UM DE NÓS ESTÁ MENTINDO
26/06/2018
AGORA TENHO PADRIM
15/08/2018

4 ESTAÇÕES – VERÃO 3

Então era isso.

Um youkai era um youkai e iriam se matar.

 

***

 

A respiração ofegante ficava cada vez mais acelerada.

Sentia obsessão. Raiva. Desejo e repugnância tudo ao mesmo tempo.

Esticou o braço na tentativa de alcançar seu alvo, mas acabou voltando atrás; ainda não era hora.

Por ora, só observava.

Uma hora, iria agarrar a presa.

 

Kaguya, devoradora de sonhos, deu risadinhas ao despertar no futon. Podia prever. A presa estava perdida; tão perdida sob os ataques.

E então a menina voltou a si e começou a chorar.

 

***

 

“De novo essa história?” – perguntou Naoya, realizando mais um de seus rituais malucos no meio do quarto de Yui. A colegial começava a achar que seu quarto fedia a incensos o tempo todo.

– Olha, eu detesto ter que falar disso com você – disse ela, sem nem esconder o incômodo. – Mas achei que era o melhor para tratar dessas… – Yui gesticulou no ar. “Mágica e trecos estranhos” – coisas.

– Não sou psicólogo – Naoya tinha os olhos fechados. Pequenas chamas arroxeadas rodavam em torno do youkai.

– Não é psicológico! Eu estou lá, vendo o treco!

A raposa não deu muita bola e continuou sentada em sua concentração.

– O que você tanto está fazendo com esses rituais? – Yui bufou e resolveu perguntar.

– Pesquisando – o youkai disse.

– E as coisas que eu tenho visto? – a garota emendou, na esperança de obter uma resposta.

Naoya não disse nada.

– Estou pensando em ir perguntar para Kaguya – Yui continuou.

Para sua surpresa, Naoya virou-se de supetão, encarando-a.

– O quê? – a garota questionou – Ela deve entender de sonhos, não deve?

– Não sei se recomendo esse procedimento… – ele murmurou.

– Por quê? – Yui ergueu uma sobrancelha.

Naoya suspirou e apontou para todos os incensos e produtos de origem animal e vegetal à sua volta, se referindo aos rituais que vinha executando.

– Porque suspeito que Kaguya esteja se tornando uma Youkai Maior.

 

***

 

Kaguya fez o máximo de força que pôde, cerrando os punhos e fechando os olhos.

Mas a força física em nada ajudava com as visões.

Podia sentir a presa sendo observada. A manhã toda, ansiando o dia em que colocaria as mãos nela…

– Você está bem, Kaguya? – perguntou a voz macia de seu avô.

A menina resfolegou e ergueu a cabeça.

O sacerdote a observava com o cenho franzido, claramente preocupado. O silêncio na maior sala do templo tornou a apreensão pior.

– Não é nada – a menina tentou sorrir. – Acho que ainda estou com sono.

E voltou a varrer o chão.

 

***

 

“Como assim, se tornando?” – questionou Yui, agora avançando para cima de Naoya.

– Youkais Maiores não nascem assim. Eles possuem certas características biológicas e, quando possui alma o suficiente para criar um fragmento, são denominados como um – ele explicou com calma. – Faria sentido. Devoradores de sonhos são seres poderosos.

– Como pode saber que é a Kaguya?!

– Nos últimos rituais, só consigo captar a presença do Youkai Maior nos arredores do templo. Na casa de Kaguya.

– Mas… – Yui grunhiu – Não vamos sair caçando ela!

– Claro que não. Eu não sou um assassino de criancinhas – respondeu Naoya indignado. – Mas talvez sejamos obrigados.

Yui encarou a raposa.

Ela falava sério.

– Por quê? – a colegial perguntou.

– O Youkai Maior tem escondido seus poderes… fazendo muita força. É o primeiro passo para se tornar um predador sorrateiro.

Estavam ambos se encarando com uma expressão difícil quando o celular de Yui tocou. A garota deu um pulo, antes de puxar o aparelho do bolso dos shorts.

Sua feição endureceu quando viu o mostrador.

Ela virou a tela para que Naoya pudesse ver:

“Chamada: Kaguya”.

Quais as chances dela estar ouvindo? Ela podia saber?

Yui questionou com os olhos. Naoya simplesmente meneou a cabeça para que atendesse.

Nenhum dos dois chegou a pronunciar uma palavra nesse diálogo.

– Oi, Kaguya. O que foi?

A garota fechou a cara quando não escutou nada a princípio.

Houve chiados.

E finalmente um sussurro gélido disse:

“Preciso de ajuda”.

E a ligação caiu. Os toques curtos e consecutivos do celular soaram pelo quarto.

– Tudo bem. Isso me assustou – admitiu Yui.

 

***

 

“E o que eu tenho a ver com isso?! Por quê?! Não quero!” – choramingou Yoshiki, usando pela primeira vez algo que não era um uniforme.

– Já foi demitido? – Naoya não conseguiu deixar de perguntar.

– Não! Não fui! – exclamou ele, sobressaltado – O gerente percebeu que eu estava trabalhando por quatro e resolveu me deixar lá! …Espero que não percebam os meus olhos de youkai enquanto faço vinte sanduíches ao mesmo tempo… – o rapaz parou, notando os olhares de Yui e Naoya. – Mas não é essa a questão! O que eu tenho a ver com isso?!

Ele indicou o templo xintoísta com a cabeça.

Sem as barracas coloridas de evento, o local se tornava bem mais imponente e velho. Podiam enxergar os traços da idade da construção e, conforme o sol vinha se pondo, os arranhões e manchas na fachada começavam a parecer os de uma mansão mal-assombrada.

– Você foi a coisa mais próxima que achamos de reforços – explicou Naoya, apontando Yoshiki com o leque. – Infelizmente.

– Estou aqui para fazer volume?! Vou precisar enfrentar uma menina assustadora só para fazer volume?!

– Ei, calma lá! Ninguém vai enfrentar ninguém! – interrompeu Yui, tirando os olhos do templo velho e voltando-se para os homens – Controlem esse seu sangue violento de youkai!

Eles ergueram a sobrancelha.

– Sabe que essa pulseira de contas não é um prêmio por ser controlada, certo? – Naoya indicou o braço da outra.

– Ela estava pedindo ajuda! – disse Yui entre dentes. – Com uma voz de fantasma cheio de ódio de filmes de terror, mas ainda assim…

Yoshiki, enquanto escutava, empalideceu visivelmente.

Seu dedo se levantou devagar e trêmulo, até apontar para os fundos do terreno.

Yui e Naoya apertaram os olhos – e enxergaram uma silhueta branca estática atrás do templo, encarando-os com seu sorriso rasgado.

A garota deu um grito estrangulado.

– YOSHIKI, VAI NA FRENTE!

O rapaz praticamente voou com o tapão que levou nas costas, rolando na propriedade do templo.

Ficaram os três parados no lugar por alguns segundos, até a silhueta branca sumir atrás da construção.

Vendo que ninguém se mexia, Yui deu os primeiros passos para seguir a youkai.

Assim que passou do templo, seguiu até o jardim dos fundos que já conhecia da visita anterior. A porta da varanda de Kaguya estava aberta. A figura branca de boca rasgada esperava.

Apressando um pouco Naoya e Yoshiki, Yui andou até a menina.

O rosto da youkai era perturbador, por mais que tentassem se acostumar. O sorriso estampado e os olhos vermelhos esbugalhados, congelados na face feito pedra, era de fazer qualquer um sair correndo.

– Yui – disse o grito sussurrado da criatura.

E então se viu um esforço no corpo de criança, fechando as mãos e retesando o tronco.

– Socorro – disse Kaguya, tendo sucesso em reverter apenas seu rosto. Sua pele, cabelo e roupas continuavam brancas. – Preciso de ajuda!

A voz oscilava entre a fantasmagórica e a de menina.

Perturbador.

– O que está acontecendo? – perguntou Yui, enquanto sinalizava para os homens se manterem calmos.

Kaguya ofegou.

– Não consigo voltar a ser… eu! – a menina indicou o próprio corpo – Quando percebi, estava assim e não consigo…

“Voltar”, ela completaria, porém seu rosto voltou a ser um sorriso rasgado, tornando o resto da frase um sussurro dissonante.

Naoya e Yoshiki se entreolharam – e Yui pôde sentir a tensão, mesmo não os vendo às suas costas.

– Nós vamos dar um jeito! – ela disse, fitando a menina.

“Suspeito que Kaguya esteja se tornando uma Youkai Maior”.

Yui respirou fundo.

O problema aqui não era o fato da menininha ser uma youkai assustadora. E sim não saber quando ela sairia descontrolada, tomada pelos seus impulsos de monstro.

Não que Yui pudesse falar muito dos outros.

…Não que ela fosse uma youkai.

– Tudo bem. Não podemos ficar aqui fora – disse a colegial. – Onde está o seu avô?

– Ele está trabalhando no templo – o dedo fino da menina se ergueu lentamente e indicou a construção principal.

– Ótimo. Vamos entrar e não vamos deixar ninguém te ver assim – Yui indicou a varanda.

Kaguya foi na frente. Yui a seguiu.

– Sério que vamos entrar no covil de um monstro? – sussurrou Yoshiki.

– Só siga as moças – respondeu Naoya. – Em qualquer ocorrência, sacrificaremos você e fugiremos.

 

***

 

“Estou começando a ficar com fome” – murmurou Yoshiki, quando anoiteceu.

– Eu também… – deixou escapar Yui. – Quero dizer, temos coisas mais importantes para resolver!

A garota indicou a youkai branca assustadora à frente, sentadinha com as pernas dobradas e seu horrível sorriso. Os olhões vermelhos os fitavam com fervor.

– Não é como se eu tivesse alguma ideia mirabolante! – disse Yoshiki – Eu tenho vontade de chorar só de olhar para essa menina! DESCULPA! – gritou, quando os olhos vermelhos voltaram-se para ele.

– Repassei mentalmente os rituais que já estudei – interveio Naoya, abanando-se. – E não são poucos. Mas não me lembro de nada que pudesse ajudar num caso desses. Segurar o poder de um meio-youkai é uma coisa. Mas Kaguya não tem a metade humana para que possa viver com isso. Se selarmos seus poderes, ela irá dormir para sempre.

– Não tem algo um pouco menos radical, tipo… isso aqui? – Yui ergueu o braço. A pulseira de contas balançou.

– Um sacerdote precisa estar por perto para que funcione – Naoya lembrou. – E isso só serve para impedir que uma youkai violenta espanque pessoas até a morte. Não vai inibir seus poderes… ou uma face assustadora.

Estavam todos os três murmurando sob o olhar da youkai branca quando, sem aviso nenhum, Kaguya voltou ao seu aspecto humano num piscar de olhos.

– O quê?! – exclamou Yui.

Kaguya e Yoshiki, emocionados por motivos distintos, deram um grande berro exaltado.

Logo tamparam a boca, se recordando do sacerdote do templo.

Kaguya andou até a porta, abrindo uma fresta e espiando o exterior.

– Acho que ele saiu – a menina suspirou aliviada. – Deve ter ido ao supermercado do outro quarteirão.

– Mas e agora? – Yui respirava cansada, mesmo não tendo feito nenhum esforço físico – O problema está resolvido? O que precisamos fazer para te deixar assim?

– Ao invés de pensar em como deixar ela assim, por que não pensamos no que faz ela virar o bicho branco? – interveio Yoshiki.

Os demais o encararam abismados.

– O quê? Não posso ter ideias boas?!

– Tem ideia do porquê? – Naoya perguntou.

Kaguya refletiu brevemente e declarou preocupada:

– Talvez sejam os sonhos.

– Você é uma devoradora. Deve ter todo o tipo de sonhos – argumentou Naoya.

Um sonho – a menina ressaltou. – Nos últimos dias, só vi a mesma coisa. No começo tudo estava embaçado, então não tinha notado, mas aí…

Kaguya fitou Yui.

– O quê? – a colegial arregalou os olhos – Tem alguma coisa a ver comigo?

A menina baixou a cabeça com medo, mas logo voltou a erguer o rosto.

– Nesse sonho, eu vejo as suas costas, Yui. Você está andando e eu continuo a vê-la. Eu… estou te seguindo. E quero atacar.

Yui se esqueceu de respirar.

Então era verdade. Kaguya estava se tornando uma youkai perigosa e tinha desejos de matar outras pessoas.

Por quê? Isso era cruel demais.

Era só uma menina.

– Espere um pouco – interrompeu Naoya, dando um cutuque no braço de Yui com o leque. – Como exatamente você quer atacar a Yui nesse sonho?

Kaguya trocou a cara de choro por perplexidade.

– Eu… sinto raiva. Quero pular e agarrá-la.

– Só isso? Não fez algo?

– Quando estou mais perto, estendo o braço e quero pegá-la pela cabeça – explicou Kaguya, estendendo a mãozinha.

E então a menina se tocou.

– Aí está – Naoya concluiu, apontando-a com o leque. – Esse sonho não é seu. Não é uma visão sua.

– Hã? – fizeram Yui e Yoshiki.

– A menina é um pouco pequena para poder agarrar a sua cabeça esticando o braço, não acha? – o youkai indicou como Kaguya batia na cintura de Yui – Conte-me mais sobre essa pessoa.

– Ela é mais alta que Yui – Kaguya passou a raciocinar, agora que sabia como não era a atacante. – A mão é grande. Deve ser um homem.

– O que mais? – perguntou a colegial – Como ele se veste? É novo? Velho?

– Não consegui ver isso. Ele está o tempo todo olhando para as suas costas…

– E o lugar..? – interveio Yoshiki, querendo ser útil e ir embora logo.

Kaguya murmurou pensativa, mas todos deram um pulo quando, novamente, a garota se transformou num piscar de olhos: desta vez para sua forma fantasmagórica.

– Por quê?! – se queixou Yui, se descabelando.

O pânico não diminuiu quando escutaram passos se aproximando.

“Kaguya. Sabe onde está minha carteira?” – perguntou a voz do velho sacerdote – “Não está na sacola que levo às compras”.

O som estava logo aí. Ele abriria a porta.

– Tudo bem. Ele vai entender – torceu Yui, enquanto Yoshiki procurava algum lugar para esconder a todos.

Naoya, por sua vez, simplesmente voltou-se com calma para a porta.

– Agora entendo.

A porta se abriu e o velhinho olhou perplexo para dentro.

– Achei o nosso Youkai Maior – disse Naoya, apontando para o sacerdote.

 

“…Oi?” – perguntou Yui, assim que conseguiu processar a frase de Naoya. Demorou, mas ainda assim foi a primeira.

– Eu disse que havia uma força crescente aqui no templo – ele explicou. – O youkai tentou esconder seus poderes, mas Kaguya, devoradora de sonhos, detectou e seu instinto de sobrevivência a fez se proteger.

Naoya indicou a aparência branca de Kaguya.

– O sacerdote sai e ela volta ao normal. O sacerdote retorna e ela volta à sua forma youkai. Está bem claro para mim.

Todos os olhos se reuniram para o Sr. Sasaki. O sacerdote encarou a aparência assustadora da neta em silêncio.

Se algum dos dois estava pensando em algo, era impossível dizer pela face imóvel.

– É verdade – admitiu o velho, por fim. – Você tem razão, senhor.

Então o ar tornou-se pesado de forma crescente. Como uma mudança de pressão, respirar ficou difícil e uma aura escura envolveu o Sr. Sasaki.

– Mas… – manifestou-se Yui, antes que soubesse. – Você aceitou a Kaguya!

Talvez tivesse aceitado porque ele também era um youkai. Mas a colegial pensava diferente.

– Porque é uma pessoa boa! – a garota olhou do sacerdote para os demais, porém o peso do local aumentava a cada segundo.

A silhueta branca de Kaguya balançou lentamente a cabeça para os lados.

– Não sobrou mais – sussurrou ela, sem mudar a expressão.

No instante seguinte, fumaça negra explodiu no entorno do sacerdote, enchendo os arredores.

– Afastem-se! – exclamou Naoya, alarmado.

Só tinham dado os primeiros passos na direção dos jardins quando uma massa negra avançou para o grupo, obrigando a raposa a abrir seu leque e defendê-los.

Uma grande barreira translúcida no formato do leque estendeu-se diante do ataque.

Naoya firmou os pés no chão e resistiu o quanto pôde, porém acabou por serem todos lançados ao jardim, voando com força, deixando somente o sacerdote do lado de dentro.

Kaguya foi a primeira a se levantar flutuante, enquanto os demais quicavam pelo solo.

Yui, levantando-se, viu a criança e o velho se encarando.

Então era isso.

Um youkai era um youkai e iriam se matar.

– Teremos sérios problemas – avisou Naoya, fazendo surgir a Tessaiga com um estouro de fumaça e lançando-a embainhada para Yui.

A garota pôde sentir seu entorno ficar ligeiramente mais leve assim que segurou o objeto; era quase como se a espada tentasse ajudá-la.

– Não consigo me mexer – disse Yoshiki entre dentes, esmagado contra o chão.

O sacerdote andou pelos jardins, aproximando-se. Kaguya colocou-se rapidamente no caminho.

– Quem são vocês? – disse ela em sussurros.

– Parentes. Antepassados – respondeu o velho. – Não pretendíamos causar mal a ninguém. Este menino era contra.

“O que está acontecendo?!” – sussurrou Yui, sem coragem para interrompê-lo.

– Ele é uma grande massa de almas – respondeu Naoya, cujos olhos focavam a aura negra atrás do sacerdote. – Tem uma centena de… “pessoas” ali.

– Mas os tempos mudarão – continuou a voz do Sr. Sasaki. – E precisamos de força para sobreviver.

“Os tempos mudarão”.

– Vocês sabem o que vai acontecer? – interveio Yui, sem se aguentar.

As criaturas sabiam, de alguma maneira, que o mundo se tornaria um lugar exigindo forças youkais.

O mundo de Naoya.

– Está no ar – disse o sacerdote. – É possível sentir.

A raposa franziu o cenho, perplexo. Pareceu até se concentrar momentaneamente em algo que não era o Sr. Sasaki, mas logo fora trazido de volta à realidade.

– Sinto muito, minha criança – disse o velho. – Por favor, não interfira.

– Tarde demais – disse a boca rasgada de Kaguya.

A massa negra, que claramente se adiantava até Yui, voltou atrás para interceptar a figura branca deslizando em alta velocidade. Ao entrarem em contato, branco e preto produziram um chiado ruidoso, desaparecendo de vista.

– Para onde eles foram?! – Yui questionou, de Tessaiga sacada em mãos.

– Estão aqui ainda! – Naoya gesticulou para os arredores, como se pudesse vê-los – Mas Kaguya não irá aguentar por muito tempo!

– E o que eu tenho que fazer?!

– O recipiente de todas as almas é aquele corpo – ele apontou para o velho sacerdote. – Talvez, se o quebremos, as forças se dissipem…

– Você quer que eu quebre um velho?!

– É o que tem para hoje! Não quer morrer, quer?!

Não era do feitio de Naoya perder a calma durante uma batalha.

Sinal que não era qualquer batalha.

– É tudo culpa sua! Sabe disso, né?! – reclamou Yui, antes de disparar empunhando a espada.

A garota saltou e ergueu a arma sobre a cabeça, pronta para descer o objeto com todas as forças – e, no entanto, girou o corpo no meio do caminho e pousou ao lado do sacerdote.

Uma massa negra, com formato afiado, mordeu o ar diante do homem.

– A menina é atenta – uma das almas do Sr. Sasaki comentou para alguém que não era o grupo em carne e osso.

Yui brandiu a espada, porém ela parou no ar, bloqueada mesmo sem o homem ter se movido um passo sequer. A garota golpeou várias vezes, deslocando-se em torno do sacerdote, mas nenhum golpe chegou a passar.

Sem avisos, Naoya disparou um raio de luz branca contra o velho. Yui saltou para não ser atingida e viu de perto o raio majestoso não surtir efeito algum.

– Avise sobre uma coisa dessas! – ela reclamou, esquadrinhando os arredores do inimigo.

– Estava concentrado! – justificou Naoya.

A garota procurava por uma brecha para atacar quando viu a expressão do sacerdote mostrar, ainda que muito fracamente, pesar.

Uma mancha branca surgiu no ar.

– Kaguya! – exclamou Yui, saltando.

– Espere! – alertou Naoya, mas era tarde.

Uma fresta estreita surgiu no ar, em meio à fumaça preta, mostrando a figura de Kaguya em seu interior. E Yui mergulhou atrás da criança, a qual já perdia a coloração fantasmagórica e voltava a ser indefesa.

Uma rajada de fogo arroxeado seguiu para o buraco no ar, mas a fumaça a fechou antes de ser alcançada.

As chamas se extinguiram no nada.

– Devolva as meninas – exigiu a raposa, apertando forte o leque.

– Jamais sairão de lá – declarou o sacerdote calmamente.

Não importava o quão a idade de Naoya fosse maior do que a do mirrado Sr. Sasaki: a massa concentrada de ancestrais, pairando no ar, oprimia qualquer youkai por aí como se fosse um menino.

Principalmente se fosse um sacerdote-supremo, capaz de captar cada alma.

– Podemos brigar por isso – disse Naoya. – Tenho alguma chance.

Sr. Sasaki avaliou-o de cima a baixo, olhando mais além do que o topo da cabeça do homem de kimono.

– Realmente – o velho respondeu. – Mas eu também tenho alguma chance.

Yoshiki, sem conseguir respirar direito no chão, só pôde pressentir que a briga seria feia. E era impossível saber quem venceria.

O ar se tornou mais e mais pesado; o rapaz gritaria para que parassem, mas era como se um gigante estivesse pisando em suas costas. O pior de tudo era que, possivelmente, a segunda força massiva era o youki de Naoya se elevando.

Então o chamavam para que fosse um reforço e depois se esqueciam dele.

Yoshiki fechou os olhos rezando para qualquer deus, porém a pressão subitamente foi aliviada junto a um estampido abafado no céu.

– O quê? – deixou escapar o velho Sasaki, perplexo.

– Yui! – exclamou Naoya, estupefato.

A colegial, de espada enferrujada numa mão e carregando Kaguya desacordada na outra, caiu com um baque no chão.

Havia ferimentos e hematomas por todo o corpo de Yui. Ela usou a katana velha para se apoiar, tentando se levantar.

– Impressionante – disse Sr. Sasaki, enquanto Naoya ajudava a garota a se levantar. – Não achei que pudessem sair de lá.

Kaguya abriu os olhos por um instante.

A criança na forma humana estendeu a mão e derrubou lágrimas, mas nada disse e logo perdeu a consciência.

– Você está aí, Sr. Sasaki? – perguntou Yui com a voz arranhada. Sua trança estava solta e mechas estavam grudadas por sangue.

– Estou – disse o sacerdote.

Puderam ver que não estava.

– Como vai fazer para se fortalecer? – continuou a garota.

– Juntar mais almas – a massa negra respondeu. – De qualquer um. De todos.

– Então você precisa ser destruído – rosnou Yui, apontando a katana enferrujada para o youkai.

A espada respondeu com um vibrar, se transformando na formosa Tessaiga num piscar de olhos.

Yui correu em linha reta contra o sacerdote, segurando a arma no lado direito do corpo, e não parou mesmo com partes da massa negra avançando para o contra-ataque.

Naoya brandiu o leque, lançando uma chama que cortou os ares e interceptou a fumaça escura.

A garota saltou.

Uma bocarra de fumaça se abriu sobre o sacerdote, aguardando a presa, porém foi envolta por fogo roxo e queimada até desaparecer.

A Tessaiga foi descida para rachar a cabeça do velho ao meio.

A lâmina atingiu precisamente o alvo com um baque – e nada aconteceu, sendo Yui quem foi repelida imediatamente com um estouro ensurdecedor.

Yoshiki e Naoya arregalaram os olhos ao verem a garota voar junto a um espirro de sangue.

Uma grande massa negra, que cobriu o sacerdote por inteiro e o fez desaparecer em meio à fumaça, avançou na direção da colegial inerte no solo, ao mesmo tempo em que Naoya corria em auxílio.

Luzes se reuniram em torno da raposa, porém foram mordidas por pedaços de fumaça, atrasando-as.

A escuridão já estava sobre Yui quando o braço segurando a katana enferrujada tremeu.

A Tessaiga transformou-se de supetão, enquanto a garota ajoelhou-se numa passada rápida e brandiu-a para cima, cortando grandemente o centro da massa escura.

Ventos cortantes separaram a fumaça em vários pedaços, atravessando-a e destruindo parte do templo atrás.

O velho sacerdote apareceu em meio ao negro se dispersando.

Ele avaliou a figura da espada sustentando a colegial desacordada de joelhos, com lâmina pronta para atacar.

Naoya considerou que poderia ser dilacerado ao aproximar-se nessas condições, porém não teve opções senão correr; Yui caiu em questão de segundos e o sacerdote avançou no instante em que ela bateu no chão.

A fumaça negra, formando uma mão gigante, estava para encostar na colegial quando uma raposa gigante envolta em chamas rugiu e postou as quatro patas em volta da garota.

– Não toque – alertou a raposa com olhos arroxeados sem fundo, cuja voz vinha de algum lugar que não sua boca. – Você pode matar nosso corpo, mas eu levarei sua alma.

Yoshiki prendeu a respiração caído.

A massa negra estava completamente parada, como se cogitasse o caso. A raposa demoníaca assustadora rosnava para o inimigo. Yui e Kaguya estavam inconscientes.

– Você venceu desta vez, raposa – declarou a voz do velho.

A fumaça foi dissipando-se e desaparecendo pedaço a pedaço no céu, tornando os ares cada vez mais leves.

Pouco a pouco, a figura do velho sacerdote ficou visível.

– Tome cuidado – disse o tom preocupado do Sr. Sasaki.

Ele apontou o dedo para a garota sob a raposa gigante.

– Essa moça está amaldiçoada.

O sacerdote deu uma última olhada pelo jardim e para o templo.

Por fim, fitou a neta caída, viva e respirando.

Com um leve aceno, o Sr. Sasaki se desfez e desapareceu assim como os ancestrais.

 

***

 

Por um dia inteiro, Kaguya só chorou.

Por dois dias, Kaguya não conseguiu pensar em nada. Seus pais retornaram à casa após meses e meses fora a trabalho.

No terceiro dia, Naoya, Yui e até Yoshiki foram visitá-la.

No quarto dia, alguns amigos apareceram para falar sobre a escola e jogar conversa fora.

Após uma semana, a menina finalmente conseguiu retornar ao seu dia-a-dia, começando a aceitar – só um pouco – que os eventos no jardim ao lado do quarto onde dormia não fora um sonho.

Mas, nesse dia, teve novamente o sonho das costas de Yui.

 

***

 

“Que cara é essa?” – abordou uma voz conhecida, assim que Yui entrou no hall do prédio de apartamentos.

– Hiroki! – a garota aproximou-se e deu um tapinha no braço do rapaz alto de cabelos castanhos – Não sabia que ia chegar hoje.

– Então – disse o filho mais velho da família Uesugi -, é que eu achava que ficaria de exame na faculdade, mas não fiquei.

– Você não era o aluno das notas perfeitas? – riu Yui, sendo acompanhada até o elevador.

– Não é fácil ser o aluno perfeito.

– Ah, é. Comprei uma camiseta pra você lá na praia. Tem o desenho de uma lontra.

– …Por que uma lontra..?

Os irmãos subiram no elevador conversando.

Ao menos, alguma coisa ainda era normal na cidade.

Ainda havia salvação nesse verão.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *