RESENHA: MAGNUS CHASE – A espada do verão
04/06/2018
UM DE NÓS ESTÁ MENTINDO
26/06/2018

4 ESTAÇÕES – VERÃO 2

Chegaram à praia escura.

Nenhuma silhueta estava à vista.

Yui havia desaparecido.

 

 *

 

“Aqui, Kouta!” – exclamou Yui, gesticulando e dando um salto.

A bola de vôlei, levantada por Kouta, veio no lugar perfeito.

Yui cortou a bola com um tapa que assustou alguns colegas – o objeto voou numa velocidade impressionante e, após quase acertar a cara de um indivíduo, se afundou na areia como um meteoro.

Kouta e a garota comemoraram sorridentes. A dupla do outro lado da rede tinham expressões chocadas.

– Vocês já usaram bastante a rede! – acusou um dos colegas de sala que assistia ao jogo. – Yui vai matar alguém uma hora dessas.

– Não matei ninguém! – ela se defendeu, não negando que tivesse a capacidade.

A praia estava lotada.

Aparentemente, não era só a sua escola que decidira que a excursão de verão seria na pacata praia da cidade vizinha.

Era perto, afinal de contas.

– Yui! – chamou uma voz infantil familiar.

A garota, intrigada, voltou-se para trás.

– Kaguya. Também está aqui? Acho que a cidade inteira está – disse, enquanto a menina de cabelos compridos sorria timidamente.

– Você trabalha no templo com o seu avô – Kouta a reconheceu com algum esforço. – Ultimamente tenho te visto mais.

– Estou trabalhando bastante.

Kaguya respondeu feliz; o trabalho talvez representasse a confiança que o velho sacerdote lhe depositava.

“Vocês se conhecem?” – perguntou uma nova voz.

– Meu Deus! – Yui deu um pulo, virando-se para o colega com cara de nada – De onde você veio, Miura?!

– Não está com o Naoya hoje? – Kaguya perguntou.

– Não dá para ficar andando com uma rapo… com um cara daqueles para todos os lados.

A menção à raposa fez Yui torcer a cara para o pulso esquerdo.

O colar de contas pretas ainda estava preso ao braço firmemente. Não importava o que ela fizesse, o objeto não se movia um centímetro.

– Ei – reparou, assim que ergueu os olhos. – Aquele cara ali não é o Yoshiki?

Demorou um pouco para Kaguya prestar atenção – por algum motivo, ela estava olhando para Miura Shinji, o garoto apagado -, mas assim que visualizou um rapaz magricelo com um rosto bem insalubre, passou a acenar.

– Eu quero um sorvete! – ela exclamou.

Yoshiki, com camiseta e shorts muito coloridos, veio andando de costas enquanto tentava chamar a atenção de outros banhistas.

Só se deu conta de onde se meteu ao voltar-se para trás.

– Yui! – ele berrou – Desculpa!

– Não fiz nada!

– Sorvete – disse Kaguya, puxando-o pela camiseta. Yoshiki deu um grito assustado. – …Eu também não fiz nada. Não hoje.

– De onde vocês se conhecem? – perguntou Miura. Ninguém disse nada, então Kouta deu de ombros.

– Querem saber?! – Yoshiki suspirou e empurrou a caixa pendurada em seu pescoço na direção das garotas – Comprem! Estou por um fio no meu emprego! Preciso guardar dinheiro para as emergências!

– Vai ser demitido? – Yui já estava com um sorvete na boca e procurava por mais dinheiro no bolso.

– Estão dizendo que eu assusto os clientes!

– É a sua cara.

– Por que você acha que eu fiquei assim?! – Yoshiki indicou a si mesmo – Culpa de garotas assustadoras me atormentando! E uma raposa!

– Vamos embora, Kouta – disse Yui, assim que conseguiu comprar mais três sorvetes. – Ainda não vimos o que tem na loja de presentes.

– Só não façam confusão aqui! – exclamou o rapaz, apontando fortemente para Yui. Ela mostrou a língua.

 

*

 

“Ah, olha esse Yui!” – Kouta pegou uma pedra azulada com cordão do balcão e logo se olhou no espelhinho perto da vendedora.

– Não sei, não – ela respondeu, também avaliando uma das muitas vendinhas do hotel tradicional em que estavam. Tinha cheiro de madeira.

– Combina com a minha camisa. Olha.

– Talvez o amarelo.

– E você? Não vai levar nada? – o amigo já estava decidido a comprar o acessório.

– O meu irmão vai voltar para casa nas férias da faculdade. Estou pensando em pegar algo para ele.

– Esse daqui – Kouta imediatamente apontou uma corrente com um pingente alongado. – Ele é alto e esguio, vai combinar!

“É mesmo. Você tem um irmão” – interveio uma voz que Yui reconheceu de imediato.

– NAOYA! – ela deu um pulo e berrou, arregalando os olhos para a raposa de kimono supercolorido logo ao seu lado.

– O quê? Parece até que viu um fantasma – ele respondeu naturalmente, se abanando com um leque mais colorido que o normal.

– O que está fazendo aqui?! – disse Yui entre dentes.

– Estou de férias?

– Não está colando.

– Eu… vou… no banheiro – inventou Kouta, quem já sentia há um tempo que a relação dessa dupla era complicada.

– Tire essa pulseira – exigiu Yui de imediato, estendendo o braço na cara do outro.

Naoya olhou intrigado, como se tivesse esquecido.

– Oh. Bom. Eu acho que deveríamos deixá-la aí.

– Por quê?!

– Porque serve para controlar youkais violentos… – ia dizendo, mas teve de se esquivar de um soco.

– Não sou violenta!

– As outras pessoas estão olhando – alertou a raposa, embora a garota começasse a ligar cada vez menos para isso. – Não estava escolhendo presentinhos para a sua família? Vamos.

O youkai apontou com veemência para as lojinhas até que a atenção de Yui voltasse para os produtos.

Demorou um pouco.

– E? – ela perguntou, assim que se acalmara – O que está fazendo de verdade aqui?

– Obviamente senti um youki significante – Naoya respondeu, apontando uma camiseta vermelha que a Sra. Uesugi talvez fosse gostar.

– Logo aqui? – Yui aproximou-se da camiseta – Que espécie de carma negativo eu tenho?

– Na verdade, creio que é pelo fato de ser um local muito visitado em excursões de escola. Talvez ele coma pessoas. Ou só seja um youkai de passagem.

– Sua pesquisa pré-batalha é péssima – a colegial apontou. – Aposto que nem sabe se é um Youkai Maior.

– Claro que não. Se for, ele estará escondendo seus poderes.

– E não deve comer pessoas. Nunca ouvi notícias de gente sumindo nessa praia.

– Foi só um chute. Precisaremos pesquisar.

– Mais tarde, pelo amor de deus – ela suspirou. – Quero descansar um pouco.

“Já posso voltar do banheiro?” – perguntou Kouta, aproximando-se da dupla que terminava de comprar uma dúzia de presentinhos.

 

*

 

Acabou que ficaram no seu pé o dia inteiro.

Kaguya, Yoshiki, Naoya, e também Kouta, que queria saber como esse grupo funcionava.

Estavam no restaurante todos no mesmo horário. Quiseram ir buscar sobremesa na mesma lanchonete de beira de praia.

Quando tinha notado, Yui estava se empanturrando de docinhos no caminho de volta enquanto todos os outros opinavam que isso não faria bem à sua saúde – como se ela fosse a criança do grupo. Inacreditável.

– Só quero descansar – esclareceu Yui às outras três garotas com que dividia o quarto. Estavam olhando torto para a cara amarrada que ela fazia no futon.

E Yui se deitou, cobrindo-se até a cabeça.

Pôde ouvir, num meio-sono, as três outras meninas conversando aos sussurros para não acordá-la; algo sobre histórias de monstros antigos que sequestram pessoas no hotel.

“Isso não existe” – esclareceu uma delas. – “Minha família é dessa cidade. Nunca tiveram lendas assim”.

“Devem ter inventado recentemente para chamar mais clientela” – opinou a outra garota, referindo-se ao hotel.

“Como histórias de sequestro trariam mais clientela?” – retrucou a terceira.

“Bom… talvez não tenha sido o hotel que inventou. Mas, que é recente, é”.

Yui não ouviu muito mais até cair no sono completo.

No meio da noite, acordou para ir ao banheiro.

Coçando os olhos, estranhou o fato de que havia apenas duas outras garotas no quarto.

 

*

 

“Não deve ser nada, precisamos ser corajosas” – sussurrou Kaguya, seguindo duas amigas pelo corredor do hotel. O lugar não era tão bonito quanto o hotel onde Yui estava; tudo era meio úmido e, durante a noite, era escuro mesmo com as luzes acesas.

– Juro que ouvi um barulho estranho – a voz da amiga era trêmula. A menina franzina liderava o caminho para o banheiro velho.

– Todos estão dormindo – interveio a outra menina, a qual abraçava um travesseiro. – Vamos levar uma bronca dos professores.

– Não vou conseguir dormir sabendo que tem algo estranho no banheiro! Nosso quarto é o mais perto!

– Se tiver um monstro, vamos ser as primeiras… – sibilou Kaguya, até se dar conta de que as amigas a encaravam com cara de choro. – Ou não! Deve ser só um rato! Ou qualquer coisa assim!

“Eu vou primeiro” – sussurrou a menina do travesseiro, como se objeto a deixasse mais protegida que as outras.

Ela entrou no banheiro escuro. A lâmpada amarelada piscava no teto.

Kaguya observou, da porta estreita, a amiga andar até o mais próximo dos seis boxes com porta de madeira.

A menina abriu a porta.

Nada.

A segunda porta.

Também nada.

– Não tem nada aqui – ela disse, agora menos assustada e abrindo as outras portas. – Nada mesmo.

Kaguya e a amiga na porta suspiraram aliviadas.

– Vou aproveitar e usar o banheiro. Segurem isso para mim.

A menina passou o travesseiro para Kaguya e entrou no box mais perto da saída.

Um minuto se passou.

Outro minuto.

– Está tudo bem? – perguntou a menina franzina.

Não houve resposta.

Não havia som nenhum.

– Saeko..? – chamou Kaguya, dando duas batidas na porta de madeira.

Estranhamente, a porta se abriu com um rangido.

O interior estava vazio.

 

*

 

Yoshiki estava correndo desesperado pela rua beira de praia quando, de repente, deu de cara com uma silhueta fantasmagórica inteiramente branca.

O rapaz berrou.

A silhueta também, deixando de ser uma fantasma e voltando a ser uma menina de cabelos compridos.

– Kaguya! – exclamou o rapaz. A menina assustadora não era a primeira pessoa que gostaria de encontrar nessa situação.

– O hotel! A minha amiga! – Kaguya exclamou.

– A praia! As pessoas! – ele exclamou de volta.

Os dois se encararam, desentendidos, até se esclarecerem.

– Eu estava fazendo vendas noturnas na praia – disse Yoshiki, após escutar a história de Kaguya sobre o banheiro e não gostar nada. – E sempre tem casais e grupos de jovens andando por aí. Mas eu juro que toda vez que me virava e olhava de novo, ESTAVA FALTANDO GENTE!

– E agora?! – Kaguya gritou histérica. Por uma fração de segundo, tinha voltado a ser a figura branca.

Muita calma nesse momento! – Yoshiki gesticulou veementemente, não querendo nenhum outro fenômeno assustador – Meus colegas comerciantes disseram que tem um cara de kimono rondando as vendas daquele hotel o dia inteiro – o rapaz apontou.

– Só pode ser Naoya! – a menina saltitou de inquietação – Precisamos da ajuda dele!

 

*

 

Naoya achava que ficaria mais mesclado à paisagem em um hotel tradicional com várias pessoas vestindo yukata.

Mas talvez fossem seus cabelos longos e laranjas – todos os transeuntes fitavam-no quando passavam pelo hall. Os olhares só foram aliviando porque ficava cada vez mais tarde e menos pessoas transitavam por aí.

…Se bem que não eram nem onze horas da noite. Em uma praia, com pessoas passeando e se divertindo.

– Naoya! Temos um problema! – exclamou a vozinha de Kaguya. Ao virar-se, Naoya pôde ver que vinha junto com Yoshiki.

Ninguém deu atenção à comoção.

Talvez porque não tivesse ninguém no hall nesse exato instante.

– Temos – respondeu a raposa, puxando uma bolsa de shinai de baixo do banco comprido. – A Yui deixou na casa dela, de novo, a Tessaiga. Ela está achando que essa espada é o quê?! Não pode deixá-la largada assim!

– O que é isso? – Kaguya retesou-se.

– Não aponta isso pra cá – alertou Yoshiki, sentindo estática no ar.

– Pode fritá-los. Recomendo não tocar, a não ser que seja um sacerdote-supremo como eu – Naoya sorriu, baixando o objeto. – Viram algum youkai por aí? – perguntou, casualmente.

– Não… mas vimos pessoas de menos! – exclamou Kaguya – Pode ser obra de algum youkai?

– É incrível como dois youkais podem estar amedrontados com outro youkai – Naoya abanou-se.

– Tenho medo de coisas que podem me atacar – disse Yoshiki.

– De onde eu venho, as pessoas só atacam…

Naoya levantou-se.

– Vamos buscar Yui. Já está mais do que na hora dela acordar.

As poucas pessoas com que cruzaram no corredor os observaram com bastante força – a menina do ensino fundamental e um sujeito com uniforme de vendedor estavam chamando atenção.

Talvez o kimono colorido tivesse um pouco de culpa, como diria Yui.

Só um pouco.

– Yui? – Naoya aproximou-se da porta do quarto de alunas sem nem hesitar. Deu alguns toques no batente de madeira com o leque – Você está aí?

– Ninguém vai chamar a polícia por tentarmos entrar num quarto de colegiais no meio da noite?! – sussurrou Yoshiki, preocupado.

– Aproveite que não tem professores por perto – Kaguya completou a ideia, vigiando os corredores escuros.

Não tinha um bom pressentimento quanto a isso.

Após alguns segundos de silêncio, as orelhas de Naoya – de raposa, que surgiram com um “pop” no topo da cabeça – tremeram. Kaguya e Yoshiki deram um gritinho, preocupados com testemunhas.

Naoya abriu a porta com tudo.

No interior escuro, havia somente uma garota de pijama, encolhida no meio do aposento. Ela tremia e respirava ofegante, arregalando os olhos para os repentinos visitantes.

– Quem são vocês? – ela perguntou, confusa. Os cabelos curtos e cacheados estavam bagunçados. Com o pouco de luz que entrava do corredor, via-se que estava bem pálida.

– Quem é você? – questionou Naoya – Onde está a Yui?

– Elas sumiram – a colegial declarou, em seu pânico. – Elas sumiram, uma a uma.

“O quê?!” – exclamou Kaguya.

Os olhares se recaíram nos colchões vazios, de cobertores desarrumados.

Então Yui havia sumido.

 

*

 

 

“Precisamos sair daqui” – sussurrou Yoshiki, quando começou a escutar burburinhos se aproximando. Conseguiu escutar alguma coisa sobre “alunos” e “chamar a polícia”, então possivelmente eram professores.

Naoya pareceu ser trazido de volta à realidade e passou a andar para o hall; Kaguya, por sua vez, não pôde deixar de constatar os outros quartos – estavam em silêncio.

Não podia ver o interior, mas sabia que não havia ninguém.

Ninguém dormia. E estava ficando tarde.

A menina balançou a cabeça, tentando controlar seu outro eu.

– Tem mais pessoas faltando, eu acho – avisou, assim que chegaram na entrada do hotel. Yoshiki sinalizou para que fossem à área de lazer do lado de fora.

“O que vamos fazer?” – Kaguya perguntou, assim que se sentaram em torno de uma mesa redonda num pergolado – “Não quero desaparecer também!”.

– E eu não quero virar comida de youkai. E preciso ficar aqui mais uma semana! – arrebatou Yoshiki.

Naoya apenas refletia, murmurando.

– Vamos lá – o rapaz disse. – Quero dizer, quais são as suas reais necessidades de ter a Yui para matar youkais? Ela é forte, claro, mas é uma menina estudante. Já você, de qualquer ângulo – ele apontou para as orelhas de raposa -, é um ser já experiente.

– As reais necessidades são… – a raposa pareceu fazer força para pronunciar as próximas palavras – Mais ou menos… um pouco…

Apesar da força, ele parou. Kaguya e Yoshiki encararam-no.

Grandes! – ele exclamou, como se estivesse sentindo dor – É tudo culpa da natureza estranha dos youkais daqui! Preciso da força bruta de Yui para matá-los espancados!

– Mas você não tem, sei lá, alguma técnica de batalha?! – insistiu Yoshiki.

– Criatura, tem um motivo para eu ser o sacerdote supremo e não um guerreiro supremo!

Naoya carregou a cabeça. Kaguya e Yoshiki desabaram sobre a mesa.

– Então o quê? Não temos como lutar contra o bicho?! – o rapaz perguntou.

– Para começar, é mesmo um youkai? – a voz de Kaguya pareceu um choro – E se for alguma coisa como…

Não complete essa frase – alertou ele. A última coisa de que precisava era uma menina assustadora dizendo “fantasma”.

– É um youkai – interveio Naoya.

Os outros dois fitaram-no com esperanças. Era uma das remotas situações em que esperar um youkai violento era melhor.

– Posso sentir youki por toda parte – o sacerdote explicou, abanando o leque para os arredores. – Mas está por tantos lugares que não posso dizer para onde foram.

– Essa praia é um covil de monstros?! – exclamou Yoshiki, como se também não fosse um.

– Não estava assim há muito pouco tempo. Começaram a agir na última hora.

Três suspiros simultâneos.

Não sabiam muito bem o que deviam fazer.

Yui sempre era apressada para tudo e fazia as coisas andarem – mas ela não estava aqui.

Era um sequestro? Um assassinato?

Um verdadeiro sumiço?

Naoya não notou como se abanava cada vez mais rápido.

– A praia – interveio Yoshiki.

“O quê?” – questionaram os outros dois até muito rápido, virando as cabeças.

O rapaz se retesou um pouco com a reação neurótica, mas apontou a praia logo aí, tomada pela noite.

– Tem pessoas sumindo nos hotéis aqui perto e na praia, certo? Não deve dar para colocá-las todas nos hotéis, então deve ser em algum lugar do lado de fora. Perto da praia.

– Pretende achar pistas numa praia extensa? – Naoya encarou-o com desdém, mas levantou-se – Quão triste é quando temos de ouvir o palpite de um youkai demitido.

– Não fui demitido! Ainda!

Não disseram mais nada enquanto andavam na direção da areia.

E se não houvesse pistas? As crianças teriam desaparecido de vez. As presenças de youkais espalhadas eram de seres diferentes e não havia o suficiente para rastreá-las de imediato. Precisaria de um ritual e, até fazê-lo, poderiam estar em qualquer lugar.

Dependendo do que estivesse acontecendo, as crianças já estariam mortas.

Chegaram à praia.

Estava vazia. Casais e grupos de jovens haviam ido embora.

Nenhuma silhueta estava à vista.

Yui havia desaparecido.

– Naoya! – exclamou Kaguya, apontando para o chão.

A princípio, a raposa viu somente uma ranhura na areia.

Mas, conforme foi se afastando, percebeu uma mensagem gigante e malfeita feita na praia.

“LEVADOS PARA UMA CAVERNA NO MAR”.

Observando melhor, havia rastros de luta no entorno e em cima da mensagem.

– Só Yui pode ter feito uma proeza dessas enquanto era sequestrada – Naoya concluiu.

– Eu acho que isso era para ser uma seta – disse Yoshiki, apontando um desenho iluminado pelo luar. Estava rasurado por pegadas pouco humanas, mas realmente parecia uma seta.

Ela apontava para uma direção genérica no mar.

Tentaram se aproximar das ondas e olhar para a água, mas era tudo preto na noite.

– Podemos tentar uma coisa – sugeriu Naoya.

As expectativas recaíram sobre a raposa, mas o youkai pousou o leque fechado no ombro de Kaguya.

Podemos usar os poderes de uma devoradora de sonhos para localizar uma pessoa específica – Naoya completou.

– Hã? Hum? – balbuciou Kaguya, virando a cabeça para todos os lados.

– Achei que você fosse melhor com essa coisa de encontrar pessoas – Yoshiki indicou-o de cima a baixo, como se apontasse o “sacerdote”.

– Nah. Meu negócio é com almas e preciso estar em circunstâncias certas e ter ingredientes certos e pedaços de energia certos. Já Kaguya… – o homem sorriu de uma forma que não era nada tranquilizante. – Pode mexer com sonhos. Sonhos estão conectados entre eles; uns mais, outros menos. E estão especialmente conectados com uma entidade de força maior que, nesse caso, são os devoradores de sonhos.

– Eu… acho… que não consigo fazer isso..? – disse Kaguya, com dúvida na voz.

– Você já fez antes. Com um pouco de conexão com as pessoas, já é capaz de entrar em sua mente.

– Acho que Yui não estará dormindo…

– Ela tem alma e mente. A diferença com os sonhos é mínima.

– Mas eu… – começava Kaguya, mas Naoya e até Yoshiki pousaram a mão em seu ombro, pressionando-a. – EU TENHO MEDO, OK?! – ressoou a voz que conseguia ser um grito e um sussurro ao mesmo tempo, simultaneamente à figura de Kaguya ficar totalmente branca por um segundo.

Naoya tirou a mão da menina com o susto. Yoshiki deu um berro estridente e caiu para trás.

– Está vendo? – Kaguya continuou com a voz miúda, agora como uma menina tímida – Eu nem tenho controle do que posso fazer.

Naoya fitou-a e deu um grande suspiro.

– Pode ficar tranquila – ele disse; por um instante, sua voz impassível até pareceu reconfortante. – Conheço uma devoradora de sonhos. Ela também descobriu seus poderes quando bem jovem e teve receio no começo.

– E o que ela faz hoje?

– É a líder de um grande clã de youkais violentos com sede de batalha. E é a mais forte de todos.

A criança piscou várias vezes e não soube muito bem como reagir com a informação.

– Você quer dizer… – começou lentamente – Que posso aprender a controlar esses poderes? Sozinha?

– Uau – Yoshiki deixou escapar. – Você interpretou de uma maneira bem legal.

– Exatamente – Naoya assentiu satisfeito, como se tivesse pregado frases sábias.

 

*

 

Várias mocinhas – e alguns moços, também – gritaram ao serem jogados no chão de uma caverna estranhamente bem-iluminada.

Yui, por sua vez, tossiu água e rosnou, antes de saltar como um animal sobre uma criatura que era um sapo bípede com o tamanho de um homem. O sapo de kimono ganiu apavorado e fugiu, enquanto três outros seres iguais avançaram para parar a garota.

Um deles foi chutado com tanta força que bateu contra a parede de água – mantida por alguma energia estranha na entrada ampla da caverna – de onde vieram e desapareceu no mar escuro.

– Pare com isso! – berrou um dos sapos, praticamente pendurado num dos braços de Yui enquanto ela se debatia e xingava.

– Precisamos mesmo desta aqui?! – gritou o segundo sapo.

– Sério?! Vocês me trazem aqui e agora querem dispensar?! – reclamou Yui, conseguindo se soltar das duas criaturas com um giro violento. O terceiro ser, que havia fugido primeiro, ganiu e correu quando pensou que seria mordido por ela.

No entanto, um jato de água pegajoso atingiu-a no ar, derrubando-a no chão pesadamente.

– O que é agora?! – Yui xingou, com o corpo preso pela gosma transparente. Ao virar-se com um pulinho ridículo feito uma larva, a garota pôde ver uma enguia maior que os sapos aproximando-se.

Ela não tinha pernas ou braços, mas vestia um kimono. De alguma forma.

– Para que é que trouxeram uma youkai? – o ser questionou friamente, avaliando a colegial – Nosso lorde quer uma humana.

– Eu sou humana! – rosnou Yui.

Neste instante, o sapo enxotado para o mar retornou, saindo da parede de água e balançando o corpo molhado. Em cada mão, trazia um companheiro desacordado.

– Consegui recuperá-los por coincidência – disse ele com a voz esganiçada. – A menina os afastou aos socos enquanto vínhamos para cá.

A enguia não tinha sobrancelhas, mas Yui sentia que estavam erguidas e perguntavam: “Sério?”.

– Eu sou humana – esclareceu Yui, já com menos força.

A enguia suspirou e só deu um meneio de cabeça para os companheiros youkais.

– Levem todas para o lorde. Elas precisam ser avaliadas.

 

*

 

“Yui está naquela direção” – anunciou Kaguya, apontando o dedo fino para um ponto bastante específico do mar.

– Acredito em você – disse Yoshiki, fazendo careta para a figura inteiramente branca da criança -, mas como vamos chegar lá? Nadando?

– Tem alguma coisa por perto – o rosto de Kaguya começou a se deformar, mostrando um sorriso rasgada e olhos vermelhos. – Vou trazê-lo para cá – sussurrou.

– Vai mesmo trazer essa coisa? – Naoya ergueu as sobrancelhas, sentindo a presença do ser.

No instante seguinte, enxergaram uma movimentação estranha na água.

E, de repente, um imenso monstro vermelho com formato de cavalo-marinho e uma bocarra cheia de dentes emergiu da água, deitando o corpo na praia.

Os olhos negros do monstro encontraram os de Kaguya.

A menina desapareceu, ao mesmo tempo em que a criatura tornou-se branca.

– Olhe só – Naoya tocou uma grossa corda no entorno do pescoço do cavalo-marinho. – Ele é o cão de guarda de seja lá o que levou as pessoas.

– Eu preferia ter ido nadando… – disse Yoshiki, mas já era tarde.

 

*

 

“Seu idiota! Isso é um homem!” – guinchou uma tartaruga de kimono e uma estranha barba branca. Era tão grande quanto os sapos e a enguia.

– Esse mar é esquisito – resmungou Yui, ainda capturada pela gosma bizarra. Toda vez que a crosta de água estava enfraquecendo, a enguia logo ao seu lado cuspia mais.

A tartaruga – que todos os outros youkais chamavam de “Lorde Umigame” – puxou uma mocinha de pouco mais de vinte anos pelo braço. Ela gritou assustada.

– É muito velha – disse o lorde. Ele puxou uma criança. – É muito nova.

– O que você quer, hein?! – berrou Yui.

– Alguma coisa com a sua idade – respondeu ele. – Mas que fosse humana. Queria uma esposa humana.

– Ah, pelo amor de deus. Case com um desses bichos aqui – Yui conseguiu dar uma cabeçada num sapo. – Combina mais com a sua cara feia.

– Como ousa?! – gritou a tartaruga, genuinamente chocada.

– Quer brigar?! Então venha aqui! – rosnou a garota, dando pulos como podia.

O youkai abriu a boca para dizer algo, mas a caverna mobiliada feito um salão foi assolada por uma onda de água salgada vinda da direção por que entraram.

Um cavalo-marinho branco de rosto assustador invadiu o local.

Humanos gritaram. Os youkais também.

– Naoya? – Yui ergueu uma sobrancelha – E Yoshiki?

Os homens pularam encharcados das costas do monstro horripilante.

No instante seguinte, uma silhueta branca – Kaguya – saiu da criatura, antes de tomar seu aspecto de criança adorável. O cavalo-marinho gigantesco se tornou vermelho com uma bocarra cheia de dentes.

– Ah, bom – Yui suspirou aliviada, assim como os youkais. – É menos assustador assim.

Sapos e enguia se afastaram de Yui conforme o trio invasor se aproximou. O cavalo-marinho parecia ter medo de Kaguya.

– Como você conseguiu deixar aquela mensagem enorme na areia? – perguntou Yoshiki.

– Batendo bem forte nos sequestradores? – Yui meneou a cabeça para a gosma de água. Naoya moveu o leque apenas uma vez, fazendo chamas arroxeadas eliminarem as amarras.

A garota, solta, girou os braços.

– Uma coisinha para você – disse a raposa, entregando a Tessaiga embainhada. – Pare de sair sem ela!

– Eu não sabia que ia ter youkais para matar! – disse ela, sacando a espada gigante. Os humanos sequestrados exclamaram assustados e correram para o canto mais distante da caverna.

– Muita calma neste momento – interveio a enguia, inclinando o corpo para frente como se estendesse uma mão. – Não precisamos partir para a violência.

– Então sai fora porque vou violentar aquela tartaruga folgada!

Yui correu antes que qualquer inimigo ou aliado tivesse reação. A tartaruga, por algum motivo, estendeu os braços e jogou-se na frente de um rapaz, uma velha e uma menininha.

– Não! Minhas esposas! – ele gritou.

Yui, perplexa, parou a mão da Tessaiga por um instante.

Até exclamar:

– VOCÊ TEM PROBLEMAS!

A garota não esperou mais para atacar. No entanto, ao descer a Tessaiga com toda a força, escutou-se um grande estampido.

A lâmina parou.

Yui tossiu – por algum motivo, fumaça havia tomado o local. Quando todo o branco se dissipou, havia uma tartaruga da altura da caverna diante de si, escondendo a cabeça no casco para que a Tessaiga não a pegasse.

– Não precisamos partir para a violência… – disse a enguia novamente, vendo a barba de névoa turva do lorde.

– Tarde demais – ele disse. O casco às suas costas se separou em inúmeras pedras gigantes presas pela névoa escura. – Eles querem briga!

– As pessoas! – exclamou Kaguya, assim que as pedras começaram a girar descontroladamente pela caverna.

Os olhos de Yoshiki se tornaram douradas com pupila afilada. O rapaz deu um salto de muitos metros na direção do grupo de humanos, salvando uma senhorinha com uma investida.

– Corram para lá! – ele disse, mas as pessoas gritaram. Yoshiki mudou sua feição de volta para a de um rapaz humano… e elas continuaram gritando – VOU SER DEMITIDO MESMO!

Yui, repelida por uma das pedras ao tentar atacar a tartaruga, pousou com violência no meio da confusão.

– CORRAM, DROGA! – ela rugiu.

O grupo disparou feito formigas desesperadas, correndo na direção da sala da parede de água.

– Eu vou levá-los para a superfície – disse Kaguya para o youkai raposa, antes de tornar-se um vulto branco e deslizar rapidamente até o cavalo-marinho monstruoso.

Yui, Yoshiki e Naoya agruparam-se no centro do salão com pedaços caindo graças aos ataques descontrolados do lorde. Seus servos sapos cercaram o trio invasor, enquanto a enguia estava ocupada demais se mantendo viva das pedradas da tartaruga.

– Eu não sabia se vocês conseguiriam chegar – disse Yui, de espada em mãos.

– Ah. É o poder da amizade – declarou Naoya.

A dupla se encarou. Trocaram uma risada cansada e incrédula – mas não sarcástica.

– Ele está bravo! – gritou Yoshiki, vendo um agrupado grande de pedras avançar.

Curiosamente, o primeiro que quase foi esmagado foi a enguia; ela só sobreviveu criando uma momentânea barreira de água em torno de si.

As pedras descontroladas arrumaram seu alvo e avançaram contra o trio.

Naoya suspirou em relação à barreira de água.

Com um rápido movimento de leque, o youkai fez surgir um grande domo arroxeado em torno de onde estavam – as pedras se chocaram contra a barreira e tremeu a caverna.

– Por que eles estão desmaiados? – Yui observou todos os sapos e a enguia desabados no chão.

– É porque estou usando a energia vital deles para criar a barreira – respondeu Naoya.

– Ah.

Quando as pedras se ergueram para um novo golpe, Naoya deu um meneio de cabeça. Yui assentiu e saltou na direção da tartaruga assim que o domo desapareceu.

Com um grito de raiva, a garota cravou a espada no meio da testa enrugada da criatura. Não houve sangue nem uma reação grande do ser. O lorde apenas chacoalhou a cabeça incomodado.

– Dê-me a sua essência – comandou Naoya, estendendo a mão para a criatura.

As pedras descontroladas perderam força quando uma fumaça escura passou a sair da tartaruga.

O ser grunhiu de dor, porém a fumaça saía muito, muito devagar.

– Uma ajuda caía bem aqui – disse Naoya, enquanto Yoshiki estava preocupado com os sapos e enguia se levantando.

– ESTOU TENTANDO! – gritou Yui.

– Tentando o quê?! – ganiu o lorde.

A garota, balançada para lá e para cá pendurada na espada, teve sucesso em colocar um pé no focinho do youkai.

Com um berro de raiva, ela teve sucesso em virar-se de costas para o monstro e rasgar sua cabeça para puxar a Tessaiga de volta.

No processo, um estouro de energia rasgou o monstro inteiro em várias direções, tornando-o em pedacinhos num piscar de olhos.

Yui pousou no chão, diante de Naoya, Yoshiki e servos marinhos boquiabertos.

– Hã? O quê? – a colegial encarou-os desentendida, até olhar para trás – Oh. Ok.

– PERDÃO, LORDE YOUKAI! – a enguia jogou-se no chão e abaixou a cabeça – Não tínhamos conhecimento de seu imenso poder!

– Estamos indo embora! – emendaram os sapos, que se tornaram sapos normais com um estouro de fumacinha e saltitaram para fora do local.

– LORDE YOUKAI?! – exclamou Yui, indignada.

– Estou indo embora! – devolveu a enguia, também se tornando uma enguia comum e arrastando-se para longe.

– Nada de sequestros – lembrou Naoya.

“SIM, SENHOR!” – concordaram eles, ao longe.

Yoshiki e Yui, descabelados, suspiraram cansados.

– Que droga foi essa? – perguntou ela.

 

*

 

Demorou um tempo até os hotéis nos arredores da praia se silenciar.

Pessoas alegavam terem sido sequestradas por monstros; algumas se calaram após terem sido tratadas como loucas. Mas uma boa parcela da população local – principalmente os velhinhos – acreditou. Talvez tenham visto alguma coisa.

– Youkais nos noticiários… – murmurou Yui ao se enfiar no colchão do quarto de hotel. Já podia prever as entrevistas com os sequestrados.

Será que youkais deixariam de ser uma lenda urbana de uma testemunha aqui e ali e se tornaria uma coisa real? Uma criatura reconhecida?

Seria esse o primeiro passo para seu mundo se tornar a de Naoya?

A garota fechou os olhos.

Assim que viu a escuridão, enxergou um ambiente úmido de pedras. O caixão de madeira continuava ao centro do lugar.

A tampa produziu um baque e foi deslocada pelo lado de dentro.

Uma mão branca e ossuda agarrou a borda da caixa.

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