RESENHA: ORIGEM (DAN BROWN)
26/03/2018
RESENHA: JOYLAND
17/04/2018

4 ESTAÇÕES – PRIMAVERA 3

“Você pode ser uma youkai” – declarou Naoya.

“Como pode saber?”.

“Porque não há humanos lá”.

 

*

 

A madeira do teto, parede e chão eram velhos e úmidos. Tudo caía aos pedaços e não se podia ver muita coisa com só um filete de luz solar vindo do alto.

Água pingava discretamente.

Uma caixa alongada e desgasta tremeu no meio do lugar.

Caixa?

Havia grossas cordas amarrando-a de todos os lados, mas o objeto se assemelhava mais a um…

Caixão.

 

Yui resfolegou e abriu os olhos de uma vez só.

“Então, caso observem na página 341, podem perceber que o autor passou a descrever mais os sentimentos dos personagens, ao invés do que eles fazem” – dizia o professor de literatura ao longe. – “Srta. Uesugi, você está me ouvindo?”.

Yui endireitou-se na carteira. Ele não estava tão longe assim.

– Não se esqueça de que me deve dois trabalhos de recuperação – o professor alertou, apontando para ela.

– Yui! – ralhou Kouta aos sussurros, na carteira ao lado.

Inevitavelmente, a garota viu o lugar logo ao lado do amigo.

A carteira de Mika.

Vazia. Fazia semanas.

Kouta seguiu o olhar de Yui e mostrou-se abatido – mas, no caso dele, por achar que a colegial com que sempre andaram estivesse desaparecida sem explicações. Como os pais dela informaram a escola.

O professor ainda falava sem parar quando o sinal para ir embora bateu. Kouta levantou-se e puxou assunto sobre estudos e programas de TV.

– Estou bem – suspirou Yui, quando estavam quase no portão. – Não bem… mas vou ficar.

– O que é aquilo? – Kouta apontou adiante.

Alunos se acumulavam no portão por estarem andando devagar e virando os pescoços ao saírem. Cochichavam curiosos e apontavam sem titubear.

E não era por menos: um sujeito com longos cabelos laranja-vivos estava parado bem diante da escola, se abanando com um leque que só não era mais colorido e chamativo do que seu tradicional kimono completo cheio de estampas.

Pior do que isso, só se estivesse com as orelhas de raposa para fora.

– Naoya?! – deixou escapar Yui, se arrependendo logo depois.

– Você conhece? – perguntou Kouta com olhos arregalados. Agora, alguns dos curiosos apontavam para a garota.

– Yui! – chamou Naoya naturalmente, eliminando quaisquer chances dela fingir desconhecê-lo – Venha aqui um pouco!

Com uma careta de desgosto, a colegial aproximou-se. Kouta seguiu-a.

– Vocês se conhecem? – perguntou uma voz que não era de Kouta.

Yui deu um pulo e virou-se para trás, dando de cara com uma face sem características.

– Miura! Desde quando estava aí?! – ela brigou.

– Desde que saiu da sala.

– Fiz uma constatação hoje, mais cedo – começou Naoya, sem ligar para os dois garotos ao lado de Yui.

– Agora não – ela cortou, alarmada.

– Boa tarde? – interveio Kouta, exigindo uma explicação.

– Ele é… – a colegial começou, tentando pensar em algo. – Um ator de kabuki! – exclamou.

Kouta e Miura Shinji – e mais da metade dos transeuntes por perto – avaliaram o aspecto de Naoya de cima a baixo.

“Me desculpe, atores de kabuki do universo” – pensou Yui, já arrependida.

– Enfim – arrebatou, antes que alguém contestasse. – Preciso ir para casa!

A garota começou a andar velozmente, sem esperar por ninguém. E Naoya a acompanhou, sem esperar permissão.

“O que foi aquilo?” – perguntou Miura, deixado para trás. Kouta deu um pequeno pulinho ao perceber que o estudante ainda estava aí.

– Não faço ideia.

 

*

 

“Qual foi a ideia de gênio?!” – resmungou Yui, andando a passadas largas. Por algum motivo, não conseguia deixar o youkai de kimono justo para trás.

– Eu precisava falar com você com urgência – ele se defendeu, com seu tom de voz usual. – Já te disse que sou o sacerdote-supremo do meu clã, não disse?

– Já. Sei lá o que isso significa.

– Significa que tenho poderes mais sofisticados do que os youkais normais.

– Aham. Tipo modéstia, humildade… – Yui apressou o passo.

– Consigo ver e sentir a presença de fragmentos de almas – Naoya prosseguiu, sem se importar. – Os pequenos cristais que tirei de dentro das criaturas que você já viu.

– Essa é a coisa que seu clã precisa para ganhar as batalhas?

– Exato! – Naoya impressionou-se que a garota lembrasse. Seu esforço de vir visitá-la com frequência e pregar a mesma história estava funcionando – Na realidade, tento replicar algo que escritos antigos chama de “joia de quatro almas”. Trata-se de uma pedra gerada a partir de almas de milhares de youkais e uma poderosa alma humana.

Yui murmurou em resposta; por mais tentasse ignorar, a história de youkais fisgava sua atenção.

– Em tese, unir fragmentos de almas que, diga-se de passagem, só eu consigo retirar de corpos – anunciou Naoya, cheio de orgulho -, criaria uma joia dessas. Mas se eu ficar juntando pedacinhos que se parecem grãos de areia, vou levar minha inteira. E olha que eu vivo bastante.

– Por isso quer os tais Youkais Maiores – Yui dobrou a esquina. Naoya seguiu.

– Os fragmentos que eles poderiam fornecer são verdadeiros pedaços. Se eu tivesse pelo menos quatro deles, poderia criar uma joia de almas.

– E o que está querendo de mim hoje? – reclamou.

– Sinto a presença de um Youkai Maior na redondeza! – a raposa exaltou-se – Ele é esperto e tenta encobrir seus poderes, mas consegui detectá-lo após muito esforço.

Yui andou mais rápido. Subiu escadas.

– E? – ela perguntou impaciente.

– Vamos caçar o youkai! – declarou Naoya.

– POR QUE ESTÁ ME SEGUINDO ATÉ AQUI?! – berrou Yui, no meio de seu quarto, fazendo as orelhas de raposa do homem surgirem com um “puf” e fumacinha – Por que a Tessaiga está em cima da minha cama?! Você entrou aqui?!

– Achei que ia precisar para matarmos o Youkai Maior.

– Você entrou aqui! – ela se descabelou.

– Vai ser rapidinho – tentou Naoya. – Ou quase. Só preciso achar o local exato…

– Você nem sabe onde o bicho está! – Yui jogou a bolsa na direção da raposa, mas o youkai se esquivou com um passo.

– Sei que está por perto.

– Tenho mais coisas pra fazer!

– Como o quê? – perguntou ele, agora se desviando de um livro bem grosso.

– Eu tenho uma prova de reforço no final de semana. E uma dezena de trabalhos pra entregar!

– Você é bem ruim em alguma matéria.

Yui olhou feio.

– Leve embora essa espada.

– Não, calma – Naoya disse com um sorriso amarelo. – Vai ser rápido.

– Então me ajude! – arrebatou Yui, cruzando os braços.

– Oi?

A garota cerrou os dentes num sorriso maldoso.

– Você sempre vem pedir a minha ajuda; então estou pedindo sua ajuda em troca.

– Serve minha ajuda em deixar o bairro mais seguro? – Naoya abanou-se. Começava a sentir um suor estranho.

– É literatura – Yui já havia sacado uma dúzia de livros de baixo da cama. – Você tem cara que entende dessas coisas velhas. Deve conseguir entender o que esses autores malucos estão falando.

Tudo isso?! – exclamou a raposa quando a garota lhe empurrou a pilha de livros.

– Preciso fazer um resumo detalhado desse daqui, desse e desse. Desses três aqui, preciso responder um questionário de cinco páginas cada. Esses daqui…

– Meu deus do céu. Já pensou em largar a matéria? – alguns livros escaparam dos braços do youkai e caíram.

– Já, mas sou uma estudante de ensino médio! Não tenho essa opção! – gritou Yui, cheia de raiva.

– Mas…

– Lição! E aí eu te ajudo, droga! – ela agarrou a Tessaiga pela bainha e a balançou com violência.

Naoya deu um grande suspiro.

– Tudo bem – cedeu ele, deixando escapar mais alguns livros. – Para quando é tudo isso?

– …Depois de amanhã.

– Yui! – ralhou Naoya.

 

*

 

“E foi assim que conseguiu trazer estudos de uma menina humana para cá?” – questionou a velha raposa branca, deitada em seu futon como sempre.

– Parece um preço barato para fazer a menina humana matar youkais com uma espada – respondeu Naoya, sentado sobre o tatame e de frente para uma pequena mesa de madeira, escrevendo avidamente.

– Como se você entendesse algo desses livros – o comentário maldoso da velha não foi apagado pelos gritos de batalha do lado de fora. – A menina vale tudo isso?

– Ela é forte. Forte até demais, se quer saber, Sra. Hakuouko – Naoya parou de escrever por um instante. – É intrigante.

A raposa branca riu.

Naoya encarou-a. Não era legal ter uma velhota rindo da sua cara.

– O que é? – perguntou a ela.

– Nada – disse Hakuouko misteriosamente.

Um rapazinho com orelhas de raposa, vestindo armadura, atravessou o shoji do local com um grito de dor, escorregando pelo tatame e parando próximo aos dois presentes.

– Tem ideia do que esse parágrafo quer dizer? – perguntou Naoya, puxando-o pelo colarinho ensanguentado e apontando uma página.

– …Não, senhor… – grunhiu o rapaz, antes de desmaiar.

– Meu deus. Esse negócio é complexo demais – suspirou o sacerdote-supremo.

 

*

 

“O que é isso?! Você é pior do que eu!” – declarou Yui, ao se deparar com a tarefa trazida por Naoya. A garota estava de pijama e coçava os olhos em sua cama. O sol da manhã começava a entrar pela janela.

– Não é porque sou um sacerdote que serei um especialista em escritos antigos! – defendeu-se a raposa, virando as dezenas de páginas de caderno que preenchera para a garota.

– Espero que o professor acredite que essa é a minha letra… – resmungou Yui, notando que Naoya escrevia como um velhote que fazia shodou há décadas. – Ei! Está incompleto!

– Foi o que consegui! – o youkai abanou-se, cansado – Não serve?! – suplicou.

– Você quer a minha ajuda ou não?!

“Yui! O que está fazendo aí?!” – ralhou a mãe do andar de baixo, mas a colegial já tinha se habituado a ignorar.

– Pense assim – disse Naoya: – O fato de termos nos encontrado não deve ser coincidência.

Yui encarou a face séria da raposa por vários segundos.

– Hã?! – reclamou, com uma careta.

– Podia ter feito uma reação mais emocionada – queixou-se o outro.

“Yui! Vá para o supermercado!” – gritou a voz sonolenta da mãe.

Agora?! – exclamou Yui.

 

*

 

“Por que está me seguindo?!” – brigou Yui com um Naoya de orelhas escondidas, segurando um cesto de compras para tentar agradá-la – “Eu já disse que só vou te ajudar quando terminar minhas tarefas! …E você nem sabe onde está o tal do Youkai Maior!”.

– Eu consigo encontrá-lo com um ritual simples! Só preciso de algumas coisas específicas – o braço de Naoya caía toda vez que algo pesado era colocado no cesto. Os clientes do supermercado olhavam torto para o homem de kimono supercolorido.

– Que coisas? – Yui ergueu a sobrancelha.

– Uma plantação de 1 hectare de cevada, um boi e sangue youkai.

Dois clientes do supermercado cruzaram com a dupla no corredor de farinhas e leite e torceu a cara. Yui os espantou com um rugido.

Onde vai encontrar essas coisas no meio da cidade?! – ela brigou.

– Lá perto de casa tem bastante! – disse Naoya.

Onde você mora?! – Yui arregalou os olhos.

O youkai deu uma pequena pausa, intrigando a garota. Entretanto, em questão de segundos, pigarreou e declarou:

– Na mansão da líder do meu clã, a Sra. Hakuouko.

Yui silenciou-se, refletindo sobre algo que queria perguntar fazia uns dias.

– De onde você vem? – questionou, de frente para Naoya.

O youkai soube que não se tratava da cidade de onde ele vinha ou de uma moradia.

Ela falava de trajetos.

– Um dia, de manhã cedo, eu vi você saindo de uma das construções pequenas do templo – explicou Yui. A janela de seu quarto tinha um ângulo ótimo para o lugar. – E… dentro daquilo só tem uma coisa.

– Um poço – concordou Naoya.

A garota lembrou-se de todas as histórias inacreditáveis que a raposa lhe contava sobre seu clã e as batalhas infindáveis travadas entre milhares de youkais.

Um lugar cheio de youkais.

Um mundo cheio de youkais.

– Só eu consigo passar por esse poço – Naoya tranquilizou-a. Até seu sorriso falso serviu para confortar. – Alguns dizem que é genético, outros dizem que só quem possui uma missão pode passar por esse poço.

A raposa nunca dissera nada com todas as palavras, mas Yui sempre sentira que a criatura vinha de outro mundo. Outra época. Suas histórias de espadas e armaduras não faziam sentido para uma cidade do século XXI.

Dizia ele que caçar Youkais Maiores ia ajudar seu clã a vencer uma guerra.

Teria isso a ver com o fato de não haver tantos youkais no século XXI?

– Vamos dar um jeito nessa porcaria de ritual – declarou Yui, cruzando os braços.

– Muito bem – respondeu Naoya, tentando disfarçar o alívio.

– Então segure isso aqui – Yui jogou duas caixas de leite no cesto. A raposa se desequilibrou.

 

*

 

“O que é isso?” – perguntou Naoya na casa de Yui, após a garota ter verificado que seus pais não estavam em casa.

– Cevada e boi – a garota apontou para a mesa da cozinha. Havia uma caixa de cerveja do seu pai e uma bandeja de carne vermelha fresca. – E uma faca.

A garota segurou a faca de cozinha diante da cara de Naoya.

– Me diga que isso não é para o “sangue de youkai” – a raposa torceu a cara.

– Está vendo mais algum youkai aqui?

– …O que faz você pensar que consigo fazer o ritual com esses ingredientes de churrasco?

– Você é o “oh, grande sacerdote-supremo”, não é? – Yui encarou-o.

Naoya apanhou a faca a contragosto, antes de fazer um furinho de nada na ponta do dedo.

– Eu não disse que não iria conseguir – resmungou. – Só não espere qualidade num ritual desses.

O youkai desenhou algo no ar; a gotinha de sangue pairou no nada por um instante, traçando um símbolo curvilíneo.

No segundo seguinte, a caixa de cerveja e a bandeja de carne sumiram dentro de um intenso fogo arroxeado, o qual subiu até o teto e mostrou flashes de diferentes cenários numa sequência muito rápida.

Tudo desapareceu em questão de três segundos.

– Está vendo? Nem deu tempo de eu avaliar os locais… – começou Naoya, voltando-se para trás, até arregalar os olhos para a panela imensa que Yui segurava, cheia de água.

– Se salvou por pouco – ela disse, sem desmanchar a postura de que iria tacar toda a água sobre a mesa. – E não se gabe desse ritual meia-boca. Teve uma hora em que mostrou só uma tela preta.

– Não era uma tela. Se estava preto, era porque o lugar estava escuro – o outro se defendeu. – Reconheceu algum lugar?

– Bom, reconheci, mas…

– Então basicamente é só visitarmos os locais e perguntarmos – Naoya levantou-se num movimento fluido, já andando para a porta.

– Mas..! – tentou alertar Yui, mas a raposa já a esperava na saída.

A garota grunhiu e seguiu-o.

 

*

 

A livraria estava lotada.

Apinhada de pessoas, a franquia que vendia livros novos e usados, CDs, DVDs, revistas, mangás e até games, parecia até mais quente que o exterior, apesar do ar condicionado.

– O que vai perguntar? – questionou Yui, começando a se acostumar com o fato de todos os transeuntes sempre darem uma olhada intrigada para o homem de kimono. Pelo menos, ajudava a disfarçar a bolsa de shinai que a garota carregava. – “Viu alguém por aqui?”.

– Veja só isso – Naoya estava ocupado analisando as revistas nas prateleiras imensas. – Não há uma divisão entre os produtos adultos e os comuns. Tem crianças olhando.

As “crianças” – adolescentes do colegial – com olhos nos pornôs deram um sobressalto e se viraram para o indivíduo apontando-os com o leque.

Vamos embora – disse Yui. – Sua existência já é esquisita. Não precisa ser preso por assediar meninos.

– Mas eu ainda não olhei o resto da loja… – tentou dizer o youkai, sendo puxado pela garota.

 

*

 

“De novo aqui?” – resmungou Yui, andando pelo supermercado sem nem carregar uma cesta de compras.

– É porque você disse ter visto o estacionamento daqui – respondeu Naoya, caminhando calmamente como se fosse um passeio no parque. Ao longe, os caixas e faxineiros começavam a cochichar e a apontá-lo.

– Do que adianta ir a lugares cheios de gente? – perguntou Yui entre dentes, com pressa de deixar o local.

– Biscoitos em formato de guaxinins! – Naoya apontou para uma caixinha colorida nas prateleiras – O que aconteceu com os coalas que têm por toda parte?

– Já pensou em como vai fazer o resto da minha lição de literatura?

A raposa travou por um instante. Seus olhos fitavam o biscoito, mas não via coisa alguma.

– Tem umas vinte perguntas sem responder! – pressionou Yui.

Naoya continuou parado. Por algum motivo, a garota teve a impressão de que ele pensava fortemente com sua cara impassível.

De tanto fazer força, as orelhas de raposa saltaram aos olhos com um “puf” e fumacinha.

– Meu Deus! – exclamou Yui, esticando os braços para tampar as orelhas felpudas quando uma senhorinha e duas crianças já haviam gritado – Vamos embora! Vamos embora!

 

*

 

“Estou cansada!” – acusou Yui, já não aguentando mais a empreitada ao lado do youkai maluco. Como era, mesmo, que tinha entrado nessa situação?

– Pelo menos, aqui, conseguimos uma pista – observou Naoya, apontando para as máquinas de pachinko. O barulho das bolinhas metálicas e da música no interior era agressivo demais para as orelhas de uma colegial. – Já sabemos que o youkai, homem ou mulher, é maior de idade.

– Todos os youkais são assim? – a colegial questionou enquanto o forçava a sair do estabelecimento.

– “Assim” como?

– Podem se disfarçar de pessoas. Ou são só os que eu vi?

O youkai, ao parar do lado de fora, encarou-a por um tempo, ponderando a resposta.

– Não, não são todos assim – disse ele. – Pelo menos, não de onde eu venho.

Yui não compreendeu o porquê do estranho peso da resposta; se não era assim de onde a raposa vinha, significava que era uma característica dessa cidade.

Sua cidade tinha muitos youkais que se disfarçavam.

Estava cheio deles por aí. Misturados dentre as pessoas.

“Senhor! Senhor! Eu consegui!” – uma vozinha sussurrou logo às costas de Yui, fazendo-a dar um pulo e dar uma cotovelada no estômago do sujeito magricelo que acabara de se aproximar.

– Senhor, por quê..? – grunhiu ele, caindo de joelhos e estendendo a mão para Naoya.

– Não fui eu que bati em você.

– Você é o cara do Happy Burger! – percebeu Yui, vendo o uniforme do sujeito alto e ossudo. Lembrou-se de Mika supostamente ameaçando-o para conseguir “comida” – É sério que é um youkai também?!

Ele assentiu com a cabeça, inquieto. Parecia que sua expressão-padrão era cara de um fracote que fizera algo muito errado.

– Perguntei para uns amigos se conhecem algum youkai que disfarça seus poderes – ele disse, levantando-se lentamente.

– Vocês se conhecem? – Yui virou-se de um homem para outro.

– Ele é o Yoshiki – disse Naoya, como se explicasse tudo. – Prossiga.

– Vários disseram que não conhecem nenhum youkai do gênero, mas consegui encontrar meia-dúzia que escutaram boatos. Eles moram do outro lado da Ponte de Pedra, naquele bairro cheio de prédios.

A raposa murmurou, pensativa.

– Preciso voltar para o trabalho – gaguejou Yoshiki, se afastando cambaleante. – Meu horário de descanso está acabando…

E, feito um animalzinho assustado, saiu correndo.

Claramente não estava ali por bel prazer.

– Então é para lá que vamos – declarou Naoya, sem nada explicar.

– Espere aí!

O youkai voltou-se para trás, intrigado com o alarme.

– Algum problema? – perguntou.

– Eu ainda não almocei!

– …Oi?

– Já passou das três da tarde e eu ainda não comi nada! A última refeição foi o café da manhã, que não tomei direito por sua causa! – ela brigou.

– Temos um Youkai Maior para caçar…

– Diferente de você, eu sou só uma humana! – ela rugiu, agarrando-o pelo colarinho e dando um chacoalhão – Se não comer, vou morrer!

– Está bem, está bem! – cedeu Naoya.

Havia algo errado na relação de parceria que possuíam… e algo muito errado com essa humana.

– Você paga! – ela gritou.

– O quê?!

 

*

 

O céu passava de laranja para arroxeado enquanto anoitecia. Yui terminava de tomar seu refrigerante no canudinho, caminhando satisfeita sobre a Ponte de Pedra.

– É uma ponte bonita – constatou Naoya, abanando-se e espiando as pedras bastante brutas e de cores ligeiramente diferentes que formavam uma ponte curta.

– Pronto – declarou a garota, ao jogar seu copo plástico num lixo na rua. – Agora posso procurar pelo Youkai Maior.

– Mas não vamos precisar procurar. Tenho uma forma de achá-lo, agora que temos um raio de busca menor.

– O quê? – Yui encarou-o – Se eu soubesse, não teria comido por um dia inteiro. Pensei que fôssemos correr feito idiotas pelo bairro!

– Mas..! – Naoya abriu e fechou a boca, mas terminou por revirar os olhos – Temos um problema de comunicação.

– Aham. O problema é você.

– Não é isso que eu quis dizer…

– Vai logo! – ela brigou.

Naoya suspirou e abriu os braços.

Três luzes fracas arredondadas, de cor alaranjada, saiu de dentro do kimono, como se estivesse lá guardado o tempo todo. Yui imediatamente olhou para os lados, mas felizmente não havia transeuntes.

– O que é isso? – ela perguntou.

– Youki. Ou algo que sobrou dos resquícios do rastro de youki – explicou Naoya, com as luzes pairando diante de si. – Só consegui reunir porque…

– Porque é um sacerdote-supremo, ok, ok.

O youkai encarou-a. Mas conseguiu prosseguir:

– Eu não estava só fazendo hora nos estabelecimentos que visitamos.

Com um movimento rápido, o youkai desenhou algo no ar. Não houve fogo ou algo que marcasse o trajeto, porém as três luzes trilharam num piscar de olhos pelo símbolo desenhado, reunindo-se num ponto central e tornando-se uma bola luminosa do tamanho de uma melancia.

No instante seguinte, a luz saiu voando com um estalo, deixando para trás somente um rastro luminoso no chão.

– Corra – disse Naoya, já seguindo o rastro.

A dupla correu atrás do rastro que desaparecia gradativamente.

“Está ficando escuro!” – apontou Yui, vendo o bairro composto por muitos prédios altos e árvores retorcidas tomar um aspecto surpreendentemente assombroso.

– Estamos quase lá – disse Naoya, apertando ainda mais os olhos. – Posso sentir o youkai.

– Ele não escondia os poderes?

– Exato. O que significa que ele percebeu que estamos chegando – Naoya indicou o rastro no chão. – E resolveu que, nesse caso…

– Vai nos matar – Yui grunhiu.

Por algum motivo, sentiu o mesmo calor de quando enfrentou Mika. A Tessaiga, escondida na bolsa de kendô às suas costas, pareceu vibrar em resposta.

– Quanto esse Youkai Maior é forte? – perguntou.

– Não sei. Os escritos antigos não diziam.

Ainda correndo, Yui fitou-o de forma acusadora.

– E como é que você faz uma menina enfrentar um bicho desses?!

– É só mais um youkai ligeiramente forte – a raposa se defendeu. – Já enfrentei piores; o que os torna Youkai Maior não é sua força, e sim uma característica peculiar de sua… biologia.

A garota não mudou a cara torcida de descontentamento, mas inevitavelmente pararam quando a trilha luminosa acabou num terreno quadrado e pavimentado, cercado de edifícios.

Na escuridão – os postes de iluminação falhavam -, um homem estava agachado e mexia num gato de rua.

O gato miou entediado e correu.

– Você é o tal do Youkai Maior?! – questionou Yui, parando a alguns metros do sujeito. Naoya arregalou ligeiramente os olhos ao ver que a garota já estava com o cabo da espada em mãos, pronta para sacá-la.

– Esse é um termo usado nos livros. Ele não deve conhecer essa nomenclatura – a raposa soprou.

– O quê?! Diga uma coisa dessas antes!

“Uesugi, baixe a espada” – disse o sujeito.

A colegial congelou por um segundo.

Não. De novo, não.

As roupas casuais e a escuridão não a haviam feito reconhecer antes, mas a voz e o porte…

– Professor Katsuragi..? – sibilou Yui.

O homem voltou-se para trás tranquilamente, avaliando sua aluna e o indivíduo peculiar com orelhas de raposa. Este último abanou-se com o leque e ergueu uma sobrancelha, reconhecendo o nome das histórias da garota sobre aulas de literatura.

– Parece que tem uma impressão errada dos youkais – começou o professor, calmamente. – Você começou com o pé esquerdo, conhecendo a jovem Mika. Ela atacava pessoas, mas não são todos assim.

– Ah, tá – Yui conseguiu se forçar a dizer algo. – Não venha com esse papo de que são bonzinhos. É um instinto. Vem de dentro.

O professor fitou-a intrigado. A própria percebeu a bizarrice após um instante.

Como ela poderia saber de uma coisa dessas?

– Admito que somos violentos. E que outros só não atacam pessoas porque não têm coragem ou força para tal. Porém não minto ao dizer que youkais não são assassinos.

– A questão não é sobre youkais em geral – interveio Naoya, permitindo que Yui respirasse. – Queremos saber se você é um assassino.

O professor refletiu por um momento; porém Naoya se adiantou:

– Porque eu não sei se vocês podem sentir, mas há uma gangue inteira de youkais aqui – a raposa indicou os prédios dos arredores com o leque fechado. – E não acho que você os use para ações beneficentes.

Katsuragi abriu um sorriso.

Havia quatro grandes presas em sua boca.

Yui sacou a espada assim que viu o professor dar um passo para frente; no entanto, ventos fortes a fizeram parar.

No instante seguinte, existia um felino do tamanho de uma residência adiante, cuja parte inferior etérea do corpo – feita de fracas luzes em forma de milhares de cristais – possuía metros e metros de comprimento, dando-lhe a extensão dos edifícios do entorno.

– Gangue? Que gangue?! – reclamou Yui entredentes.

– Estavam protegidos pela aura do professor – Naoya explicou-se. – Só senti quando já estávamos aqui.

Dezenas e dezenas – quase uma centena, quem sabe – de miados arranhados soaram pelo terreno.

Um a um, homens e mulheres começaram a dar as caras pelas muitas sacadas dos três prédios que cercavam a dupla recém-chegada, saltando para a área aberta sem se importarem com o andar em que estavam.

Quando atingiam o chão, já haviam tomado a forma de um felino com tamanho de um adulto.

– Eu vim aqui para lutar contra um youkai – disse Yui, deixando bem claro que não possuía planos para dar cabo de uma centena de gatos.

– Fique calma. Concentre-se no grande – disse Naoya, apontando o professor gigantesco que, observando bem, possuía uma juba de luzes efêmeras. – Veja só. É um leão. E nem há leões no Japão…

– CAÇA! – gritou alguém da horda dos youkais gato, fazendo todos se moverem de uma só vez.

– NAOYA! – brigou Yui, sacando a Tessaiga.

– Por que eu?!

A garota brandiu a espada gigante uma só vez, o suficiente para cortar o primeiro a se aproximar e desacelerar os demais com o receio.

Naoya moveu rápido o braço, fazendo a si e a colegial desaparecerem em fumaça branca que tomou grande parte do centro do terreno. Miados irritados soaram para todos os lados.

– Para onde eles foram?! – gritaram muitas vozes na bagunça.

O youkai Katsuragi não aguardou; com sua imensa pata, varreu toda a parte central do local, sem se importar com meia-dúzia de capangas que voaram no processo.

– Está aqui – disse a voz do professor, saindo da boca de um leão gigante.

Quando a fumaça se dissipou, todos viram a colegial com a espada imensa correr e pular por cima da pata que tentava esmagá-la.

Imediatamente todos os gatos dispararam atrás de Yui, que saiu correndo pelas sombras dos prédios para despistá-los; Katsuragi, por sua vez, procurou pelos arredores.

Onde estava o youkai raposa?

 

*

 

“Está aqui! Achei!” – berrou um dos gatos, ao ver uma silhueta feminina se esgueirando pelas sombras do estacionamento sob um dos prédios.

Todos os companheiros felinos se juntaram em resposta, correndo com as quatro patas no chão.

– Desista, menina! – disse um dos youkais. A aparência era de um gato-monstro qualquer, mas a voz era de velha.

Ao tentar ceifá-la com suas garras, cortou apenas o ar quando a menina se esquivou com um passo. A velha youkai deu dois, três golpes em sequência, porém a colegial desviou-se com leveza, usando movimentos pequenos. A espada mal parecia pesar em sua mão.

A horda de gatos chegou com atraso; a dezena que chegou primeiro saltou ao mesmo tempo para cima da presa, mas ela deu um pulo estranhamente alto e leve para uma humana, indo parar do outro lado do agrupado de youkais.

– Tem algo errado! – gritou um youkai menino.

“Muito inteligente, criança” – riu Yui.

A voz não era de uma garota.

Com um estouro de fumaça, a figura da colegial com uma espada gigante foi substituída por um homem com orelhas de raposa e kimono.

– Preferem brigar comigo… ou descobrirem onde Yui foi? – Naoya sorriu, abanando-se com o leque.

 

*

 

Yui escutou miados raivosos vindo de algum lugar na parte baixa do terreno. O vento estava forte na sacada mais alta do prédio e a altura era digna de dar vertigens… mas ela não ligou.

O sangue fervia.

A garota pulou com a ponta da Tessaiga apontada para baixo, praticamente montada no alto da arma.

Não se importou que o Youkai Maior tivesse se dado conta no último segundo, voltando-se para trás e olhando-a.

Com um grito de raiva, agora que a criatura já a encarava, Yui afundou a Tessaiga no olho imenso do leão – sangue muito escuro sujou-a no rosto e tronco, enquanto o youkai rugiu.

Yui viu a pata gigante vindo afastá-la. Chutando a cara do leão com o pé, conseguiu impulsionar-se a tempo do golpe atingir a espada, e não a si.

A garota rodou no ar, desajeitada.

Até algo bastante fofo e peludo se chocar contra ela, desacelerando a queda antes de atingir o chão.

Quando olhou para o lado, de pé, só viu o youkai Naoya de sempre; um homem alto e magro de kimono espalhafatoso.

– Isso era..? – Yui apontou para o alto, mas a ação a fez lembrar-se do Youkai Maior – Ele não é normal. A espada não cortou como deveria.

– Talvez ele tenha fontes de poder – disse Naoya, começando a escutar a horda revoltada de gatos retornando. – Escritos dizem que a “joia de almas” dava poderes extraordinários para youkais.

Estreitando os olhos, a raposa analisou o Youkai Maior, o qual já avançava em alta velocidade com a bocarra aberta.

“Ali” – Yui conseguiu escutar Naoya dizer.

Professor Katsuragi chocou-se contra a terra quando a dupla a sua frente separou-se, saltando para o lado. Sem parar, moveu a cauda abruptamente para acertar a colegial que rolou no chão.

Yui teve de se levantar e pular para uma janela com grades, usando-a como apoio para impulsionar-se e passar por cima do corpanzil etéreo.

A cauda gigante azul atingiu o prédio, criando uma rachadura por metade de sua extensão.

A horda de gatos chegou com unhas e dentes, pulando como os animais selvagens que eram. Yui brandiu a espada e conseguiu atingir dois ao mesmo tempo; o cair de seus corpos atrasou a reação de um pequeno grupo de youkais.

A garota arregalou os olhos ao notar que o leão gigante caía de corpo inteiro sobre si.

No entanto, segundos antes de ser atingida, a criatura gritou e se desequilibrou imensamente, acertando vários de seus capangas.

Compreendendo o que ocorreu, a colegial pisou no focinho em queda do monstro e correu pelo seu corpanzil, avançando o mais rápido possível até o meio das costas azuis.

Havia um acumulado redondo de luzes, aparentando ser uma bola de basquete feita de cristal.

Era “ali”, de acordo com Naoya. Um pouco mais atrás, perto da cauda, o youkai raposa passava a correr para o terceiro acumulado de luzes, próximo à pata traseira.

Yui ignorou os dez gatos que galgavam o corpo do Youkai Maior para alcançá-la e desceu a Tessaiga com todas as forças no cristal redondo.

A energia se dissipou com um estalo ao mesmo tempo em que fora atingida por um dos capangas. Com metade de um segundo de atraso, professor Katsuragi rugiu de dor junto ao som do terceiro estalo.

O corpanzil desapareceu; Yui deu cotoveladas enquanto caía, atracando-se com um moleque com face repuxada num focinho felino. Ao atingir o chão, cheio de cortes pelo corpo, a colegial conseguiu ficar por cima, caindo com o joelho na cara da criatura.

Quando notou, Naoya pousou ao seu lado e criou um grande círculo de fogo arroxeado no entorno de onde estavam.

Não se sabia se havia algum efeito mágico nas chamas, mas os capangas visivelmente não queriam se arriscar.

Principalmente quando seu poderoso chefe tinha sido reduzido a uma cabeça gigante de leão se debatendo no chão.

– Como você pôde?! – rugiu Yui; não estava vendo mais nada quando desceu a Tessaiga bem no meio da cara do monstro.

Os capangas gritaram assustados.

“Vão para a página 208…” – pensou ter ouvido a voz do professor dizer, enquanto a cabeça rachada ao meio se desfez até se tornar só ossos.

– Veja só isso! – disse Naoya alegremente, enfiando a mão no meio do crânio quebrado e puxando uma pedra com cerca de três centímetros. Na meia-luz, parecia uma pedra qualquer – Olhe o tamanho dessa joia de almas!

Yui não estava escutando. Ofegava e tentava mandar o calor inexplicável embora.

A Tessaiga voltou à forma de espada enferrujada em sua mão.

Os capangas, do lado de fora do círculo arroxeado, fez menção de se mover.

– Escutem bem! – gritou a garota, agarrando o moleque com a cara afundada pelo colarinho e balançando-o – Nada de matar por aí, entenderam?!

Algo na voz da colegial pareceu ter rugido feito uma criatura grande.

A centena de youkais-gato recuaram um passo ao verem-na jogar o rapazinho no chão novamente e pisar em seu peito sem dó.

– ENTENDERAM?! – repetiu.

Atrás dela, o youkai raposa moveu a mão sobre o crânio de leão.

Um grito agonizante soou de algum lugar no além.

Horrorizados, os youkais assentiram repetidamente, agora se afastando com vigor.

– Voltem para suas casas e não façam nada que não seja humano! – brigou Yui, chutando o rapazinho youkai para longe e dando um pisão no chão.

Os gatos que só andavam em bando dispersaram num piscar de olhos.

Por um longo minuto, Yui recuperou o fôlego e embainhou a espada. Com mais alguns segundos, começou a sentir dores pelo corpo.

Estava sangrando.

Nunca tinha se machucado tanto na vida – como iria explicar para os seus pais? Talvez devesse arranjar algo com uma das youkais que acabou de fugir… ou simplesmente arrancar uma das camadas de kimono de Naoya e usá-lo no lugar da camiseta e shorts.

– Yui – chamou o youkai. – Yui.

A garota piscou várias vezes e voltou a si.

Não estava preocupada com seus machucados ou com a desculpa que daria aos seus pais.

Estava olhando para o concreto em que acabara de piscar com força para espantar os inimigos.

Estava rachado.

– O que é isso..? – ela sibilou, vendo o afundado na pedra – O que acontece nessa cidade?!

A garota largou a Tessaiga no chão e encarou a raposa.

Por toda sua vida, era senso comum que youkais fossem só histórias. Monstros eram coisas de ficção e o ser vivo mais numeroso numa cidade urbanizada eram humanos. Homo sapiens.

E, de repente, havia monstros para todos os lados; e o pior: parecia que estavam lá o tempo todo, vivendo em hordas nos condomínios de prédios e frequentando escolas.

– O que está acontecendo? O que eu sou? – perguntou com sinceridade.

Por que ela demorara tanto para se chocar com algo tão chocante?

– Yui, ouça bem… – começou Naoya, numa voz macia incomum. Guardando a joia no kimono, aproximou-se de sua aliada. – Não sei o que ocorre nessa cidade, mas ela certamente não é uma cidade dominada só por humanos.

Os olhos da garota desceram até a rachadura no chão. O youkai continuou:

– E, algo em seu comportamento, na maneira como reage diante de um inimigo…

“Me diz que você é uma youkai”.

Yui ergueu a cabeça, fitando-o.

Não houve desespero, negação ou incredulidade. Ela apenas sustentou o olhar do homem com orelhas de raposa.

– Você pode ser uma youkai – ele repetiu.

– Como pode saber? – Yui perguntou o óbvio.

– Porque não há humanos lá.

Lá. “Lá” onde?

– Minha cara Yui – ele disse. – Eu venho do futuro. Quinhentos anos à frente; e não há um humano sequer lá.

“Por isso vim juntar joias aqui, já que um dos ingredientes essenciais para elas são pessoas humanas”.

Havia algumas árvores de sakura nos canteiros em volta dos prédios. Pétalas rosadas voaram com o vento, mas não havia nada que pudesse fazer a garota enxergar a estação como uma bela primavera.

Era uma estação horrível.

Quando isso ia passar?

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