RESENHA: JOYLAND
17/04/2018
MESCLANDO EMOÇÕES
17/05/2018

4 ESTAÇÕES – VERÃO 1

Avô e neta se olharam nos olhos.

Houve o reconhecimento:

Ela não era mais a mesma.

 

*

 

A televisão estava ligada – raramente o faziam, já que era difícil haver uma noite de silêncio. Caso contrário, não conseguiam escutar nada no meio da gritaria das batalhas.

– Eu já vi esse DVD mil vezes – grunhiu a velha raposa branca no futon. – Me tragam coisas novas!

Naoya comeu um osenbei da mesa de centro, vendo o programa de comediantes.

– Lá na era de Yui, os humanos gravam programas novos a toda hora – explicou. – Tem grandes lojas de DVDs e também fazem transmissão de TV.

Pena que os youkais não eram muito afeiçoados a pararem e montarem programas televisivos. Os raros DVDs eram as únicas coisas que podiam assistir.

– Me traga programas humanos – exigiu a líder do clã. – Pode trazer uns vinte.

– Não deveríamos estar preocupados com o clã de youkais do norte?

Ninguém sabia ao certo youkais do quê eram. Um povinho recluso; e agora diziam que haviam despertado um demônio.

– Estão tendo problemas com o clã dos dragões – disse Hakuouko. – Parece que os dragões estão definhando cada vez mais, mas servirão para atrasar o avanço do clã do norte.

– Enquanto isso, juntarei as joias – Naoya levantou-se, ajeitando seu kimono.

– Não se esqueça dos DVDs.

– Já entendi – disse o outro, antes de deixar a sala.

 

*

 

Ele nunca pareceu assustado com o século XXI. Estava mais para um “curioso”. Como se já tivesse ouvido falar de tudo, mas nunca tivesse visto com os próprios olhos.

Isso sem contar o vocabulário nada natural de alguém de eras antigas: “biologia”, “largar a matéria”, e até “tela” de monitor.

Yui poderia ter percebido antes.

– Sou uma idiota… – resmungou, rolando na cama diante do ventilador.

Estava um calor insuportável.

A garota estava se remoendo – como estava fazendo há uns bons dias – quando escutou batidas conhecidas na janela.

Sem dizer nada, esticou o braço e destrancou o vidro.

– O que está fazendo nesse calor com a janela fechada? – perguntou Naoya, entrando naturalmente no quarto pela janela do décimo andar.

– Tem um ar condicionado lá na sala.

– …Não estou sentindo daqui.

– Eu também não.

Yui se calou. Fazia um tempo desde que o youkai vinha visitá-la só para jogar conversa fora e falar coisas sem utilidade.

Seria possível que a raposa estranha tentava levantar seus ânimos?

…Isso era ultrajante até para uma colegial.

– Vai, pode falar – disse ela num ímpeto, sentando-se sobre a cama.

– Pegue um doce primeiro – Naoya estendeu um pirulito.

– Não sou uma criança – resmungou Yui, pegando o doce e colocando na boca.

“Por onde começar?” – suspirou o youkai, sentando-se na ponta da cama.

– Podia começar explicando por que é que só tem youkais no futuro.

Naoya murmurou e se abanou com o leque.

– Na verdade, não sabemos. Faz tempo que o mundo é assim. Na realidade, só sabemos que os humanos existiram por conta de escritos antigos. Livros impressos e manuscritos.

Yui assentiu, indicando que ouvia.

– O que dá a entender… – ele continuou. – É que pouco a pouco foram havendo mais youkais no universo… e cada vez mais violentos. Deixaram de lado grande parte da cultura e tecnologia humana porque, bem, eles passam quase o dia inteiro brigando com outros youkais.

– Você disse que tem clãs.

– Sim. São violentos, mas gostam de ganhar. Com o tempo, passaram a se reunir em grupos cada vez maiores e batalham com alguma espécie de estratégia mínima.

A colegial aquietou-se. Tentou imaginar um mundo futuro cheio de bichos e monstros.

Não conseguiu direito.

– E precisam de joias de almas para vencerem as batalhas… – murmurou.

As joias só são criadas com almas humanas e youkais. Não é à toa que Naoya não conseguia reuni-los em seu mundo.

– Mais precisamente, queremos a joia para vencer um clã estranho do norte – ele suspirou cansado. – Não sabemos quase nada sobre eles; mas sabemos que despertaram algum demônio e estão avançando sem parar, dizimando outros clãs.

– Eu não tenho nada a ver com suas batalhas – lembrou Yui.

– Eu sei. É só para descobrir o que acontece por aqui – Naoya assentiu. – E eu acho que, talvez…

– Pudéssemos voltar à ativa – a outra resmungou. Mas mordeu o pirulito para jogar o palito fora e levantou-se.

“Yui, pegue isso” – disse a mãe da casa, praticamente arrombando a porta com as mãos cheias de roupas lavadas.

A mulher jogou tudo sobre a cama, só então percebendo que havia visita.

– Oh. Naoya. Está ensinando literatura pra Yui de novo? – perguntou, sem dar muita bola.

– Matemática – ele respondeu. As orelhas estavam convenientemente cobertas por uma camiseta de Yui. – Ela pode melhorar.

 

*

 

“Olha, feirinhas!” – apontou Yui num tom repentinamente vívido.

– Está sentindo o cheiro de comida daqui? Meu deus, é como um cachorro… – dizia Naoya, mas a garota já estava andando em direção às várias barraquinhas dispostas na propriedade de um templo.

Não era o Templo Sem Nome.

As férias de verão se aproximavam e, aparentemente, alguns locais estavam promovendo eventos antes da época de festivais tradicionais.

– Até que está cheio – comentou Yui, andando por entre as barracas. Crianças e adolescentes formavam a maior parte do público.

– De onde tiram energia para andarem nesse calor, num domingo, em um local abafado por barracas? – Naoya abanou-se mais rápido do que o normal.

– Ajudava se você tirasse esse haori e as vinte camadas de kimono desnecessárias.

– Chama-se “estilo”. Me desculpe se você não tem.

– Quero um takoyaki.

– Meu deus.

Yui já estava com um pratinho de takoyaki na mão quando Naoya parou de andar e virou-se para o templo bem conservado.

– O que é? – perguntou a garota.

– Ouço uma voz conhecida ali – respondeu o youkai, apontando para além da construção, na lateral do terreno em que não podiam enxergar.

– Mas suas orelhas de raposa nem estão para fora…

– Não é assim que funciona.

Conforme foram se aproximando do templo e dobrando o final da construção, começaram a escutar vozes discutindo e, por fim, visualizaram um rapaz magrelo com uniforme de fast food brigando com uma criança.

– Não! Me solte! – exclamava uma menina com longos cabelos castanhos. A roupa tradicional branca que usava indicava que, talvez, fosse alguém que trabalhasse no templo.

Pela idade, possivelmente parente do sacerdote local.

YOSHIKI! – ralhou Yui, a voz naturalmente saindo como um brado.

O rapaz deu um pulo e imediatamente largou o braço da menina.

– Ela que começou! – ele gritou.

– Você ia atacar uma menina!

– Eu não sou pedófilo!

– Então você ia devorar a menina?! – Yui começava a mostrar os dentes. Dentes humanos, mas assustava o rapazinho o suficiente.

Ela que começou! – suplicou Yoshiki, estranhamente convicto.

– Minha cara Yui, talvez ele esteja dizendo a verdade – interveio Naoya.

A briga parou e as atenções se reuniram no pulso de Yoshiki, apontado pelo leque.

Havia uma marca enegrecida.

Tinha a forma de uma mãozinha de criança.

– O quê? – Yui ergueu uma sobrancelha – Como assim?

Repentinamente, a menina lhe pareceu uma criatura ameaçadora – mas ela só estava olhando para o chão, sem graça.

– Me desculpe – a criança sibilou. Deveria ter pouco mais que dez anos. – Não foi por querer.

Ela fez menção de ir embora.

– Calma! – disse Yui, parando-a – O que você tem?

Não pôde deixar de perguntar; talvez porque tivesse se lembrado de Mika, de uma criança morta, de si mesma.

A menina, ainda de cabeça baixa, ergueu somente os olhos e avaliou-os.

Avaliou bastante; como se procurasse algo.

Sem avisos, Yoshiki deu de ombros, fazendo suas pupilas afilarem-se como a de gatos. As íris reluziram douradas.

A criança resfolegou, mas não levou o susto de uma pessoa normal.

– Vocês também são… monstros?

– Monstros… – Yoshiki resmungou.

– Que rude – completou Naoya.

– Vocês são monstros – disse Yui.

– Você não é? – a criança arregalou os olhos para a colegial.

– Como assim?!

Dessa vez, Yoshiki e Naoya tiveram de afastar a garota da menininha, que finalmente apresentou-se como Kaguya, a neta do sacerdote responsável pelo templo.

– Você pode falar, sabe? – manifestou-se Yoshiki – Ninguém aqui morde.

– Tenho pesadelos – sussurrou a menina, como se tivesse feito algo muito ruim. – Todas as noites.

Yoshiki e Yui automaticamente se viraram para Naoya, buscando respostas.

– Hã… bom… – começou preguiçosamente. Deu uma olhadela no braço enegrecido do rapazinho – Tem youkais que fazem isso. Ela pode estar possuída. E por isso atacou um youkai fraco. Deve ter parecido presa fácil.

– Faz sentido – assentiu Yui.

– Faz?! – protestou o youkai fraco.

– Já sabemos qual o problema – Naoya colocou a mão no ombro de Kaguya. – Peça para alguém te exorcizar. Yui. Vamos embora.

A garota exclamou incrédula e puxou-lhe pelo kimono para trazê-lo de volta.

– Vai deixar uma menina possuída por um youkai sozinha?! – Yui ralhou, fazendo até Kaguya e Yoshiki darem um pulo.

– Não é um Youkai Maior – Naoya resumiu. – Qual seria o meu interesse nisso?

– Talvez me agradar, já que está terceirizando serviço de caça a monstros?!

– O que é um “Youkai Maior”? – sussurrou Kaguya.

– Não sei também – sussurrou Yoshiki de volta.

– E qual o seu interesse nisso? – questionou Naoya, cansado.

– É… é… – balbuciou Yui, antes de exclamar: – É uma criancinha precisando de ajuda! Você não tem coração?!

Foi o que conseguiu dizer.

Não era uma mentira, pois realmente tinha dó da menina – mas tampouco era o motivo principal.

Estranhamente, não conseguia explicar o desespero que a movia; havia o desespero de existir youkais em sua cidade, Mika, a criança que morrera, obviamente.

Mas também não eram o motivo principal.

Havia algo.

Algo em seu interior, lá no fundo.

No passado.

Mas não conseguia se lembrar nesse exato instante.

 

*

 

“Onde você está? Pode comprar sal e shoyu na volta?” – perguntou a matriarca dos Uesugi no celular, andando pela cozinha com seus passos pesados.

– Então – disse Yui do outro lado da linha. – Eu vou dormir fora essa noite.

– Ah, é? Onde?

Não se lembrava da filha ter amigas meninas fora a pobre desaparecida Mika.

– …Na casa do Kouta – respondeu Yui.

– Ah.

Bom, era realmente a coisa mais próxima de uma menina – o que dava um tom de mentira na alegação.

Se ainda fosse um namorado, tudo bem; mas considerando a personalidade de sua filhinha, era mais possível que estivesse se metendo em alguma encrenca.

…Mas não era da sua conta. Se ela se metesse em encrenca, problema dela.

– Está com os seus documentos? – perguntou.

– O quê? – a filha respondeu perplexa – Estou. Por quê?

Para quando a polícia pedisse…

– Nada. Boa sorte.

– Sorte no quê?!

 

*

 

Yui olhou desentendida para seu celular, vendo a chamada ser encerrada pela sua mãe.

– Ela acreditou nisso? – Naoya comeu um dos takoyakis do pote de Yui.

– Sei lá. A última vez que dormi fora foi na casa da minha avó… uns dez anos atrás.

– Isso vai dar muito errado – interveio Yoshiki, já indo embora. Ele olhou de soslaio para Kaguya, ainda meio assustado. – Em vários sentidos.

A menina de yukata ergueu só os olhos para consultar a estranha dupla.

– Você concordou com isso – disse Naoya acusadoramente.

– Querem que eu os guie pela feira? – perguntou Kaguya, tentando compensar.

– Dá para ver tudo em uma olhada só.

– Deixe de ser chato – Yui deu-lhe um tapa no braço. – Temos bastante tempo.

 

 

*

 

A noite se mostrou tão abafada quanto a tarde. Não havia sol, mas o mormaço não ia embora.

Yui já estava grunhindo do lado de fora do templo antigo quando a porta de correr de madeira e papel foi aberta pelo lado de dentro.

– Já podem entrar – disse Kaguya; não era nem nove da noite, mas as luzes de seu quarto estavam apagadas, iluminado somente por um abajur.

– Já vai dormir? O que aconteceu com as crianças saudáveis que jogam jogos até de madrugada? – Naoya não fez cerimônias em entrar, deixando os jardins e a varanda de madeira para trás.

– Um ventilador. Graças a Deus – Yui sentou-se com as pernas cruzadas bem diante do aparelho.

– Estou cansada – explicou Kaguya timidamente. – …Não que eu vá conseguir dormir muito… – completou aos sussurros.

Mesmo incomodada com os olhos alheios, a menina deitou-se em seu futon e enfiou-se por inteira debaixo do cobertor fino de verão.

– Quais são as chances de algo acontecer com o seu plano genial? – sussurrou Naoya, sentando-se ao lado de Yui.

– Diga-me você – a garota já tinha se apossado de um uchiwa com desenho de ursinhos que estava jogado no chão. – Você é o sacerdote-supremo.

– Eu acho que seu conceito de sacerdote está equivocado…

– Sh! Estou fazendo digestão. Me deixe em paz.

– Por que comeu tanto?!

– Era meu almoço, café da tarde e janta! – Yui sussurrou com vigor – Como espera que eu passe a madrugada vigiando uma menina possuída?!

A dupla deu um suspiro cansado simultaneamente.

Que raios estavam fazendo?

– Tem… uma coisa que eu queria perguntar – começou Yui lentamente.

– O quê? Não é de seu feitio fazer rodeios.

– É… sobre uma coisa que Mika disse, naquele dia. Me incomodou sempre.

Mas não tivera coragem para abordar a questão.

– Ela disse algo importante? – Naoya tentou se recordar.

– “Mesmo depois de virar youkai, eu era uma boa amiga”.

Virar youkai.

Como assim, “virar”? Não se vira coisa nenhuma. Youkais são monstros.

Monstros nascem monstros.

Por outro lado, não há humanos no mundo de Naoya.

– Bom, jamais vi um humano se tornar um youkai – ele disse. – Obviamente porque só comecei a ver humanos recentemente.

– Não tinha nada nos seus livros antigos ou coisa assim? Que é uma doença, ou maldição, ou poderes de um youkai fazendo isso?

Afinal, pelo visto, tinha youkais para todos os lados. Até a pequena Kaguya, deitada em seu próprio quarto, estava sendo vítima de alguma dessas criaturas.

– Se está preocupada com o fato de que você pode ser um… – começava Naoya, porém a garota encarou-o perplexa.

– Como assim? Eu sou humana – retrucou com naturalidade.

– Oi? Achei que rachar concreto com o pé e jogar adultos para longe com as mãos tinham te dado uma pista…

– Pode ser que eu tenha alguma coisa, mas claramente não sou um monstro como vocês: não tenho orelhas estranhas nem nada.

– Isso não é um pré-requisito… – as orelhas de raposa tremeram.

– Eu fiquei assustada com os poderes estranhos, mas tem monges e padres com poderes, não tem? Eu posso ser uma variação.

Se estivesse se achando uma youkai, Yui não teria dormido um dia sequer desde a primavera.

– Mas você tem todas as características de um monstro enraivecido! – Naoya retrucou incrédulo.

– Você quer me colocar para cima ou o quê?! Se eu for um youkai, não vai ter takoyaki que me anime de volta! – ela brigou.

“Com licença…” – interrompeu uma vozinha.

A dupla voltou-se para Kaguya.

A criança tinha colocado só a cabeça para fora do cobertor.

– Será que poderiam… falar mais baixo? – ela sussurrou timidamente.

– Reclame com o Naoya. Ele que começou.

– Ei!

Os três presentes estavam olhando um para o outro, interagindo – reclamando – uns com os outros.

Por isso, quando uma pequena criatura vermelha e enrugada com olhos esbugalhados caiu bem em cima do futon de Kaguya, foi bastante chamativo.

– Youkai! – exclamou Yui, apontando o ser que lembrava um oní de pinturas antigas.

Kaguya deu um gritinho abafado e escondeu-se embaixo do cobertor.

– Por que não estão dormindo?! – o youkaizinho ganiu estupefato.

– A Tessaiga! – exclamou Yui, procurando pelos lados. – Deixei em casa!

– O quê? – Naoya encarou-a, antes de apontar o leque para o youkaizinho – Tudo bem; você não parece nada humano.

“Dê-me a sua essência” – comandou a raposa, ao mesmo tempo em que surgia um círculo de fogo arroxeado.

O youkaizinho não teve tempo nem de gritar enquanto símbolos retilíneos se formavam dentro do círculo e fumaça preta passou a ser drenada de seu corpo; em questão de segundos, o corpinho horrendo caiu morto e Naoya espanou a fumaça para longe.

– Acabou..? – perguntou Kaguya num fio de voz, apavorada; mas Yui não estava exatamente ouvindo:

– Espere aí; o porquê de você não conseguir matar os youkais aqui com a sua técnica é porque eles são humanos?

– Antes eu não tinha certeza, mas agora tenho – Naoya apontou a carcaça do monstrinho.

Yui abriu e fechou a boca várias vezes, mas terminou por grunhir e sentar-se de novo. Esse youkai só trazia notícias ruins. E o seu mundo era aparentemente uma confusão horrível de pessoas virando monstros.

“Com licença” – disse novamente a vozinha de Kaguya, que quase não ouviram.

– O quê?!

– Diga.

Responderam Yui e Naoya em tom bastante rude.

– …Já acabou? – ela disse, talvez mais interessada em que parassem de gritar.

– Sinto informar, mas não – retorquiu Naoya, sem pestanejar.

– Não? – Yui encarou-o.

– Esse tipo de criaturinha, que se alimenta de energia vital durante o sono de sua vítima, geralmente anda em pequenos grupos. Possivelmente irá aparecer mais três ou quatro durante a madrugada.

– Oh – fez Kaguya, visivelmente amedrontada.

– Não vamos largar o serviço pela metade – bufou Yui, embora não com a menina. – Mas, se eles vão vir em turnos, vamos fazer turnos também.

Sem cerimônias, a garota sinalizou para que Kaguya abrisse espaço no futon.

Naoya só pôde observar cansado enquanto compreendia que o primeiro turno era seu.

 

*

 

Yui ria, andando saltitante e mostrando para os amiguinhos do kendô como sua bolsa de shinai possuía estampas coloridas de flores no tecido preto. Era a única criança com uma bolsa personalizada.

“Eu queria um com um dragão!” – comentou um menino, gesticulando.

“Minha mãe disse que vai me dar uma bolsa rosa com o desenho de um pássaro” – disse uma menina.

O pequeno grupo foi dispersando conforme cada qual se encaminhava para sua casa.

Até Yui estar sozinha, ansiosa para chegar em casa e comer guloseimas.

Dobrando uma esquina, surpreendeu-se com uma rua repentinamente vazia e silenciosa.

Seus pais diziam para não ficar em locais sem movimento de pessoas.

Mas, nesse caso, era só uma coincidência, não era? Esse lugar era sempre cheio de gente. Além disso, era seu trajeto para casa. Nunca acontecera nada.

Yui continuou seu caminho, olhando para os lados um pouco mais que o normal.

Escutou um grito ao longe.

 

*

 

Yui abriu os olhos, sentindo o coração pulando no peito feito socos vindo de dentro.

Foi um sonho horrível; não se lembrava do porquê, mas era horrível.

Pensou ter sido algo de sua infância.

– Não é nada – se viu obrigada a sussurrar; precisava escutar algo na escuridão.

Era só o interior do futon de Kaguya. Esperava não ter chutado a criança no meio do sono perturbado.

– …Kaguya? – perguntou, notando que não havia movimento algum do seu lado.

Não havia calor algum.

E a escuridão reluziu por um segundo.

Um rosto branco estava espiando-a de volta. Os olhos inteiramente vermelhos se estreitaram e a boca que cortava o rosto inteiro sorriu.

Por uma fração de segundo muito longa, a mente de Yui se tornou uma folha em branco e esqueceu-se de que tinha um corpo – até retomar a consciência e chutar o cobertor para longe, rolando de onde estava e tomando postura para atacar o que quer que fosse.

– O quê?! – questionou a voz de Naoya, vários tons acima do normal. A raposa pigarreou e controlou o susto – Por que parece que vai saltar em cima de uma presa inocente?!

Yui avaliou sua postura de animal selvagem e se levantou.

– Tem algo ali! – acusou, apontando o futon.

Olhando para o colchão, só viu Kaguya deitada normalmente, dormindo.

– Mas… – a colegial respirou várias vezes, tentando se acalmar. – Tinha uma coisa ali!

Naoya atentou-se à menina dormindo.

Quieta demais para quem estava bem ao lado do alvoroço que fizeram.

– Mostrem-se, criaturas! – ordenou a raposa, dando um grande abano com o leque.

Finas chamas roxas assobiaram por cima do corpo de Kaguya, fazendo surgir instantaneamente meia-dúzia de monstrinhos vermelhos iguais ao visto há pouco tempo.

– Vish – disse um deles, arregalando os olhos já esbugalhados.

O chute irritado de Yui chegou voando num instante, acertando todas as criaturinhas e criando afundados na fina parede de madeira com elas.

– Nos deixe em paz! – xingou a garota, avançando sobre um deles e agarrando-o pelo pescoço.

De perto, ficava claro que eles não se pareciam em nada com o ser branco que vira embaixo do cobertor.

– Mas… – guinchou o ser estrangulado. – Ela é uma youkai! – alegou, apontando a menina deitada. As outras cinco criaturinhas assentiram várias vezes.

Yui voltou-se para trás.

Naoya analisava a criança de perto, verificando seu pulso.

– Isso não é desculpa – disse ele ao youkaizinho, indignado. – Vocês também são youkais. Ficariam felizes se fossem atacados?

– Nós fomos atacados! – um deles berrou – Por vocês!

– Ah, calem a boca – brigou Yui, balançando o monstrinho em suas mãos.

E, repentinamente, sentiu dedos gelados se fechando em torno do seu pulso.

Quando se virou espantada, deu de cara com o mesmo rosto branco de olhos vermelhos. Vestia uma roupa tradicional branca. Os longos cabelos brancos tinham o mesmo corte que o de Kaguya.

– Yui! – exclamou Naoya, ao notar que o colchão se tornara vazio num piscar de olhos.

A colegial cerrou os dentes e sentiu o corpo esfriar, porém teve consciência para tentar se desvencilhar do ser branco.

Conseguiu soltar-se facilmente.

– Me mostre o que você é – disse a criatura com voz de criança.

Os seres vermelhos saltaram em sincronia na direção da youkai; no meio do salto, Yui teve a impressão de que haviam se unido em uma criatura só, duas vezes maior do que todos juntos.

Entretanto, não pôde analisar por muito tempo. A menina branca tocou o monstro com ambas as mãos – e foi o suficiente para que eles caíssem no chão feito uma gosma de carne.

Brancos.

E a menina sumira.

– Me explique o que está acontecendo – disse Yui entre dentes, recuando a ponto de passar de onde Naoya estava e começando a pisar na varanda.

– É uma devoradora de sonhos – disse a raposa, vendo como a gosma passou a inflar e a tomar a forma de um oní cada vez maior. – Não é à toa que as criaturinhas sentissem vontade de sugar sua energia poderosa.

– Não tem ninguém dormindo aqui.

– É que, após um tempo em contato com o sonho dos outros… a mente dos outros, ela aprende a entrar nessas mentes e tomar seus corpos.

– Ah. Que agradável.

O oní branco, quase do tamanho do quarto, avançou contra as duas únicas pessoas do local, arrebentando as portas de correr de madeira quando elas se afastaram para o lado.

– Não se precipite – exclamou Naoya. – A menina possivelmente não sabe lidar com seus poderes…

Estava dizendo, quando o oní branco atirou uma pedra do tamanho de uma bola de basquete na direção da colegial; ela tentou se esquivar, porém fora atingida na lateral da cabeça, caindo no chão.

Yui grunhiu e um pouco de sangue escorreu de sua têmpora, mas ela começou a se levantar naturalmente.

Como pode me dizer que não é uma youkai?! – a raposa não pôde deixar apontar – Um humaninho estaria numa maca!

Ela não estava ouvindo.

Os dentes estavam cerrados e, os olhos, injetados de raiva.

– Meu Deus – foi tudo que Naoya conseguiu dizer, antes da colegial disparar num salto imenso para cima do oní.

A criatura branca protegeu-se com os braços, porém Yui pousou sobre ela como um animal selvagem, jogando-a para o lado com as duas mãos. O oní recuou. A garota avançou para diminuir a distância.

– Não creio que tenho de fazer isso aqui – murmurou Naoya, puxando um colar de contas grandes e pretas.

Com um movimento rápido, a raposa atirou o objeto na direção da garota. O colar acelerou no ar, buscando seu alvo, que levantou um braço para proteger a cabeça.

As contas não ligaram e se enrolaram no braço esquerdo de Yui feito uma pulseira.

– No chão! – ordenou Naoya, apontando-lhe o leque.

O pulso de Yui foi puxado numa guinada forte, capaz de deslocar o ombro de uma pessoa.

Mas ela parou o impacto com força bruta, criando crateras no solo com as mãos.

– Sério?! – exclamou a raposa, arregalando os olhos.

Yui virou o rosto irritado para o youkai, se dando conta de que teria batido a cara no chão caso não tivesse freado seu corpo.

Calma – ele disse. – Veja a criatura.

A colegial voltou-se para o oní branco. Precisaria olhá-lo caso fosse estraçalhá-lo em pedaços.

No entanto, viu como o monstro não estava fazendo nada, se encolhendo no canto do jardim, tentando se esconder atrás de uma única árvore.

A colegial observou com atenção a criatura.

Naoya rezou para vários deuses em que não acreditava para que ela voltasse a si.

E ela voltou.

– …Por que ele não está atacando? – perguntou Yui, levantando-se lentamente.

– Ela só atacou, para começo de conversa, por conta de um instinto youkai muito forte… como você frequentemente faz.

A colegial olhou feio. Naoya fingiu não ter visto.

– Kaguya – ele chamou normalmente. – Está aí? Poderia, por gentileza, sair do corpo de um monstro grande e horrendo?

Para a surpresa de Yui, o oní assentiu delicadamente.

Um vulto branco – de uma forma assustadora, bem sólido – saiu de dentro da criatura grande.

A pequena Kaguya, como conheciam, tomou forma assim que o vulto colocou os pés no chão. Não havia nenhum sinal de que a criança tinha se tornado um youkai de filme de terror.

Embora Yui não tivesse deixado de notar os onís se desintegrando atrás da menina.

“Kaguya?!” – escutaram uma voz masculina exclamar.

Com receio, as três cabeças se voltaram para o lado.

Saindo do corredor lateral dos jardins, um homem magro de cabelos brancos vinha andando passo após passo, desconcertado.

Usava um kimono branco com um hakama roxo. Claramente um sacerdote.

– Vovô! – Kaguya deu um gritinho.

Avô e neta se olharam nos olhos.

Houve o reconhecimento:

Ela não era mais a mesma.

O homem continuou a se aproximar, mesmo de boca aberta. Fitou a neta o tempo todo e, nos poucos segundos que os olhos despregaram da menina, analisou Yui e as crateras no chão aos seus pés, além das orelhas de raposa de Naoya.

– Você… é uma youkai! – o sacerdote exclamou.

– Eu… – gaguejou Kaguya, porém o velho a interrompeu:

– Está tudo bem.

Naoya, Yui e Kaguya duvidaram dos próprios ouvidos.

– Oi? – a colegial teve de perguntar.

– Está tudo bem – repetiu o sacerdote para a neta com a voz trêmula. Teve forças para colocar as mãos no ombro da criança. – Não sei como aconteceu, mas já vi toda a sorte de criaturas enquanto exercia meu trabalho.

Após um longo minuto de silêncio, se recompondo, o sacerdote voltou-se para Yui e Naoya.

– Eles estavam me ajudando! – interveio Kaguya – Eles são youkais bons!

– Eu não sou… – dizia Yui, antes de Naoya interrompê-la:

– Deixe assim. Não complique mais.

O sacerdote, desta vez, aproximou com passos firmes da dupla.

Ao estar perto o bastante, curvou-se brevemente.

– Obrigado por ajudarem minha neta – ele sorriu.

Naoya fez cara de quem via uma comida diferente.

Yui não sabia que cara estava fazendo – mas o sacerdote, ao vê-la, pôs uma mão reconfortante em seu ombro.

– Está tudo bem – disse ele, com a voz macia. – Se é uma boa pessoa, é uma boa pessoa.

Não demorou muito para que deixassem Kaguya e o sacerdote sozinhos para se entenderem, mas Yui escutou as palavras do velho ecoarem em sua mente por todo o caminho de volta para casa.

 

*

 

“Oh. Você não foi presa” – disse a mãe, assim que viu Yui entrando na cozinha do apartamento.

– Presa? – a filha ergueu uma sobrancelha, confusa.

A mulher não chegou a perguntar por que a colegial estava voltando no meio da madrugada.

– O seu pai está dormindo, então faça silêncio – ela disse. E então apontou a novela velha passando no tablet em cima da mesa. – Quer assistir?

– Não… obrigada.

Meio desconcertada, Yui retornou ao seu quarto e deitou-se com as roupas que estava, só querendo dormir.

Ouviu os roncos do pai ao longe. E as risadas da mãe na cozinha.

Estava tudo bem.

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