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4 ESTAÇÕES – OUTONO 1

OUTONO 1

 

Alunos foram caindo um a um.

Estava no ar. O veneno estava no ar.

 

***

 

“Saibam que isso é fruto de um esforço descomunal” – contava Naoya a Hakuouko e meia-dúzia de comandantes do clã, mostrando um fragmento de alma entre os dedos.

A televisão estava ligada bem alto e ninguém parecia prestar muita atenção.

– Tive de evocar de volta partes de almas ancestrais e recolher pedaços espalhados por um jardim – o sacerdote-supremo continuou. – Tudo isso cuidando de três enfermos caídos num quarto.

Nesse momento, todos os presentes viraram a cabeça.

– O quê? – questionou Naoya, desentendido com todos os olhos.

– Você? Cuidando de pessoas? – Hakuouko, deitada enrolada sobre o futon, virou o focinho para seu sacerdote – Você não cuida de ninguém.

Os comandantes assentiram, mas pararam assim que Naoya encarou-os.

– Eles são seus amigos..? – perguntou um deles timidamente, encolhendo o corpo de marmanjo musculoso.

Naoya fitou o alto, pensativo.

Bom, talvez, quem sabe…

“Essa moça é amaldiçoada”.

– Tenho trabalho a fazer – disse por fim, levantando-se e deixando os demais no vácuo.

 

***

 

Hiroki sempre adorou a casa da família.

Não importava que fosse um apartamento num prédio já meio antigo. Era um ambiente agradável e, acima de tudo, a vista da vizinhança era ótima.

Por vezes, saía para caminhar só para ver os locais em que brincara quando bem pequeno – estava jovem para ter esse costume de velho, mas vinha de dentro. Era uma questão de gosto.

Entrando no Templo Sem Nome, deu uma volta pelas áreas reformadas há poucos meses.

Lendas urbanas – bastante recentes – diziam que fora obra de um monstro.

Hiroki adentrou num pequeno anexo velho, o qual ficou a salvo no dia em que a construção principal quebrara.

– Tinha medo disso… – murmurou, inclinando-se sobre o poço aberto.

O fundo escuro e úmido era digno de filme de terror.

– Que absurdo – o rapaz riu, dando as costas para o poço.

“Oh. Olá” – disse uma voz desconhecida repentinamente.

Ao voltar-se para trás, deu de cara com um sujeito alto e esguio de cabelos compridos. Usava roupas tradicionais.

A combinação de aparência e ambiente fez Hiroki gritar.

– YOUKAI!

 

***

 

“YOUKAI!” – Yui escutou o berro do irmão cortando a vizinhança na linda manhã ensolarada.

Desesperada, a garota procurou a origem do grito e subiu a escadaria do Templo Sem Nome correndo.

– YOUKAI?! QUE YOUKAI?! – berrou, arrombando a porta da salinha do poço com um chute.

A porta se espatifou nos fundos do local, voando sobre o ombro de Naoya.

– É… um… mas… – Hiroki, sentado sem forças no chão, virava a cabeça de Yui para Naoya.

– Eu só estava andando por aqui – explicou ele. – Você não deve ter me visto.

– Mas… – o rapaz no chão fixou os olhos sobre a cabeça de Naoya. – Eu tinha visto…

– É só um cara estranho da vizinhança – interrompeu Yui, percebendo que ele procurava as orelhas de raposa. – Que deveria tomar mais cuidado.

Naoya deu de ombros e a garota devolveu uma careta.

– Vocês se conhecem? – Hiroki levantou-se, acalmando-se gradativamente.

– Sim – Yui suspirou cansada. – O pai e a mãe também conhecem, se quer saber.

– Muito prazer – disse o youkai, aproximando-se naturalmente. – Sou Naoya.

– Hã… prazer..? – o irmão sentiu falta de um sobrenome, mas resolveu não perguntar.

– Estou atrasada para a escola graças a vocês! – reclamou Yui – Comportem-se enquanto estou fora!

E saiu correndo, tão rápida quanto chegou.

Os dois homens deixados para trás se encararam, sem assunto nenhum para abordar.

 

***

 

“É inacreditável” – comentou Yui na sala de aula, sentada de lado na cadeira para conversar com Kouta. – “Agora ele vai pegar no pé até do meu irmão”.

– Eu achei que eles já se conhecessem – respondeu o amigo, comendo bolachas enquanto o sinal de início das aulas não soava. – Naoya sempre anda com você e tudo mais. Ele não é um amigo da família?

– Hã? – balbuciou Yui.

Então era assim que as outras pessoas enxergavam? Era menos pior do que “youkai exigindo ajuda”.

– Não é isso? – o garoto questionou.

– Bom…

Cada qual tinha seu interesse, então seriam parceiros? Sócios?

Mas Naoya passava tempo demais em sua casa e faziam toda a sorte de coisas idiotas enquanto não estavam caçando youkais.

A sociedade comumente chamaria isso de…

Amigos.

– Não é possível – Yui deixou escapar, pasma.

O sinal tocou alto e claro, fazendo Kouta voltar ao seu lugar e encerrando a conversa pela metade.

Os alunos se aquietaram em seus lugares, apesar do bate-papo continuar.

Aguardaram o professor aparecer.

Aguardaram por cinco minutos.

Por dez minutos.

Até que as conversas pararam de vez, com as várias cabeças observando intrigadas a porta fechada.

O professor velho de matemática nunca se atrasava.

– Será que aconteceu alguma coisa com ele? – sussurrou um aluno, representando o sentimento dos demais.

O professor era muito, muito velho.

Dois garotos levantaram-se e abriram a porta, espiando o exterior.

A sala exclamou espantada quando, após poucos segundos, os dois caíram no chão desacordados.

Yui teve um mau pressentimento. Algo estava errado.

A garota correu até a porta e, pulando por cima dos dois colegas, avaliou o corredor.

Estava vazio. Silêncio absoluto.

Havia um cheiro estranho no ar. Estranhando que não havia estardalhaço na sala, Yui voltou-se para trás, somente para ver as dezenas de alunos caídos sobre suas carteiras.

Os olhos estavam pesadamente fechados.

– Estão respirando! – exclamou Kouta, avaliando alguns colegas – Mas não parecem estar passando bem! Estão suando e estão meio pálidos!

O garoto tinha amarrado o blazer do uniforme no rosto, usando como uma máscara improvisada.

– Hã… é… tá – conseguiu dizer Yui, estupefata pela velocidade de pensamento do amigo. Era só um cheiro esquisito no ar.

“Yui, é um youkai” – anunciou Naoya, invadindo a sala pela porta dos fundos.

– Onde? O que ele faz? – ela perguntou.

– Não vai perguntar de onde ele veio?! – exclamou Kouta – Que youkai?! Como assim?!

– Vim da porta da frente – disse Naoya, já estendendo a espada embainhada para a garota. Ele olhou o único garoto de pé. – Impressionante. Você está vivo.

Todos estão vivos, tá?! – reclamou Yui – O que está acontecendo aqui?

– Sério que…

“É um youkai?” – completaria Kouta, se não tivesse visto antes as duas orelhas de raposa no topo da cabeça do homem de kimono.

Elas mexiam conforme Naoya se expressava, semelhante ao visto em cachorros.

Não eram falsas.

– YOUKAI! – berrou Kouta, de voz abafada pelo blazer.

– É a segunda vez que ouço isso hoje… – ele respondeu.

– E… e… – quase podiam ver os olhos do garoto girando, mas algo lhe ocorreu: – Por que você está tão bem?

Yui, de pé naturalmente como em qualquer outro dia, encarou-o.

– Ah. É complicado.

– Você também..?!

– NÃO! – ela brigou.

– É o que ela diz – sussurrou Naoya.

– Em quem eu preciso bater para resolver isso? – a colegial olhou para os dois lados do corredor.

– É um youkai de origens humanas; por isso captei sua presença enquanto procurava por Youkais Maiores.

– Para que ele foi atacar essa escola?! O que tem contra ela?!

– Na verdade, ele já atacou uma creche e outra escola até chegar aqui. Teve de fugir porque eu o estava perseguindo.

– Qual é a tara dele por alunos..?

– Acho que pretende comer energia vital. Jovens têm energias melhores.

Kouta só conseguia virar a cabeça para olhar de um para o outro, incrédulo com o que via.

– Quer dizer que… aquelas notícias na TV sobre monstros não são só lendas urbanas..? – perguntou.

– Você estava na excursão pra praia! – Yui respondeu – Não viu que teve gente sequestrada?!

Por pessoas, eu achava!

– O youki está mais forte para esse lado – Naoya ignorou o diálogo. – Por aqui.

Yui seguiu o youkai às pressas, obrigando um Kouta muito confuso a decidir se deveria segui-los ou permanecer na sala.

Preferia ficar com pessoas conscientes.

 

***

 

“O que é isso? Um ataque terrorista? Uma doença nova?!” – a mãe da casa Uesugi estava estupefata diante da televisão na sala, cutucando o ombro do filho no sofá.

– As pessoas já estão acordando, olha – Hiroki apontou as frases em alta velocidade que passavam na parte de baixo da tela. – Ainda não sabem o que aconteceu.

– E se for outra febre?! Ou mosquitos?!

– A gente… se vacina?

– Preciso contar para o seu pai – a mulher deu passadas largas para a cozinha, procurando o celular.

Hiroki continuou a assistir o noticiário, tomando um café e tentando esquecer o que houve no Templo Sem Nome.

Foi quando viu o novo local com o “surto misterioso”.

 

***

 

Um vulto rastejou pela parede.

– É AQUI! – exclamou Yui, metendo uma espadada bem ao lado de um quadro-negro.

Kouta gritou conforme a Tessaiga quebrou uma parte da parede, trazendo destruição para a terceira sala de aula.

– Nesse ritmo, você vai derrubar a edificação antes de matar o youkai – Naoya abanou-se, fitando a direção em que o vulto correu.

– Ótimo. A próxima coisa que eu preciso, mesmo, é que minha escola caia – bufou Yui.

Ter se refugiado por três dias no Templo Sem Nome, durante o verão, já tinha bastado para chamar a atenção de seus pais. Era melhor do que aparecer com ferimentos abertos por um Youkai Maior em casa, mas agora havia vizinhos que pensavam que Yoshiki – quem levava comida, água e roupas novas – era uma espécie de namorado secreto da garota.

– Precisamos, mesmo, ficar aqui?! – exclamou Kouta.

– Bom, você não precisa ficar aqui – disse Naoya. – Não é como se a porta da frente estivesse trancada.

– Tenho medo é de encontrar qualquer coisa enquanto eu saio! – esclareceu Kouta – Não podem vir comigo?

– Estou começando a achar que seremos obrigados – Naoya andou até a janela no corredor e apontou com o leque.

No pátio de entrada ao ar livre, três andares abaixo, algo semelhante a uma lagartixa de fumaça rastejava em alta velocidade para fora da escola. Sabe-se lá para onde.

– Para onde ele vai?! – exclamou Yui.

– Naquela direção, talvez para a escola Shinozaki – disse Kouta. – Só tem crianças do primário; vão entrar em pânico!

– Rápido! – apressou a outra, abrindo a janela.

Yui saltou do segundo piso sem pestanejar, de espada em mãos. Ela pousou pesadamente na terra, erguendo poeira, e saiu correndo.

– E ela alega ser humana – acrescentou Naoya, vendo-a ir.

– Nós vamos pela porta da frente, não vamos?! – perguntou Kouta.

 

***

 

As crianças caíram uma a uma.

O veneno estava no ar.

Pôde escutar alguns poucos gritos no início, mas logo tudo se silenciou.

“PARE AÍ, LAGARTIXA!” – um berro ensurdecedor, junto ao som da porta sendo derrubada, fez o youkai dar um pulo.

Yui, esbaforida, apontou a espada para a criatura.

– Pode parar… – ela respirou fundo, ofegante – de ficar fugindo e atacando a cidade inteira?!

– Pararam para pensar que só estou fugindo porque vocês perseguem?! – a criatura respondeu com voz esganiçada. A lagartixa, parada sobre duas patas, cobria a cabeça com um lenço feito um camponês antigo – Eu só quero uma pessoinha ou outra…

– Até a próxima vida, bicho estranho! – exclamou a garota, saltando com a espada gigante.

A lagartixa gritou desesperada e soltou um grande jato de névoa cinza no ar.

“Por aqui!” – disse a voz de Kouta.

Naoya e o colegial invadiram o hall de entrada da escola de ensino fundamental no exato instante em que a névoa se espalhava. Yui errou a espadada por conta da “cortina de fumaça”, sentindo um cheiro azedo.

– Por que você ainda está aqui?! – teve de perguntar a Kouta, virando-se para trás enquanto a lagartixa se afastava.

– Eu tive que mostrar o caminho para ele – o garoto indicou Naoya. – Porque você saiu correndo na frente!

Yui resmungou.

Só para, no instante seguinte, ver Kouta e Naoya desabando de joelhos no chão.

A garota arregalou os olhos e correu para sustentá-los – surpreendeu-se de que podia segurar dois homens pela cintura para que não caíssem -; Kouta estava completamente desacordado, apesar do blazer na cara. Naoya tinha a expressão fechada e protegia o nariz com a manga do kimono.

Que cheiro é esse?! – ele se queixou.

– É verdade. Você é um cachorro – disse Yui.

– Uma raposa!

– Que é da mesma família que os cachorros.

Naoya tossiu, mas apontou o leque para a lagartixa que fazia menção de correr.

– Pegue-o!

– Largando vocês aqui? – a garota não se sentia muito à vontade em deixar amigos debilitados para trás.

O youkai da fumaça, percebendo que sua névoa era efetiva, tragou ar o suficiente para que sua barriga inchasse para o dobro do tamanho.

– Ah, não – Naoya deixou escapar.

Com um grito esganiçado, a lagartixa vomitou uma grande massa de névoa que avançou sobre o grupo – e, no entanto, a janela do corredor se estilhaçou em mil pedaços quando um sujeito invadiu o local com um chute voador.

– Yoshiki?! – surpreendeu-se Yui, vendo-o pousar triunfante diante da névoa…

E dar um grito desesperado enquanto a abanava para longe com dois grandes uchiwas.

– É. Podia ter sido mais heroico – comentou Yui.

Yoshiki, após dissipar a névoa o suficiente, voltou-se para trás ofegante, mostrando os olhos de gato.

– Eu ia trazer um ventilador, mas não sabia se ia ter uma tomada! – disse, antes de tampar o nariz – Meu deus, o que é essa coisa?!

– Eu tomo banho – alegou a lagartixa.

– Como soube que a gente estaria aqui? – Yui ergueu uma sobrancelha.

– Kaguya me avisou – disse Yoshiki.

Kaguya. Então ela estava bem.

Fazia vários dias que não a via, pois os pais dela haviam praticamente montado um cerco em torno da menina, mas aparentemente estava se recuperando o suficiente para ir buscar youkais-gatos atendentes de fast food.

– Muito bem – Yui sinalizou para que Yoshiki a ajudasse. – Animais do nariz sensível, fiquem aqui.

– Youkais – retrucaram eles em uníssono. Yoshiki postou-se com o uchiwa diante de um Naoya sentado e um Kouta deitado.

Yui brandiu a espada com um salto, rachando o chão ao atingir o piso onde a lagartixa estava antes de sair rastejando pela parede em alta velocidade. A garota o perseguiu pelos corredores, não hesitando em quebrar parte de uma parede e derrubando uma porta ao invadir uma sala.

Yui soltou uma exclamação ao quase pisar numa criança.

Havia cerca de vinte crianças caídas pela sala inteira. Algumas estavam desabadas sobre a carteira, sem nem ter tempo de perceberem que algo estava errado.

– Não adianta me matar – o youkaizinho se enfiou no meio da sala, receoso. – Logo, todos vão ser afetados pelo ar. Está no ar.

Yui parou.

– O que está no ar?

– A energia – a lagartixa continuou com empolgação, vendo que o ataque parou. – Está por toda parte e é por isso que as pessoas estão virando, bem, youkais como eu.

– Você também era uma pessoa?!

Humanoides como Yoshiki ou Kaguya eram aceitáveis, mas esse ser era um réptil de qualquer ângulo.

– Hã, bem, não – o ser disse. – Mas estou bem mais confortável para sair por aí…

Yui revirou os olhos.

– E de onde vem essa energia no ar? – tentou perguntar – Ela sempre esteve por aí?

– Não, claro que não – o youkai parecia animado com o fato de que não seria morto nos próximos segundos. – Não sei exatamente quando começou, mas foi há uns 5 anos. Veio aumentando aos poucos e, hoje, está por toda parte e é tão denso que as pessoas estão começando a mudar!

Yui parou completamente por alguns instantes, engolindo a informação.

Já fazia um tempo que suspeitava – depois de Mika, o professor de literatura e todas as ocorrências com gente-youkai -, mas ter o parecer carimbado de um youkai de sangue possuía um impacto sem igual.

Os humanos não seriam dizimados até que não existissem no futuro de Naoya.

Os humanos seriam transformados em youkais.

Até. A última. Pessoa.

– De onde vem a energia no ar? – questionou Yui.

– Hã? – a lagartixa encolheu-se com o tom grave da voz.

– Estou perguntando se sabe qual a origem da coisa! – a garota rosnou, andando a passos largos até o ser. O youkai fez menção de se afastar, mas foi agarrado pelo pescoço e erguido do chão – DE ONDE É?!

– Não sei! – ganiu a lagartixa, desesperada – Não sei por que, mas não consigo detectar de onde vem! Eu também queria saber!

O youkai retesou-se escutando as bufadas da menina. O aperto no pescoço começou a se fortalecer.

Repentinamente, a lagartixa contorceu o corpo e se desvencilhou, dando um pulo na direção da janela por entre as crianças inconscientes.

Yui rosnou e atirou a espada.

A Tessaiga atravessou o corpo do youkai em salto, quebrando a janela logo a frente e fazendo arma e corpo irem parar no jardim dos fundos.

A garota esqueceu-se das crianças, da criatura morta, de tudo.

Com o monstro empalado do lado de fora, só pôde pensar na sua família respirando o ar contaminado e tornando-se lentamente em seres desconhecidos.

E, acima de tudo…

Yui virou a cabeça e viu-se no reflexo da porta de vidro do armário.

Os olhos faiscavam e a expressão era de um animal selvagem. Os músculos expandidos não eram os mesmos de minutos atrás.

– Eu sou… – sibilou para o nada.

Acima de tudo, a confirmação de uma contaminação a obrigaria a aceitar que, como todos já diziam…

Ela era uma youkai.

 

“Yui! Onde você está?!” – passou a escutar ao longe. Yoshiki parecia entrar em cada sala no corredor.

A garota não respondeu.

Mas em menos de um minuto, Naoya entrou na sala a passos cansados.

– Você se separou da sua espada novamente.

O youkai se aproximou calmamente, sentando-se em uma cadeira entre aluninhos desmaiados.

Naoya suspirou de cansaço e observou o jardim pela janela.

– Veja só – ele indicou as árvores com folhagens vermelhas e amarelas. – Já é outono.

Yui observou as folhas caírem com o vento por algum tempo; a espada enferrujada com o corpo do youkai lagartixa pareceram sumir de vista por um tempo.

Era outono.

Como nos anos anteriores.

Como sempre foi.

– Precisamos ir embora antes da polícia chegar! – berrou Yoshiki, finalmente encontrando-os – Por que vocês estão fazendo uma contemplação de folhas feito velhos?!

Yui e Naoya o encararam sem tanta pressa – ainda não estavam ouvindo sirenes -, porém se sobressaltaram quando uma criança se mexeu logo aos seus pés.

– Meu deus. Precisamos sair daqui – disse Yui.

O trio correu para a janela quebrada e, abrindo sua armação, dispararam para o lado de fora, atravessando as folhas vermelhas e amarelas, agarrando a Tessaiga no caminho e se apressando para a saída.

– Naoya! – brigou Yui quando ele parou para remover a essência do youkai lagartixa.

– Oh. Como imaginei – a raposa decepcionou-se com um grão quase invisível entre os dedos. – Precisamos logo de outro Youkai Maior.

E então escutaram sirenes.

– Rápido! Vamos! – Yoshiki gesticulou com veemência.

O trio saiu pelo portão e, assim que viraram para a direção a seguir, deram de cara com Kouta.

– O que está fazendo aqui?! – exclamou Yoshiki – Eu disse para você ir embora!

– Eu fiquei preocupado! – o garoto exclamou de volta, alarmado com as sirenes se aproximando.

– Pra cá! – Yui passou pelo amigo e liderou o caminho, pretendendo voltar à escola para fingir que nada acontecera.

 

Mas infelizmente a entrada do prédio estava abarrotada, com colegiais, pais, polícia e ambulâncias para todos os lados.

“E agora?! Como vou entrar?!” – sussurrou Yui, parada numa esquina.

– É só se misturar. Ninguém vai notar – sugeriu Yoshiki. – E eu já fiz o que precisava fazer. Vou embora.

E, veloz como o felino que era, o rapazinho magricelo saiu num piscar de olhos.

– Vamos tentar por ali! – sugeriu Kouta, antes de virar a cabeça de supetão.

– O quê? – perguntou Yui.

– Tive a impressão de que…

Alguém mais correra para se misturar?

– Por ali, então – concluiu Yui, não dando tempo para o amigo responder.

Escutando Kouta segui-la apressadamente, Yui andou a passos largos até se aproximar da multidão e, assim que chegou perto o bastante dos primeiros alunos, começou a se mover de forma mais sutil, fingindo que procurava conhecidos.

No entanto, pouco a pouco, todas as cabeças começavam a se virar em sua direção. Yui se retesou e fez careta, até olhar para trás e notar o porquê da comoção.

– Sério, Naoya? – ela pôs as mãos na cintura – Achou que me ajudaria a ficar mais discreta?

– Mas não ia adiantar – o youkai em kimono colorido, com as orelhas de raposa devidamente escondidas, indicou a frente com o leque.

Abrindo caminho por entre a multidão, Hiroki Uesugi vinha se aproximando enquanto acenava para a irmã.

– Yui! – ele disse, assim que chegou perto – E Naoya? – completou, confuso, enquanto Kouta simplesmente saía de fininho.

– O… o que… – a irmã não soube muito bem o que perguntar.

– Eu vi no noticiário! – exclamou Hiroki – E não deixei a mãe ver. Senão ela ia vir correndo.

E faria um escândalo junto com o pai, também nada contido.

– Eu também vim correndo – emendou Naoya, num tom não muito convincente.

– Preciso… vou… – Yui conseguiu pensar numa desculpa: – Vou pegar minhas coisas na sala.

Não iria ficar entre o irmão e Naoya, mediando a conversa bizarra que teriam.

– Então – disse Naoya. – Tempo bom, não? – o youkai se abanou.

– Hã… – Hiroki franziu o cenho. O outro parecia achar uma forma muito natural de começar uma conversação. – Você e a Yui estão em alguma espécie de… relacionamento?

– Hum? Não. Nada especial.

– Você e a Yui têm alguma conexão criminosa..?!

– Que espécie de imagem está nutrindo de nós? – Naoya encarou-o, parando o leque – Somos só amigos completamente normais do século XXI.

– Não sei no que Yui está metida, mas precisa ficar de olho nela – Hiroki mudou o tom para um pedido genuíno.

– Vai mesmo pedir para um indivíduo suspeito e desconhecido para que cuide da sua irmã? O quão desesperado você está? – o youkai voltou a se abanar – Não que eu seja suspeito ou desconhecido.

Hiroki coçou a cabeça desconcertado. Conforme a multidão foi escoando, o rapaz pareceu mais confortável para falar:

– Talvez eu esteja um pouco desesperado. Mas é só porque a minha família já teve uma experiência ruim.

Naoya estreitou os olhos.

– Aconteceu alguma coisa?

Teria algo a ver com a maldição citada pelo avô de Kaguya no mês passado?

Hiroki devia ter enxergado a real preocupação; assentindo com a cabeça, continuou o assunto:

– Yui foi sequestrada uma vez, quando era criança.

– Oh – fez Naoya, um tanto desapontado. Era uma tragédia, mas não parecia ter nada amaldiçoado envolvido. – Mas tudo bem. Continue.

– “Mas”..? – Hiroki pigarreou – Enfim. Na verdade, foi um “quase”. Aconteceu quando ela estava no primário, na terceira série.

Ela era só uma menina com 9 anos. Estava voltado da escola quando um estranho quis levá-la.

Por sorte, Yui foi salva por uma garota que estava de passagem.

– Não sei nem se Yui se lembra de tudo isso – disse Hiroki, após contar a história brevemente. – Ela não fala sobre o assunto e meus pais e eu não tocamos no assunto. Não pode ter acontecido nada porque Yui nem foi levada a lugar algum, mas talvez só o fato de quase ter sido sequestrada seja um trauma…

– Como ficou sabendo de tudo isso? – Naoya perguntou – A polícia te disse?

– Na verdade, a garota que viu a situação e salvou a Yui foi uma menina que estudou comigo no colegial – o irmão mais velho esclareceu. – Ela que me disse sobre o sequestrador.

– Interessante.

– “Interessante”? – Hiroki começou a se mostrar preocupado. Além de tudo, sua irmã andava com loucos.

– Fique tranquilo – Naoya gesticulou despreocupado. – Yui ficará bem. Está grandinha… E também brava e forte.

 

***

 

Yui apanhou sua bolsa na sala vazia.

O silêncio era até perturbador, contrastando com a confusão lá fora. Os passos pareciam ecoar no piso frio.

De súbito, pensou ter ouvido uma caixa tremer.

Ter sentido o cheiro de madeira mofada e de uma respiração em sua nuca.

Yui resfolegou e olhou para trás, mas não havia nada.

Nada.

Era outono.

Assim como foi no ano passado…

Como no ano retrasado…

E como seria daqui para frente, não?

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