4 ESTAÇÕES – OUTONO 3
21/10/2018

4 ESTAÇÕES – INVERNO 1

INVERNO 1

 

“Você é uma youkai” – disse Naoya. – “Mas não exatamente o que nós achávamos”.

 

 *

 

“Não tinha outro jeito de falar?” – perguntou um dos capitães do Clã das Presas.

– Um jeito menos insensível – completou Hakuouko.

– É só uma menina, senhor – acrescentou timidamente um soldadinho lobo.

– Querem parar de dar palpite?! – exclamou Naoya, descabelado no casarão do Clã – Contei a história para pedir sugestões de solução!

E não sobre sua peripécia em dar boas notícias para adolescentes.

– Tem ideia de que está falando isso desde o final do outono e já estamos no inverno? – Hakuouko bocejou.

– Só precisamos de um plano – insistiu Naoya, parecendo cada vez mais alucinado.

– Não queria perguntar isso agora, mas… – interveio um capitão raposa – E os fragmentos de almas para lutarmos contra o demônio do norte?

– É ISSO! – berrou Naoya de tal maneira que fez os demais pularem.

O sacerdote, abaixando o leque apontado para a cara do capitão, levantou-se de maneira eficiente e saiu andando às pressas.

– …Não sei por quê – o capitão engoliu seco. – Não gosto do plano dele.

 

*

 

“Podemos usar a joia de almas para purificar o youki deste mundo!” – exclamou Naoya, andando em círculos pelo quarto de Yui – “A maldição vem de uma criatura que é uma crosta de emoções negativas e possivelmente cresceu desta maneira com todo o youki no ar!”.

– Hã? – fez Yui avoada, comendo bolachas e salgadinhos.

Desde que recebera a notícia desoladora, a garota passara alguns dias apática e, ao sair da apatia, resolvera comer e ficar em casa na maior parte do tempo, como que aproveitando o melhor de sua vida.

– Preste atenção, pelos deuses! – Naoya começava a não entender por que ele era o descabelado aqui – Dissipando o youki que fortalece a maldição, é possível que até a criatura seja dissipada!

Yui piscou várias vezes, processando a informação muito lentamente.

– Isso não vai, sei lá, acabar mudando o futuro cheio de youkais? – ela ergueu a sobrancelha.

– Eu não acredito que minhas ações aqui vão mudar o futuro. O meu mundo é o resultado de tudo que já aconteceu. E continuará sendo.

– Mas…

– O que é agora?!

Yui mastigou a bolacha e engoliu.

– Para isso dar certo, você não precisa ter a joia de almas? – ela perguntou com sua feição de nada – Tipo, sei lá, um pedaço completo?

A garota olhou para o kimono colorido do outro, na altura em que ele guardava o fragmento de almas.

Um fragmento decente, mas ainda não completo.

– Vou dar um jeito! – Naoya remoeu-se sozinho, grunhindo para os ares.

– Mas eu acredito – ela disse.

– O quê?

Diante do youkai incrédulo, a garota levantou-se com firmeza pela primeira vez nas últimas semanas.

– Eu acredito em você – Yui fitou-o fraca, mas com convicção. – O que precisamos fazer?

 

*

 

“Calma. Como é?!” – exclamou Kouta, apesar de tentar manter a tranquilidade.

A sala de aula enchia de alunos aos poucos, com a conversa sobre provas e faculdade preenchendo o local. Ninguém mais falava de assuntos de vida ou morte.

– Naoya foi em casa ontem. Disse que ia dar um jeito em tudo com a joia de almas – disse Yui sem muito entusiasmo, com a cabeça apoiada numa das mãos.

– Em tudo? Na maldição? – Kouta tentava acompanhar todas as novidades desesperadoras da amiga, mas era praticamente impossível – O que está acontecendo?!

– Não sei! – respondeu Yui alto demais, chamando a atenção de alguns colegas. A garota logo baixou o tom de voz: – E, mesmo assim, eu vou morrer por causa disso se continuar sem fazer nada.

Já tinha chorado, gritado e brigado sozinha em seu quarto.

Agora, simplesmente parecia que…

Não havia mais nada a ser feito.

– Então precisa fazer alguma coisa! – gritou Kouta de forma estridente, levantando-se e apontando um dedo na cara de Yui. A garota arregalou os olhos enquanto ele gesticulava tresloucadamente – Não pode deixar que isso chegue até você sem nem tentar algo!

– Tá bom! Tá bom! – Yui repetiu espantada, sinalizando para que Kouta se sentasse. Agora, a sala cochichava sobre a dupla, cada qual com sua teoria maluca. Conseguiu ouvir “deserdada”, “grávida” e “triângulo amoroso” – Não precisa aumentar o número de problemas!

Kouta, ofegante, sentou-se.

– E?! – exigiu saber.

– Naoya está procurando por um novo Youkai Maior. A gente quer completar a joia de almas o quanto antes.

 

*

 

Não havia rastros de Youkai Maior.

– Por quê? – Naoya deixou escapar, impaciente.

Parado sobre uma ponte, o youkai já estava cansado de consultar espíritos, elementais, deuses, o universo e uma série de entidades em que nem acreditava.

Não importava o método: não conseguia achar um Youkai Maior conveniente pela cidade.

Há uma correnteza – disseram os espíritos de dentro do rio, mesmo sem voz.

Naoya não prestou tanta atenção e grunhiu.

Uma correnteza sobre a alma.

– É só uma menina – o youkai disse, tanto em voz alta quanto para os espíritos. – Por que querem levá-la?

A correnteza leva muitos.

O sacerdote parou de se lamentar ao compreender os espíritos.

Havia uma correnteza de energia negativa em direção à Yui, graças à maldição sobre ela.

A correnteza estava levando uma série de criaturas até ela, atraídas pelo youki poderoso.

– E mais essa – reclamou, antes de deixar a ponte às pressas.

 

*

 

Yui ergueu a cabeça.

Estava quase dormindo sobre a carteira durante a aula, mas algo lhe chamou a atenção.

Havia um… “cheiro” no ar.

Talvez estivesse andando demais com Naoya: tinha a impressão de que o cheiro não estava sendo captado com o nariz. Era algo mais etéreo e…

Astral?

A garota levantou-se num pulo, batendo as mãos na carteira. Todos os olhares se concentraram nela, chocados.

– Eu… preciso ir ao banheiro – inventou Yui.

O professor nem havia saído de seu choque quando a aluna saiu correndo.

 

*

 

“O que vocês querem?!” – Yui exigiu saber, andando a passos rápidos pela quadra fechada nos fundos da escola – “Eu sei que estão aí!”.

Silêncio.

No entanto, pouco a pouco, passou a ouvir o som denso de inúmeros seres se movendo ao mesmo tempo.

“É ela”.

“Ali está”.

Sussurros encheram a quadra quando youkais saíram dos vestiários e depósitos. Havia centopeias, lagartos, humanoides e alguns simplesmente disformes. Vários pareciam bem humanos, mas a expressão não podia ser descrita com outra palavra senão “animalesca”.

– O que querem com a escola?! – Yui questionou.

– Com a escola? – uma youkai com cara de cobra perguntou de volta, desentendida.

Criaturas e adolescente se encararam por breves segundos, até Yui compreender que não estavam aqui por causa do lugar.

Estavam aqui por causa dela.

Um lagarto de garras imensas foi o primeiro a não se aguentar e pular para o ataque. Yui desviou-se e jogou-o para longe com as mãos, mas as dezenas e dezenas de youkais vieram a seguir.

Yui agarrou o pescoço de um homem com escamas e usou-o para bater em um porco deformado. Desvencilhou-se com uma cotovelada enquanto batia a cabeça de dois youkais um contra o outro.

Ela bateu, xingou, lutou e xingou de novo.

Pouco a pouco, sua figura foi sendo soterrada por youkais.

 

*

 

Kouta percorreu desesperado os corredores vazios da escola, procurando por Yui.

Havia algo de errado. Ela não estava com cara de banheiro, e sim de quem iria engajar em combate.

Professores e alunos estavam em suas salas. Não havia ninguém andando por aí.

– E agora?! – murmurou sozinho, tentando ser discreto. Saíra feito um louco da sala de aula fingindo uma dor de barriga. Não queria ser encontrado por um zelador qualquer.

Kouta tomou coragem e seguiu até a porta principal da escola, agarrando seus tênis no armarinho de sapatos.

Assim que deu o primeiro passo para fora, berrou ao trombar com uma figura inesperada.

– Mas o quê?! – reclamou o homem de kimono e cabelos compridos, ajeitando sua vestimenta. Havia orelhas de raposa no topo da cabeça.

– Naoya?! – exclamou Kouta, deixando a discrição para lá.

– Por aqui – o youkai disse brevemente, voltando a correr para os fundos da propriedade.

O desespero de Kouta só cresceu enquanto seguiam em frente. O que estava acontecendo? E Yui?

“Yui!” – exclamaram os dois ao mesmo tempo, assim que Naoya abriu a porta da quadra fechada.

Havia sangue. Muito sangue.

E Yui estava parada de pé no meio dos cadáveres de youkais espalhados, sem um arranhão sequer.

– O que… por quê? – Kouta conseguiu dizer. A garota estava respirando pesado, com os ombros subindo e descendo – Você está bem?!

Yui virou-se, percebendo que amigos estavam presentes. A feição foi se amaciando até se tornar a de uma garota normal e, por fim, ela caiu sentada.

Ela olhou para os arredores, incrédula.

Havia mesmo feito tudo isso?

– Naoya! – sussurrou Kouta, cutucando-o com o cotovelo – Diga alguma coisa!

O homem-raposa estava concentrado em alguma outra coisa, observando o ambiente inteiro com curiosidade. Olhou para os youkais mortos. Olhou para Yui.

No próximo cutuque de Kouta, Naoya pareceu chegar a uma conclusão e finalmente caminhou até a garota sentada.

Yui sentiu ser tocada no ombro.

– Fique tranquila – Naoya disse, assim que ela se virou. – Você é uma youkai. Mas não exatamente o que nós achávamos.

– Como isso pode ser bom? – ela perguntou cansada. Não precisava de mais notícias chocantes

– Você é um youkai-pessoa.

Tanto Yui quanto Kouta ficaram em silêncio, sem compreender.

– É um youkai chamado humano – completou Naoya. – Devido às modificações no ar, algumas pessoas viraram youkais-gato, outros youkais-lagarto… E, você, virou um youkai-humano.

E o sacerdote se abanou com o leque, satisfeito.

– Viu? – ele disse – Não foi tão ruim.

Yui continuou cansada e sentada, mas algo pareceu ter saído de sua consciência.

– Tá – ela disse, um tanto desconcertada.

– A gente precisa sair daqui – interveio Kouta aos companheiros conversando naturalmente no meio de cadáveres. – Vai ser uma confusão na cidade quando virem esses… bichos.

– Não vou voltar para a sala – Yui levantou-se com as roupas sujas.

– Eu pego sua roupa de ginástica no armário – disse Kouta, afastando-se. – E nós vamos todos para sua casa.

– Pode ser – ela concordou, sem nem brigar. Eram só Kouta e Naoya. – Podemos fazer a janta.

– Oh. Vamos fazer oden! – Naoya propôs – Podemos fazer oden?

– Que coisa de velho. Como é que você pode ser do futuro?

– Você não entende o valor de um bom cozido.

Não demorou para que Kouta voltasse até a dupla falando de comida e fugissem da escola feito delinquentes.

 

*

 

“Você é uma delinquente?!” – berrou o pai de família, batendo sobre a mesa e praticamente chorando.

– Não! – exclamou Yui, do outro lado da panela de oden. A mãe e o irmão simplesmente olhavam de um para o outro – Expliquem para eles! – a garota virou-se para Kouta e Naoya, sentados de cada lado dela.

– Muito bem – Kouta se adiantou, já que Naoya só levou um pedaço de nabo cozido para a boca. – Sr. Uesugi. Imagino que tenha visto as notícias recentes sobre criaturas estranhas aparecendo por toda parte. Principalmente aqui nas redondezas.

– Aqueles bichos que os velhos estão chamando de “youkais”? – o homem ergueu uma sobrancelha – O que essas anormalidades têm a ver com Yui ser uma delinquente?

– A cidade está uma confusão por causa dos youkais e a nossa escola foi afetada também. Essa situação faz parte da nossa realidade.

A família murmurou, não sentindo nem um pouco a realidade.

– Naoya! Mostre para eles! – exclamou Yui, batendo na mesa.

Na mesma hora, orelhas de raposa surgiram sobre a cabeça do homem de kimono com um pequeno “puf” de fumaça.

Naoya só continuou a comer enquanto pai, mãe e irmão congelaram.

– Está vendo?! – disse Yui.

– Hã… eu acho que isso foi demais… – argumentou Kouta, antes do Sr. Uesugi sentar-se e desmaiar sobre a cadeira e a Sra. Uesugi e Hiroki exclamarem:

– Posso mexer nessa orelha?!

– O quê?! – Naoya deu um pulo – Não!

– Só um pouquinho – a senhora gorducha esticou a mão, fazendo ele se encolher como se estivesse nu. – Parece tão felpuda.

– Não é sobre Naoya que estamos falando! – disse Yui, tentando chamar a atenção de volta.

Era tarde demais.

– Pai! Acorda! – Hiroki balançava o homem desmaiado – Olha para essas orelhas!

– Eu… eu… – Kouta pegou seu chawan. – Vou comer mais.

O garoto aquietou-se na cadeira, desistindo da situação.

Yui continuou a brigar sozinha, sem ganhar a atenção da família. Acabou dando risada quando a mãe finalmente conseguiu mexer na orelha de raposa e Naoya fez uma careta nunca vista. Yui puxou a outra orelha de raposa. O youkai puxou a trança dela em retorno. Kouta deu risada.

Mais fragmentos de almas.

Era só o que precisava para continuar aqui.

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