4 ESTAÇÕES – OUTONO 2
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4 ESTAÇÕES – INVERNO 1
03/11/2018

4 ESTAÇÕES – OUTONO 3

OUTONO 3

 

“De todas as pessoas, esta era a última que imaginaria sendo um Youkai Maior.

A última.”

 

 *

 

O caixão de madeira.

O cheiro de podre e umidade pareciam mais vívidos do que nunca. Conseguia se lembrar perfeitamente da caixa balançando e uma mão se esticando.

O que havia lá dentro?

Não queria ver. E, ao mesmo tempo, precisava saber.

Aproximou-se lentamente, pouco ciente do próprio corpo. Assim que se colocou diante do caixão, prendeu a respiração.

Sem se permitir pensar muito, abriu a tampa de uma só vez.

Tinha fechado os olhos como se fosse apanhar, mas eventualmente os abriu devagar.

Yui engasgou-se e caiu para trás, perdendo a sensação das pernas.

Estava perdida, estava perdida, estava perdida.

O caixão estava vazio.

 

Yui despertou num salto da cama, caindo de joelhos no meio do quarto escuro e sacando a Tessaiga.

Ouviu dois toques familiares na janela.

– É assim que costuma dormir sempre? – perguntou Naoya, de pé sobre um amontoado de folhinhas com cara chorosa – A espada está quase cortando as paredes.

A garota fez cara feia em protesto, mas não deixou de ofegar enquanto embainhava a arma de volta.

– A… coisa. Está atrás de mim.

– O caixão do sonho? – Naoya franziu o cenho – O que houve agora?

O youkai sentou-se na cama naturalmente, enquanto a outra andava inquieta pelo local.

– Estava vazio – ela disse. – Da última vez, tinha alguma coisa dentro, mas não está mais lá!

Então, para onde o ser teria ido?

– E aí? Onde está o Youkai Maior?! – questionou Yui de repente, bufando – Preciso descontar esse estresse em alguém!

– …Ótimo hobby o seu – Naoya suspirou. – Não sei se é por causa das nossas caças recentes, mas os youkais estão se escondendo muito bem ultimamente. Obviamente porque não querem apanhar da menina brava.

– Então o que eu vou fazer?!

– …Dormir, talvez? – ele indicou a área debaixo dos olhos. Yui se olhou no espelhinho na parede e notou as olheiras – Só vim para realizar alguns rituais e ver se, talvez, localizo um Youkai Maior. O clã lá em casa está impaciente, também.

Yui grunhiu insatisfeita, porém retornou à cama, levando consigo a Tessaiga por algum motivo.

– Fique de olho! – ordenou, apontando a porta.

– Fico, fico – Naoya dispensou-a com um gesto. – Não vou deixar que nenhum monstro do caixão te pegue.

 

*

 

Via as costas de Yui.

Mas, com bastante frequência, o olhar se desviava para outros.

Num corredor cheio de adolescentes uniformizados – uma escola? -, viu Kouta, andando perto de Yui. Os dois conversavam animadamente. Eventualmente, o garoto se distraiu para fitar um aluno específico que saiu de uma das salas.

O olhar perdeu o interesse em Kouta.

Na pousada na praia, Naoya era quem acompanhava Yui. Suas orelhas estavam escondidas. A dupla conversava com naturalidade e eventualmente a garota dava um tapa no braço do homem de kimono.

O olhar os acompanhou até que sumissem de vista.

“Quem é aquele?” – disse uma senhorinha no bairro de Yui.

“Não sei direito. Mas dizem que é o namorado secreto da menina Uesugi” – respondeu uma velhinha.

Yoshiki, sem perceber que as senhoras faziam fofoca, andava sorrateiramente até o Templo Sem Nome, carregando curativos e remédios.

Depois, foi só Yoshiki.

O rapaz trabalhando, o rapaz voltando para casa, o rapaz indo ao supermercado, a porta de entrada do apartamento do rapaz.

Por fim, havia um papel.

O fast food devia estar fechado pela escuridão, mas uma lanterna era apontada para a parede.

Era a escala de trabalho dos funcionários.

O olhar procurou o nome de Yoshiki.

Achou seu dia de folga.

 

“Yoshiki” – sibilou Kaguya, acordando em sua forma youkai e deslizando em alta velocidade pela varanda do quarto.

 

*

 

“Tudo bem, talvez tenha motivos para ficar preocupada” – disse Naoya, caminhando com Yui nas ruas escuras após terem saído de fininho da casa de família. – “Mas não podia ter esperado, talvez, umas cinco ou seis horas para dar tempo do sol raiar?”.

– O que eu ia fazer durante essas cinco horas?! – brigou Yui, carregando sua bolsa de shinai com a Tessaiga – Você ia conseguir dormir enquanto sonha com um caixão de onde o morto escapou?!

– Considerou ir ao templo do Sr. Tanaka? Ali tem cara de que tem “sacerdotes de plantão”…

– Ali tem cara de que vão cobrar caro.

Era uma espécie de emergência. Kaguya iria entender.

– Não faça barulho – sussurrou Naoya, atravessando a propriedade dos Sasaki e contornando o templo. – Os pais de Kaguya estão vivendo aqui, agora.

– Não vou sair fazendo estardalhaço! – Yui sussurrou de volta – O que você acha que eu sou?!

Naoya olhou de soslaio para a pulseira de contas que colocara na garota como uma coleira.

Não diga – Yui interrompeu-o antes mesmo da boca ser aberta. Parando diante da varanda do quarto de Kaguya, a garota bateu algumas vezes na esquadria de madeira. – Kaguya? Sou eu, Yui!

Mais batidas. Mas nada de resposta.

– Há uma trilha aqui – Naoya apontou o chão, embora Yui não visse nada. – Uma trilha de youki – esclareceu.

Yui abriu a porta da varanda, espiando o interior do quarto.

Não havia ninguém do lado de dentro, deixando apenas um colchão desarrumado como indicador de que Kaguya estivera aí há pouco tempo. Pelo menos, estava presente até a hora de ir para a cama.

– É uma trilha muito nítida – continuou Naoya. – Kaguya o deixou aqui propositalmente.

– Para quê?

– …Para que nós seguíssemos?

– Por que ela não ligou, ao invés disso?

A resposta veio à mente imediatamente:

Kaguya não teve tempo. Nem para isso.

– Sei lá o que é, mas precisamos ser rápidos! – exclamou Yui.

– Por aqui – disse Naoya.

A dupla saiu em disparada pela noite, correndo desesperados sem nada entender.

 

*

 

“Yoshiki?!” – chamou Kaguya na escuridão – “Eu sei que está em algum lugar aqui!”.

Precisava encontrá-lo rápido. Se ela não conseguisse, quem mais conseguiria?

– Yoshiki! – a menina chamou.

 

*

 

“Ali!” – apontou Naoya, correndo com Yui até um amplo parquinho de criança mal-iluminado.

No chão, era possível ver duas silhuetas desabadas.

Uma era Kaguya.

– Yoshiki?! – exclamou Yui, desentendida, ao agachar perto da menina e ver quem era o rapaz magricelo logo ao lado – O que está acontecendo aqui?!

Naoya pousou a mão na testa de um, depois de outro.

– Isso não é bom; eles estão dentro de uma alma de terceiro!

– O quê?! – Yui voltou-se para o youkai falando grego.

– Uma energia de nenhum dos dois – Naoya tentou simplificar. – Yoshiki estava preso lá e possivelmente Kaguya entrou para tentar ajudá-lo.

– Por que fez uma coisa dessas, Kaguya?! – a garota exclamou.

– …Poderia dar um pouco de crédito ao rapaz, sabe…

– Mas quem ia querer atacar o Yoshiki?! – Yui indicou o indivíduo como se fosse a coisa mais banal que pudesse existir. – E… o que a gente faz?  Em quem temos que bater?!

– Eu acho que… – Naoya coçou a cabeça e apontou com o leque para o escorregador. – Ele ainda está aqui. Não teve tempo para fugir, suponho.

Da sombra do escorregador a alguns metros, saiu a silhueta de um homem esguio.

Conforme ele se aproximou muito lentamente, notaram que era só um adolescente.

– Miura..? – Yui franziu o cenho.

Teve dúvidas por alguns segundos – não era como se fosse um rosto característico -, porém acabou por reconhecê-lo como o aluno apagado de sua classe.

– Miura. Você… fez… isso? – completou, confusa.

Miura continuou a se aproximar devagar.

Assim que viram seus olhos – vidrados, alucinados -, perceberam que ele não estava aqui porque não teve tempo para fugir.

Ele estava aqui porque queria.

– O quê? – questionou Yui, não entendendo por que o garoto não dizia uma palavra, encarando-a fixamente – Por que fez isso? Deixe eles em paz! – cobrou, indicando Kaguya e Yoshiki já com a bainha na mão.

Miura Shinji, com sua face lisa e sem expressão, só continuou a fitar Yui.

Naoya estreitou os olhos e avaliou a situação: o garoto com atenção pregada na garota; eventualmente ele observava Yoshiki com algo que parecia raiva. Vez em quando olhava de soslaio para a pulseira de contas em Yui e encarava a raposa.

– Oh. Compreendo – Naoya disse, por fim. – Ele é um stalker, Yui.

– Um… stalker..? – a garota repetiu, confusa, absorvendo a informação e se lembrando de como tantas e tantas vezes, mesmo apagado, Miura sempre estava presente às costas de seu grupo de amigos na escola.

– Yoshiki possivelmente foi atacado por conta dos boatos de que é seu namorado secreto.

– Sério mesmo?! – Yui indicou o aspecto insalubre do rapazinho – Isso daqui?!

– Ele também não gosta que você ganhe presentes – completou Naoya.

– Que presente?

O youkai puxou o braço dela para cima, trazendo a pulseira de contas à altura dos olhos.

– Ah – fez Yui de forma indiferente. Chamar essa coleira de “presente” era algo que só um stalker faria.

Miura cerrou os dentes e esbugalhou os olhos para o simples fato de que Naoya tocava a garota. Yui fez uma careta.

Como é que nunca tinha notado antes?

…Bom, não era como se prestasse atenção em Miura. Não era como se ele tivesse presença.

– Mas então… Você também é um youkai?! – disse Yui – Todo mundo nessa santa cidade é um youkai?!

– Inclusive você… – sibilou Naoya, soltando-a delicadamente.

– Liberte Yoshiki e Kaguya seja lá do que for – a garota ordenou, sacando a espada gigante sem titubear.

Miura não pareceu se abalar.

Ele estendeu a mão, mesmo com a garota a metros de distância.

O ar tornou-se pesado e uma energia característica encheu o ambiente. Naoya arregalou os olhos.

– Cuidado, Yui! É um Youkai Maior!

“Hã?!” – fez ela, virando-se para trás.

Num piscar de olhos, uma grande mão negra surgiu no ar, agarrando Yui e fazendo-a sumir em sua palma.

Naoya fez surgir um círculo de chamas roxas no chão e, apontando o leque para o inimigo, envolveu-o em linhas de fogo que o prenderam como uma corda.

– Você não irá a lugar nenhum – disse a raposa entre dentes, sentindo o poder da criatura aumentando. Era algo lento, mas muito poderoso.

Um grande olho se abriu no punho fechado no ar. De pupila dilatada, o olho único fitou Naoya alucinadamente.

– Você não é um conjunto de almas – o sacerdote-supremo concluiu. – É um conjunto de emoções e pensamentos.

 

“É a materialização de obsessões!” – escutou Naoya dizer ao longe, mas de forma forte.

Quase como se fosse para ela ouvir.

Yui abriu os olhos de supetão, lembrando-se de ter sido capturada por algo.

Estranhamente, viu-se de pé na escuridão.

Virou a cabeça algumas vezes, perdida, até dezenas e dezenas de olhos se abrirem pelo ambiente negro, todos a fitando.

A garota parou em choque, até reconhecer os olhos

Eram iguaizinhos aos de Miura, vidrados e enlouquecidos.

– Tá olhando o quê, idiota?! – exclamou, batendo o pé ao perceber que estava sem a Tessaiga.

De todas as pessoas, essa era a última que imaginaria como um Youkai Maior.

Ele era só… um moleque que não fazia nada!

– Yoshiki?! Kaguya?! Vocês estão aí?! – tentou chamar. Era esse o lugar em que estariam presos? – …Eu acho que não.

Era só escuridão e não parecia haver qualquer outra pessoa. Algo dizia que não era nem para duas pessoas conseguirem estar juntas nesse ambiente esquisito. Kaguya conseguia porque… era a Kaguya.

– E agora o quê? – Yui abriu a boca para continuar a reclamar, mas foi envolta pelo breu em um instante, fazendo-a perder o fio da meada.

Quando voltou a enxergar, teve que estreitar os olhos para não ser cegada pela luz do sol. Crianças davam risada e corriam pelo parquinho. Pais estavam sentados nos muitos banquinhos espalhados.

Yui estava de pé, bem no meio do lugar, sem ninguém notá-la.

Ou várias horas se passaram enquanto estava presa na escuridão… ou esse lugar era só uma continuação da mesma escuridão.

Possivelmente a última opção, pois o parquinho nem era o mesmo em que estava com Naoya.

Observando os arredores, tentando entender onde estava, acabou por achar uma criança em destaque, como se o foco fosse melhor no menininho agachado na areia.

A criança brincava sozinha de forma apática, fitando as outras crianças.

Ninguém se aproximava, e o menino também não se levantava.

– Esse… é você, Miura? – Yui perguntou ao nada, andando até perto da criança para vê-la melhor.

Como imaginava, ninguém – nem o menino – reagiu à garota que não estava ali de fato. Eram só memórias; e era um tanto assustador que Miura se enxergasse em terceira pessoa, tal qual um verdadeiro stalker fitando um menino.

Stalker dele mesmo? Obsessão?

Vá entender.

 

“Pare de me olhar. Eu posso ser ruim trabalhando sob pressão” – disse Naoya, concentrado em seu círculo de chamas enquanto a mão negra de olho aberto vibrava em meio às suas amarras.

A criatura não possuía poderes aterradores como o avô de Kaguya, mas era…

Indestrutível. Insistente.

Obcecado.

– Vamos, Yui, preciso de ajuda aqui… – grunhiu o sacerdote, tentando alcançá-la.

A alma dela ainda estava vívida dentro do Youkai Maior.

 

*

 

“Você era uma criança sem graça, já entendi” – arrebatou Yui, vendo a figura de uma criança um pouco maior sentada diante da televisão.

Os olhos da criança estavam estáticas, assim com seu corpo.

– Não sei se está querendo que eu tenha dó ou algo assim, mas não está funcionando.

A garota esquadrinhou a casa pequenina e sem características, procurando uma maneira de sair. Nem a janela, nem a porta abriam, travadas no cenário como um objeto fixo.

O telefone fixo não tocava. Nenhuma outra criança vinha chamar o menino para brincar.

– Você virou youkai porque estava entediado? – Yui cruzou os braços, impaciente.

Quando piscou os olhos, repentinamente se viu em outro local.

– Quer parar com isso?! – reclamou, reconhecendo os jardins da escola. Pelos enfeites comemorativos espalhados, devia ser o primeiro dia letivo.

Dentre os alunos novos sendo recebidos por recrutadores dos muitos clubes escolares, estava Mika – parecia tão normal – e, mais para frente, Kouta.

Miura Shinji estava andando feito um zumbi na multidão até alguém praticamente atropelá-lo.

O garoto derrubou a bolsa.

– Oh. Foi mal – disse a garota com que trombou, voltando-se para trás e estendendo-lhe a bolsa.

E ela – Yui Uesugi, dois anos mais nova do que agora – se foi, correndo na direção de Kouta.

Yui observou com perplexidade a si mesma.

Tinha quase certeza de que o maior diálogo que tivera com Miura foi esse “foi mal”.

E nem se lembrava disso.

Miura fitou as costas da garota longamente, até que sumisse na multidão.

 

A próxima cena também era na escola.

Miura estava observando Yui de longe, nos corredores.

Na próxima cena, dentro da sala de aula.

Era impressão ou o garoto parecia mais vívido desde que ganhara um objetivo?

Na próxima cena, perseguia a garota pelas ruas.

Na próxima cena, esquadrinhava com quem ela andava.

Yui, tomada pela torrente de cenários que se alternavam, começou a se sentir tonta.

– Pode parar?! – reclamou, colocando a mão na cabeça.

Talvez fosse desmaiar.

 

*

 

“Mantenha sua consciência, Yui!” – exclamou Naoya, sem saber se era ouvido. A única coisa que podia sentir era que a alma da garota fraquejou no Youkai Maior. Sua energia estava sendo drenada conforme o tempo passava.

O grande olho piscou.

– Já deve saber disso – o sacerdote-supremo disse entre dentes -, mas ela não é uma menina fácil de vencer.

 

*

 

A paisagem começava a ficar escura. O mundo parecia girar.

Em meio a tudo isso, um garoto estava de pé na escuridão.

Miura Shinji, com sua cara de nada.

Então era isso.

Yui fora a primeira garota que tivera contato com ele – a primeira de todas com quem trocou palavras.

E isso foi o suficiente para marcá-lo a ponto de torná-lo um Youkai Maior que representava a obsessão das pessoas.

Yui andou até o garoto.

Precisava muito falar com ele.

– Miura… – balbuciou Yui, tonta.

Erguendo os olhos, viu o rosto do garoto adiante.

Yui abriu a boca.

– SEU STALKER NOJENTO!!! – gritou, avançando dois passos e enfiando um soco na cara do stalker nojento.

Miura voou para trás com a força brutal, enquanto Yui ofegava e se dava conta de que acabara usando mais do que palavras.

 

*

 

Era agora.

Naoya abriu os olhos e encarou o olho gigante de frente.

As amarras de chamas apertaram a criatura até a mão negra perder a forma e começar a gritar por uma boca inexistente.

– Yui, vamos sair daí – disse o sacerdote, quase ao mesmo tempo em que escutou um berro enraivecido:

– ME DEIXE SAIR! – Yui abriu a criatura com as próprias mãos, rasgando o ser disforme pelo seu interior. Rosnando estressada, a garota saltou para fora do Youkai Maior, ao mesmo tempo em que Naoya gesticulou com o leque.

A Tessaiga, no chão, pulou para cima.

– Você é um idiota! – Yui sacou a espada – E não coloque a culpa nos outros!

A lâmina gigante foi brandida com uma velocidade sem igual. A massa negra foi cortada ao meio e o chão rachou quando a arma o atingiu.

A criatura tornou-se fumaça escura e, em meio a gritos de mais de uma pessoa, passou a dissipar-se no ar.

– Como fez para enfraquecer a energia astral do Youkai Maior? – perguntou Naoya, aproximando-se.

– Sei lá. Bati com força.

– …Obviamente.

Yui observou perplexa o monstro dissolver-se completamente no ambiente, não deixando nada para trás.

– Ele… o Miura… – ela apontou os vestígios da fumaça pairando.

– Sim. Era a materialização da obsessão de múltiplas pessoas. Ele não nasceu como uma pessoa. Não tinha pais e seu corpo real era… – Naoya abanou o leque para espantar a fumaça. – Isso.

“Sou ainda uma obsessão pequena” – sussurrou algo que parecia a voz do garoto indo embora. – “A fonte ainda está viva…”.

Não houve emoção na voz até o final. Era simplesmente a insistência de uma criatura formada por apego irracional.

– Fonte..? – repetiu Yui, sentindo um calafrio.

Mas o Youkai Maior já tinha se ido, deixando um generoso fragmento de almas no chão. Naoya se abaixou e pegou o objeto quando Kaguya despertou com um grito, sentando de supetão. Yui acabou gritando também – principalmente quando Yoshiki sentou-se berrando mais do que todos.

– Tudo bem – ofegou Yui, erguendo as mãos. – Estamos todos bem.

Kaguya assentiu várias vezes; Yoshiki tocou o próprio corpo, verificando se estava inteiro.

Naoya estava distraído com o fragmento de almas quando escutou Kaguya resfolegar. Todos olharam para a menina confusos, já que não havia nada de diferente por perto.

– Uma… – ela apontou chocada logo atrás de Yui. – Uma sombra..!

Naoya arregalou os olhos, antes de ver de maneira correta.

Yui e Yoshiki poderiam não estar enxergando, mas havia uma massa negra grudada nas costas da garota feito um encosto.

O sacerdote tentou concentrar-se e buscar sua origem, mas a criatura era poderosa o suficiente para nem estar presente.

A massa negra era simplesmente…

Um agouro.

– Precisamos conversar, Yui – arrebatou Naoya, ignorando um trovão repentino que assustou Kaguya ainda mais.

Tinha chegado a hora de contar.

Preferia não causar mais pânico a alguém que já não conseguia dormir direito por conta de perturbações sobrenaturais, porém ela tinha o direito de saber.

– Preferia contar isso quando eu já tivesse uma solução – começou Naoya, parando atrás do escorregador para que tivessem um mínimo de privacidade -, mas creio que não haja tempo para enrolar.

– Como assim?! – Yui manteve seu olhar fixo mesmo quando a chuva começou a cair – O que é?!

Naoya respirou fundo e preparou-se de uma maneira que a garota nunca tinha visto antes.

Ele fitou-a.

– Sua alma é amaldiçoada.

Houve vários segundos com somente o som da chuva no entorno até Yui relacionar inconscientemente os sonhos, a sensação de perigo, o seu passado.

– Há uma força querendo sua vida – o youkai continuou. – Ela está se aproximando e irá trabalhar para matá-la.

– Mas… – gaguejou Yui, o som quase sendo apagado pela chuva nem tão forte. – Mas eu…

“Tenho família, tenho amigos”.

Tinha uma vida.

Mas do que estava falando?

Se fosse um youkai qualquer, uma criatura ameaçando-a, perguntaria: “O que vamos fazer?”.

No entanto, já era definitivo de que a “força” não era um ser qualquer.

Havia uma maldição e podia senti-la.

O que fariam?

Ao invés da pergunta, Yui se escutou dizendo:

– Mas não quero morrer!

Suas mãos tremeram. Escutou o caixão se mexendo. Pôde sentir o cheiro de bolor da caverna úmida.

O ataque em sua infância.

Rikako-san morta.

Vislumbrou uma cara torta e disforme por um segundo.

– Eu não quero morrer! – repetiu em desespero, sem notar que Naoya segurava seus ombros e tentava acalmá-la.

Era amaldiçoada. Sempre fora.

Yui caiu sentada no meio da chuva.

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