pareceu hesitar por longos segundos antes de se mover.

Primeiro só foi possível prestar atenção nas roupas casuais encharcadas de sangue.

Depois, ao observar o rosto tenso e os cabelos desgrenhados, Yui parou por completo.

– …Mika.

Por um instante, a colegial não reparou que a voz era sua.

Os olhos de Mika – sua amiga há quase um ano, que estudava na sua sala – se ergueram para fitar a outra. Eram dourados e as pupilas estavam afiladas.

– O que você fez? – questionou Yui, percebendo que a garota não estava ferida apesar de todo o sangue.

– Já sabemos por que as pessoas somem aqui – Naoya indicou o chão atrás da árvore.

Yui não se importou com a expressão tensa de Mika ao passar por ela; andou a passadas largas para espiar a escuridão.

– Espere – tentou dizer a garota cheia de sangue, agarrando o braço da amiga.

– Não! – exclamou Yui, empurrando-a com violência ao ver o desastre.

Mika, surpresa, foi atirada por três metros até bater com as costas num tronco. Naoya murmurou intrigado, mas a colegial da força descomunal estava ocupada respirando pesado.

Havia muito sangue, visível como um líquido escuro sob as fracas luzes laranjas.

Mas não servia para cobrir o corpo de criança com o tronco mutilado e as vísceras de fora.

Yui sentiu o mundo parar.

Depois, sentiu ânsia; mas ao ver como a criancinha era a menina esforçada que encontrara mais cedo, todas as outras sensações foram embora para dar lugar a um calor intenso.

– Você estava comendo – disse Yui entre dentes; pôde escutar os ossos de sua mão estalando ao fechá-las. – Você estava devorando uma criança.

Ao virar-se, viu como Mika estava imóvel.

O que ela fez para você?! – acusou Yui, enraivecida.

Mika, com as roupas inteiramente ensanguentadas, não se moveu no chão.

– Diga alguma coisa! – bradou a garota de pé, aproximando-se pesadamente.

– Não fiquei assim porque quis! – chiou Mika, levantando-se num pulo ágil.

Yui espantou-se com o movimento animalesco, ao mesmo tempo em que Naoya apontou o leque para frente; chamas arroxeadas acenderam-se diante de Mika, formando um círculo preenchido por muitos quadrados perfeitos.

A colegial atingida desacelerou no ar por alguns segundos, nos quais uma massa negra correu para fora de seu corpo.

– Que droga é essa?! – Mika gritou estridente; as pupilas afiladas pulsaram, mudando de tamanho várias vezes antes de estabilizar.

– Dê-me a sua essência – disse Naoya, sem empolgação -…É o que normalmente eu diria, mas já estou vendo que você também não tem muita.

As chamas se apagaram ao mesmo tempo em que a massa negra acabou, se reunindo numa pequenina nuvem diante da raposa. Yui observou desentendida a nuvenzinha se dissipar quando Naoya abanou.

Mika, derrubada no chão, levantou-se ofegante.

– Mesmo depois de virar youkai… – os olhos das duas garotas se encontraram. – Eu era uma boa amiga, não era?

– Sim. Você era – admitiu Yui gravemente.

No instante seguinte, as colegiais pularam sem hesitação uma na direção da outra, chocando-se brutalmente de frente. As duas caíram de lado, passando a se socar e a tentarem atirar a outra para longe.

Naoya teve de observá-las com estranhamento por um instante, por mais que fosse um youkai desde que nascera… e isso fazia tempo.

Só voltou à realidade quando viu que Mika tentava morder Yui com presas nada humanas e havia erguido uma mão com garras imensas.

– Yui! – o youkai chamou-a, jogando-lhe a Tessaiga.

Mika rugiu e tentou estapear o objeto girando no ar, porém foi repelida por um poderoso estalo dourado ao primeiro toque. Yui, por sua vez, levantou-se e agarrou a espada, jogando a bainha de lado.

A imensa espada puxada atacou Mika num movimento contínuo ao saque, atingindo-a no braço conforme a youkai deu um pulo para longe para se desviar.

– Você é só uma humana! – gritou ela, confusa e muito, muito irritada – Não pode matar um youkai!

– Venha aqui para ver quem está certa! – rugiu Yui de volta.

A garota com a espada avançou veloz como se carregasse uma pena. Mika deu um salto e, num piscar de olhos, tornou-se um gato listrado maior que um homem adulto.

Naoya refletiu se deveria intervir, mas não foi necessário.

Por uma fração de segundo, Yui não moveu a espada, avaliando a inimiga – mas a youkai gato continuou a avançar reto, de bocarra aberta e garras estendidas para estraçalhar o que havia a frente.

A Tessaiga cortou os ares.

Sangue voou em linha reta pela noite, acompanhando o movimento da lâmina.

O youkai, em seu semblante monstruoso de gato, caiu duro no chão com o tronco separado em dois.

Não se moveu mais.

Yui, ofegante, largou a espada de lado, sem nem ver que o objeto voltou a ser um artefato enferrujado. Ao invés disso, observou o gato-monstro caído na grama.

O youkai sangrava e sangrava.

Por mais que esperasse, o corpo não chegou a transformar-se numa colegial humana.

Era um alívio.

Por outro lado, criava um vazio.

– Eu… posso? – Naoya perguntou com cautela, indicando a carcaça.

Yui acenou impaciente para que fosse em frente.

Não estava realmente olhando para a raposa mexendo nas tripas do youkai gato; estava tentando se lembrar de como Mika se parecia.

Não a conhecia por tempo o suficiente para dizer que entendia tudo sobre ela… Mas a conhecia por tempo o suficiente para saber que não era uma má pessoa.

Pessoa.

Talvez fosse uma má youkai.

A única certeza era de que não entendia mais nada.

– Eu deixo minha cauda escondida – disse Naoya.

– Hã? – Yui encarou-o.

– Deixo escondida debaixo do kimono. Não é para todo mundo ver – ele completou.

A colegial deixou escapar uma curta risada seca e balançou a cabeça. Virou as costas para a carcaça de youkai pouco antes dela ser envolta por chamas arroxeadas e desaparecer como se nunca tivesse existido.

Yui agarrou a espada enferrujada caída e buscou pela bainha.

– Pegue essa coisa – ela disse, jogando a arma embainhada para Naoya. – Vou para casa.

– Sobre o que eu falei…

– Se é sobre a cauda, não vou contar para ninguém. Se é sobre caçar youkais…

Yui não se voltou para fitá-lo.

– Só se estiver aqui pelo bairro – resmungou.

A garota deixou a praça a passos lentos e pesados. Visivelmente estava abatida, mas não era isso que intrigava Naoya.

A força bruta não era a única coisa estranha da menina.

A forma como a raiva e a sede de batalha superavam todas as outras emoções, fazendo-a agir somente com um instinto primitivo, não eram características humanas.

Era quase como se ela fosse…

“Não fui eu” – disse uma vozinha assustada.

Naoya ergueu a sobrancelha e voltou-se para trás.

O rapazinho magricelo que tinham visto há pouco tempo – pequenas orelhas de gato estavam visíveis no topo da cabeça – tremia atrás de uma árvore.

– Não fui eu que comi as pessoas aqui do parque. Ela que me obrigou – o rapaz continuou com a voz trêmula. – Se eu não trouxesse pessoas aqui, ela me batia. E dizia que eu seria o próximo.

– Ok, ok – Naoya abanou o leque com indiferença. – Acredito em você, pobre criatura miserável.

– Vocês não vão fazer mal a mim, vão? Afinal, são youkais também…

– Bom, a princípio, Yui é uma menina humana… – murmurou Naoya. O outro não pareceu ouvi-lo. – Mas tudo depende de você – disse, agora para ser ouvido.

O rapaz congelou no lugar.

– Você será útil para nós – a raposa sorriu.

 

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