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4 ESTAÇÕES – INVERNO 2

“Nos enganamos. CORRAM!”.

 

 *

 

O clima era festivo. Nevava um pouco e estava frio – mas nada que o aquecedor de dentro do apartamento não desse conta.

– Nós deveríamos sair para passear – disse Kouta, andando para lá e para cá no pequeno quarto de Yui. – É natal!

– Aham. E eu sou amaldiçoada – ela respondeu, cética. Depois da fase da apatia, viera a fase do mau-humor. Não se sabia onde estava a aceitação e superação.

“Yui! Kouta! Tem bolo aqui!” – exclamou a mãe da cozinha.

A garota só resmungou e deitou-se na cama, afundando a cara no travesseiro. O amigo revirou os olhos e bufou.

Quem poderia dar um jeito nessa menina?

“Yui!” – chamou Naoya de repente, surgindo pela janela.

Kouta gritou.

– Feche essa janela! – ordenou Yui, protegendo-se da neve com o cobertor – Está frio!

Naoya entrou naturalmente no quarto, fechando a janela e provocando a garota com o leque.

– Não estamos no décimo andar?! – Kouta exigiu uma explicação, mas ninguém pareceu ligar.

– Consegui detectar um Youkai Maior! – Naoya declarou.

“O quê?!” – berraram os outros dois.

“Silêncio aí! O que está acontecendo?!” – brigou a Sra. Uesugi, confusa lá na cozinha.

– Após destruir um clã de youkais sapo e destruir duas plantações de cevada, consegui sentir a presença de um Youkai Maior – continuou Naoya. – Ele já está marcado e é questão de tempo até eu conseguir rastreá-lo com precisão.

– Eu… eu… – Yui balbuciou, perdida, antes de exclamar: – Mãe! Vou comer o bolo!

 

*

 

“Por que eu também tenho que vir junto?!” – Yoshiki questionou o óbvio. Já bastava ser visto como um pedófilo enquanto andava com uma menininha nas ruas. Eles não se pareciam parentes de nenhum ângulo.

– Precisamos animar a Yui! – disse Kaguya com força – Não tem nem um pouco de dó dela estar sozinha e cabisbaixa no natal?!

– E você vai animá-la com chocolate? – Yoshiki ergueu uma sobrancelha.

As mãozinhas de Kaguya seguravam uma caixa bem grande de bombons.

– Bom… é a Yui… – murmurou a menina, antes de balançar a cabeça e exigir: – Toque a campainha!

Escutaram os passos afobados da Sra. Uesugi de longe, até ela espiar pelo olho mágico e abrir a porta.

– Olá, meninos – ela disse brevemente, virando então para trás: – Yui! Kaguya e o namorado secreto estão aqui!

– Entrem! – escutaram a garota exclamar de dentro.

Kaguya e Yoshiki entraram na residência de maneira tímida, olhando para os lados.

Foi um tanto chocante ver a suposta garota deprimida comendo vorazmente à mesa, sentada entre a família, Naoya e Kouta. Um bolo ainda intocado estava no centro de toda a comida farta.

– Esse é o último chikuwa – constatou Naoya, roubando o pedacinho de chikuwa do prato de Yui com um movimento veloz de hashi.

– Ah, não! – o garfo de Yui seguiu a comida, mas já era tarde – Kouta, pare de rir! Vai engordar tomando esse suco só de açúcar!

– Olá, Kaguya. Yoshiki – o garoto tomando suco acenou.

– Yoshiki? – o irmão de Yui virou-se bem rápido – O namorado secreto?!

– O quê?! – o pai também se virou para o rapazinho – Eu não estou sabendo de nada!

– O namorado é o Kouta! – disse Yui, já não aguentando essa história.

– Ué?! – Hiroki pareceu ter acreditado e voltou-se para o garoto ao seu lado – Mas você não gostava de meninos?!

– Hã… trouxe chocolate – disse Kaguya.

– Boa, Kaguya! – elogiou Yui, já estendendo as mãos. Naoya roubou um pedaço de peixe empanado de seu prato – Ah! Era o último!

– Sentem-se – convidou a Sra. Uesugi, olhando a cozinha lotada com muito mais gente do que comportava. – Ou deem um jeito de se sentar. E comam.

Kaguya e Yoshiki tiveram sucesso em se apertar em dois banquinhos que costumavam ficar na sala. E comeram junto aos Uesugi, ouvindo os dramas do pai, os comentários chocantes da mãe e as perguntas confusas do irmão.

Ninguém parecia se importar em estar numa mesa cheia de youkais – aparentemente eles sabiam, mesmo que desprovidos dos detalhes.

Haviam notícias na televisão e muitos ainda não acreditavam, mas a grande maioria aceitava… talvez por serem youkais também, vá saber.

O importante, no entanto, é que estava tudo bem.

Podiam viver aqui.

– Ah, não! – exclamou a Sra. Uesugi, de uma forma igualzinha à Yui.

– O quê? – a filha perguntou.

– Esqueci de comprar chá mate de dia! Yui! Vai lá comprar pra mim!

Agora? – a garota olhou para seu prato com o bolo cheio de creme.

– Tomar chá mate e assistir os programas da madrugada é minha programação diária! – a mulher robusta colocou as mãos na cintura – Hiroki, diga algo a ela, também!

– Yui. Me traz uns salgadinhos do konbini.

– Vai comer mais?!

– Eu sou o seu irmão, não sou..?

– Então aproveita e me traz duas cervejas – pediu o pai.

Como eu vou comprar álcool..? – a filha olhou feio.

O homem logo olhou para Naoya e Yoshiki.

– Hã… – fez o rapazinho. A raposa levantou-se naturalmente e tirou o prato de Yui.

– Devolve! – ela tentou pegar o prato de volta, mas o youkai deu uma voltinha com o corpo.

– Fará bem sair um pouco – ele meneou a cabeça na direção do quarto. – Vá se arrumar.

Naoya começou a comer o bolo. Yui bufou, mas deixou o local para ir ao quarto.

– Por que você precisa roubar a comida dela..? – perguntou Kaguya, porém logo notou o prato já vazio de Naoya – …Você também não é muito diferente dos Uesugi.

– Fui influenciado – ele se defendeu.

 

“Fui influenciada” – pensou Yui, entrando animada no quarto.

O natal costumava ser tão legal assim? Simplesmente comer e ir ao konbini com os amigos?

De qualquer forma, o clima da família a deixara feliz.

Yui abriu o guarda-roupa no canto do quarto, pegando uma camiseta de sair e uma blusa grossa. Deu uma espiada no espelho, verificando se sua trança estava impecável como sempre.

A garota parou.

Congelada diante do espelho, observou-se por vários segundos, tentando procurar algo errado. Era só a sua imagem, mas existia algo bizarro. Seu sexto-sentido de youkai apitava desesperadamente.

Yui piscou. Quando abriu os olhos, não havia reflexo.

Ela se engasgou, mas no próximo piscar, um segundo depois, a imagem no espelho havia voltado.

“Naoya!” – quase chamou, mas calou-se ao notar que iria alarmar a família. Não iria estragar o natal dos pais e de Hiroki.

 

Kaguya enrijeceu com a expressão séria. Yoshiki e Naoya notaram a mudança imediatamente.

– Naoya! – ela sussurrou, cutucando-o com o pé por baixo da mesa.

Ele levantou-se naturalmente, sem chamar a atenção dos Uesugi. Abanando-se com o leque, andou com calma na direção do quarto de Yui.

Bateu duas vezes na porta e entrou sem esperar a resposta.

A calma acabou aí.

– O que houve?! – perguntou, fechando rapidamente a porta e agachando ao lado da garota sentada no chão. Seus olhos estavam arregalados e não saíam do espelho do guarda-roupa.

– Eu… sumi – Yui gaguejou, apontando seu reflexo. – Uma hora estava aí, e depois não estava… Aconteceu umas três vezes… Por quê?!

Naoya virou-se para o espelho.

Não viu nada no reflexo de Yui.

Ao invés disso, viu a massa negra da maldição abraçando-a, prestes a envolvê-la por completo.

Por um instante, Naoya sentiu algo frio e parou de pensar.

Entretanto, forçou sua mente a se recompor.

– Irei encontrar a fonte da maldição – disse, tocando o ombro da garota para trazê-la de volta ao quarto. – Se eu chegar até ela, consigo dar um jeito.

– Mas… como vai saber onde isso está..?

Naoya sorriu como uma raposa caçadora.

– O Youkai Maior que encontrei. Tenho quase certeza de que possui a mesma energia que está em seus arredores.

Yui assentiu, confiando nas palavras do sacerdote.

– Fique aqui com Kaguya. Entrarei em contato pelo celular do Yoshiki.

– De jeito nenhum! – Yui levantou-se, agarrando a Tessaiga encostada na parede – Eu vou junto!

– O quê? Vai?

O que tinha acontecido com a garota assustada no chão, em depressão no último mês? Os olhos de Yui faiscavam com a decisão, agora que possuía um alvo para combater. Ao mesmo tempo, havia o desespero.

O tempo-limite estava mais próximo do que imaginavam.

Naoya esperava que ela não estivesse enxergando o mesmo desespero em seus olhos.

 

*

 

“Kaguya! Yoshiki! Venham junto!” – anunciou Yui ao passar pela cozinha com a bolsa de shinai nas costas.

A menina e o rapaz levantaram-se sem titubear, embora bastante afobados. Kouta também os seguiu, mesmo não sendo chamado. Naoya liderava o caminho e abriu a porta da frente.

– Yui… – chamou a Sra. Uesugi, num tom confuso.

A garota virou-se para trás, vendo o irmão, o pai e a mãe em torno da mesa natalina.

– Eu sei – ela sorriu. – Chá mate, salgadinhos e cerveja.

E saiu, acompanhada dos amigos.

 

*

 

“O que vamos fazer?!” – perguntou Kaguya assim que andavam a passos rápidos pelas ruas. A direção seguida era a do konbini, mas duvidava que fossem parar lá.

– Irei apressar o procedimento para achar o Youkai Maior – respondeu Naoya, virando a cabeça para os lados, procurando algo entre os prédios e comércios enfeitados com luzes. – Normalmente não o faço porque irá gastar energia minha, do terreno e chamará uma atenção que alertará o Youkai Maior e todos os youkais e pessoas que quiserem ver.

– Vamos fazer isso na noite de natal?! – exclamou Yoshiki – Está cheio de gente nas ruas!

– Precisamos ser rápidos, senão a Yui… – começou Kaguya, mas parou ao ser cutucada por Kouta.

– Por isso estou procurando um local vazio por perto! – interrompeu Naoya.

– Perto do rio não vai ter ninguém – Yui indicou o caminho e andou a passos firmes. – Está frio e não tem nenhuma loja em volta.

Naoya, Kaguya e Yoshiki assentiram, seguindo no sentido apontado.

Yui sentiu a cabeça pesar. Só Kouta olhou de soslaio.

 

*

 

Naoya andou a passos largos por um mato alto e úmido sem nem reclamar. Se a cidade estava gelada, à beira do rio estava duas vezes pior.

O youkai caminhou até bem perto da água, enquanto os demais foram parados por Kaguya a alguns metros de distância. Chegaram a olhar questionadores para a menina, mas resolveram obedecê-la quando um vento estranhamente quente revolveu o mato em volta de Naoya.

O sacerdote fechou os olhos, com os cabelos e haori sendo remexidos pelo vento uivante. Uma luz roxa surgiu e foi se intensificando sem parar, tornando sua silhueta um holofote.

Yui escutou guinchos de seres invisíveis. Com um pouco de atraso, criaturas deste plano também guincharam.

– O que foi isso?! – exclamou Kouta para ser ouvido, ao mesmo tempo em que Kaguya e Yoshiki olharam para trás.

– Está vindo da cidade! – Yui virou-se já sacando a Tessaiga. Os três amigos demoraram para identificar o perigo até que escutaram algo na escuridão dos céus.

Só enxergaram um pássaro horrível de rosto humano quando estava próximo o suficiente para ser iluminado pela luz de Naoya.

– Defendam o terreno! – berrou Yui, dando um salto humanamente impossível para interceptar o mergulho do pássaro-monstro, impedindo-o com uma espadada de atacar Naoya.

Não precisaram que fosse explicado de quem deveriam defender.

De todos os lados, ouviram o mato remexer. Podiam ouvir criaturas vindo do céu.

Yoshiki fez uma careta, porém abaixou-se com as costas curvadas feito um gato e saltou para cima do inimigo mais próximo. Kaguya abriu os braços diante de Kouta, protegendo-o, ao mesmo tempo em que tomou sua forma fantasmagórica – sob o sorriso rasgado da menina, instantaneamente algumas dezenas de youkais caíram duros no solo.

 

“O que é aquilo?” – disse um transeunte nas ruas residenciais, estranhando uma claridade nos céus. Era arroxeado e não parecia vir de alguma construção.

– Ali não é perto do rio? – disse um de seus amigos – Não deveria ter nada lá.

 

“Yui! Atrás de você!” – gritou Kouta.

A garota saltou de cima de um pássaro-monstro que acabara de matar, escapando do ataque de algo que parecia um morcego deformado. Girando o corpo, deu um jeito de pousar sobre o novo inimigo, cravando a Tessaiga em suas costas.

Yoshiki saltava de um youkai a outro, sem nem conseguir pensar por que eles estavam tão alucinados. O círculo de inimigos começava a se fechar em torno de onde estavam: de um lado, monstros. Do outro, o rio.

Caso Naoya não se apressasse, teriam de dar um mergulho no rio do inverno.

Ou assim pensava, até uma enguia gigante sair das águas de bocarra aberta.

– Kouta, se proteja! – ordenou Kaguya, antes de sumir num piscar de olhos.

Naoya não se movera nem um milímetro para sair de sua concentração enquanto a enguia quase fechava a boca para arrancar-lhe a cabeça.

No último instante, o monstro tornou-se todo branco com olhos sanguinolentos e parou.

– Saiam! – rugiu Yui, rasgando o corpo de três criaturas simultaneamente ao pousar no chão. Os seres atraídos para o local não pareceram ligar. Só queriam sangue.

Seja lá o que fosse o ritual de Naoya, era forte.

A enguia gigante tomada por Kaguya engoliu vários youkais que quiseram atropelar Kouta. Yoshiki não conseguia dar cabo dos atacantes em um golpe só, portanto investia em todos os inimigos que se aproximavam do sacerdote e logo se afastava para repetir o processo.

– Yui! Aquilo! – exclamou Kouta desesperado, abaixado no meio do mato.

O garoto apontava para o outro lado do rio, nos céus escuros.

Era só um vulto escuro mal-iluminado pela luz roxa, porém podia se ver que era grande – o maior que tinham visto nessa confusão – e vinha sem titubear na direção do sacerdote fonte da energia.

Rápido. Muito rápido.

– Yoshiki! Me ajude aqui! – gritou Yui, correndo na direção do youkai-gato.

O rapaz claramente fez uma expressão desesperada no primeiro segundo, mas ao ver para onde a garota olhava, firmou os pés e estendeu um braço, sustentando-o com o outro.

Yui pisou no braço de Yoshiki, sendo arremessada com força ao mesmo tempo em que pulava para o alto.

Cortando os ares feito uma bala com a Tessaiga em mãos, Yui percebeu que não conseguiria interceptar a criatura. Ela era muito rápida.

No entanto, a enguia de Kaguya esticou o corpo ao máximo, dando uma cabeçada nas pernas de um pássaro de asas imensas e alterando ligeiramente o ângulo do mergulho.

Era o bastante. Yui viu o bico afiado vir ao seu encontro.

– NÃO TEM NADA PARA VER AQUI! – rosnou, segurando o cabo da espada acima da cabeça e virando o corpo de lado.

No impacto, a youkai-humana rugiu e empurrou a lâmina contra o bico usando o corpo inteiro.

Tornados misteriosos revolveram no contato com o youkai, separando-o em dois enquanto a arma rasgava o pássaro exatamente ao meio. Uma metade caiu no mato sobre alguns youkais pequenos, e a outra metade continuou a cair em alta velocidade.

– Naoya! – exclamou Yui, de olhos arregalados.

O bico afiado continuava bem-mirado.

O cadáver gigantesco chocou-se bem no centro do ritual de luzes roxas, erguendo terra molhada e apagando a imagem de Naoya momentaneamente.

O chão tremeu quando o corpo do pássaro caiu com o bico espetado na terra.

Simultaneamente, a luz roxa se intensificou mais uma vez, cegando os arredores: os youkais alucinados por toda parte passaram a correr desesperados para longe, seguindo seus instintos.

Aqueles que se atrasaram foram sugados pelo revolver de luzes – algo claramente saiu de dentro deles – e caíram já mortos.

Naoya estendeu uma mão para cima, reunindo todo o brilho ainda com os olhos fechados.

Uma bola de luz sumiu na mão do sacerdote.

Naoya suspirou cansado.

– Consegui – declarou, virando-se satisfeito para os companheiros.

– SEU IDIOTA! – brigou Yui, se descabelando – Deveria ter desviado!

Ela pisou várias vezes em uma metade de cadáver de pássaro.

– Oh, isso? – ao ver a careta de Kouta e Yoshiki, Naoya passou a mão no rosto e notou um talho na vertical por toda a lateral da face. Saía bastante sangue – Eu estava concentrado.

– Vai ficar bem? – o grupo deu um pulo quando Kaguya surgiu às costas do sacerdote. A enguia gigante caiu de volta no rio.

– Sou um youkai – ele abanou a mão em despreocupação. – Me dê dois dias e vai ser como se nada tivesse acontecido.

Naoya cutucou-se um pouco, mais incomodado com a sujeira do sangue.

– Enfim – recompôs-se após uns segundos. – Sigam-me.

O youkai, sem ligar para sirenes de todo tipo e burburinhos se aproximando, gesticulou para os ares com um dos braços. Uma trilha roxa de luz continuou o movimento, até estourar em milhares e milhares de pontinhos e traçar um caminho luminoso no chão.

Seguia em linha reta pela subida que os levava de volta às ruas pavimentadas.

– Para lá – Naoya anunciou orgulhoso.

– Para lá? – Kouta fez uma careta.

Só de olhar para a direção mostrada, via-se um breu no adiante, sem os brilhos animados da área comercial e residencial.

Yui abriu a boca para apressá-los.

Fechou quando se sentiu estranha.

– Vamos! Rápido! – exclamou Kaguya de uma maneira que não esperavam, fazendo o grupo inteiro apressar-se pela trilha.

A menina preferiu não dizer que tinha visto, só por uma fração de segundo, Yui desaparecer por completo.

 

*

 

Quanto mais andavam fitando a trilha roxa, mais começavam a achar que ela era um tanto fantasmagórica, guiando-os para a escuridão silenciosamente.

A terra em que pisavam era úmida por causa da neve recente.

E havia muito mato. Árvores, arbustos.

Como tinham achado mato no meio de uma cidade grande?

– Está frio – Yui reclamou, apesar da blusa de lã. Ela olhou para os lados até constatar o haori de Naoya. – Me empresta isso aí.

– O quê?! Claro que não! – o youkai se abraçou como se tivesse sido assediado.

– Não está vendo uma mocinha passando frio?! – Yui agarrou a manga comprida do kimono pesado – Deveria ser um cavalheiro e me dar uma blusa!

– Uma mocinha decente teria esperado o cavalheiro oferecer a blusa! – Naoya agarrou o haori quando Yui fez o mesmo.

– Está sobrando roupa aí! Você veste sozinho tecido para dez pessoas!

– Isso se chama “estilo”, caso você não saiba o que é!

– Me dá aqui!

– Não!

Yoshiki e Kaguya andavam pelo matagal escuro desconcertados com a discussão a frente, porém se viraram ao escutarem dificuldades logo atrás.

– Como vocês conseguem andar? – perguntou Kouta, confuso, afastando grama comprida com as mãos e tropeçando toda hora em raízes de árvores.

Estava um breu.

Quando olhou para Yoshiki e Kaguya, viu pupilas nada humanas brilharem com a luz do luar quase inexistente.

– Por que pararam? – perguntou Yui lá na frente, também virando-se. Naoya aproveitou para se desvencilhar e ajeitar seu haori.

Os olhos de Naoya eram tão animalescas quanto os de Kaguya e Yoshiki.

Os de Yui, por outro lado, não podiam ser vistos na escuridão como de qualquer humano. Embora ela se orientasse perfeitamente no breu.

– Venha comigo – Kaguya estendeu a mãozinha para Kouta. O garoto aceitou a ajuda de bom-grado.

Pouco a pouco, perceberam que margeavam a cidade dentro de um bosque preservado. Escutavam vozes bem ao longe e era possível ver pequenas luzes. Não era exatamente reconfortante: pareciam que estavam indo para um lugar distante.

– O que é isso? – perguntou Yui, assim que chegaram diante de uma abertura redonda feita de concreto, seguindo para o interior de um morro – A entrada para o esgoto? Um túnel?

Talvez tivesse sido qualquer uma destas coisas, mas era tão velho que certamente ninguém mais usava. Faltavam pedaços no concreto e a umidade havia criado bolor e musgo para todo lado.

A trilha roxa seguia para dentro.

– Tomem cuidado – disse Naoya, seguindo para a abertura estreita naturalmente.

Após meia-dúzia de passos, o sacerdote virou-se para trás.

Vamos – ele apressou, indicando o interior para os jovens travados feito estátuas.

Naoya movimentou o braço duas, três vezes, apontando o buraco preenchido por breu. Kaguya foi a primeira a começar a andar, mesmo com uma careta. Seguindo a menina, Kouta e Yoshiki passaram a se mover, também exatamente com a mesma careta.

Yui, por sua vez, fitava vidrada a escuridão.

Havia algo lá: o desconhecido. O fim.

O fim.

Yui estremeceu.

– Nem está tão frio assim! – queixou-se Naoya logo ao seu lado, trazendo-a de volta para a realidade.

Um pano grosso caiu sobre a cabeça da garota. Era um haori colorido.

– Satisfeita em me despir, mocinha tarada?! – Naoya bateu na cabeça de Yui com o leque.

A garota deixou escapar uma risada curta.

– Está frio sim. Você que não notou.

E, vestindo o haori, Yui seguiu para dentro da caverna.

 

*

 

Kouta, a esta altura, estava agarrado na mãozinha de uma menina do ensino fundamental e na camiseta de um rapaz que nem conhecia tão bem. Estava parecendo uma criança perdida.

Naoya e Yui seguiam na frente de todos a passos largos. Kouta podia sentir que Kaguya e Yoshiki só seguiam por conta da determinação dos primeiros dois.

A trilha roxa no chão estava mais fantasmagórica do que nunca.

O ar era frio e úmido. O cheiro de algo estranho, diferente do esgoto e do fedor de guardado, pairava pelo local.

Era estranho, mas havia algo esterilizado em todo o cheiro.

Em algum lugar, no fundo de todo esse túnel, existia um ambiente selado que guardava algo de forma muito cuidadosa.

Se Kouta podia notar, os demais já deveriam ter percebido fazia tempo.

E finalmente chegaram: existia uma porta de madeira instalada numa parede malfeita de concreto.

No meio de toda umidade, a porta feia estava conservada como nova.

Naoya girou a maçaneta de imediato, fazendo todos engolirem a respiração.

– Está fortemente selada – ele disse, quando não conseguiu abrir. – Mas posso desfazer num instante.

Espere só um pouquinho – interrompeu Kouta, esticando os braços para chamar a atenção.

– O que é? Não temos muito tempo.

– Eu sei que é necessário para ajudar a Yui, então não vou me opor a remover o selo. Mas a gente não deveria ter um plano?

Kaguya e Yoshiki assentiram com veemência. Yui, por sua vez, olhou para a cara de cada um presente, buscando por sugestões.

– Yui está amaldiçoada. A maldição é potencializada pelo youki no ar – disse Naoya. – Vamos matar o Youkai Maior que está aí para completar a joia de almas e dissipar o youki. Coincidentemente, tenho quase certeza de que a criatura aí é a dona da maldição e o youkai que atacou Yui quando criança. Então são dois coelhos com uma cajadada só. Não há como a maldição continuar de pé após terminarmos.

A não ser, claro, que falhassem na etapa 1 de matar o Youkai Maior.

– Esse plano tem um problema – disse Yui.

Ela notou.

– Veja bem – estava dizendo Naoya, quando sentiu um assovio de vento pela porta de madeira.

Kaguya arregalou os olhos, enquanto os demais encararam o sacerdote.

– Ainda não fiz nada – ele disse, afastando-se um passo da madeira que passava a vibrar.

– A criatura está quebrando o selo por dentro! – gritou Kaguya, quase em pânico.

Todos protegeram a cabeça quando a porta fez um som de que explodiu e se estilhaçou em mil pedaços.

No entanto, ela continuou exatamente onde estava.

Respirando pesado, o grupo aguardou sem produzir um pio. Após um clique sem motivos, a porta rangeu e abriu para dentro.

Um vento gelado e desprovido de cheiro soprou.

Com os sentidos aguçados ao máximo, constataram somente uma caixa – um caixão? – retangular muito desgasta ao centro de um ambiente redondo feito de pedra, terra e umidade.

O caixão estava aberto.

Estava vazio. Não havia nada.

Até que, no segundo seguinte, uma presença fez o corpo vibrar com um arrepio dos pés até a cabeça, enchendo-os feito uma explosão.

O cenário pareceu vibrar.

Uma silhueta completamente negra se materializou de repente sob a porta.

Naoya arregalou os olhos, enquanto os demais quase caíam no chão sem controle das próprias pernas.

– NOS ENGANAMOS! – o sacerdote berrou para ser ouvido – CORRAM!

O grito conseguiu ligar a mente dos jovens congelados: Kouta, Yoshiki e Kaguya dispararam ao mesmo tempo para a saída, somente frações de segundo antes de Naoya e Yui.

No entanto, o sacerdote e a garota foram tragados para trás tão rápido que os demais não notaram.

Só puderam ver o grupo se afastar antes da porta de madeira se fechar.

– Não! – exclamou Yui, saltando para a maçaneta, porém a silhueta negra colocou-se diante dela, repelindo a garota para o outro lado do ambiente com uma força invisível – O que está acontecendo?! – questionou, sentindo uma energia pesada revolver pelo local.

Começava a se sentir sufocada.

Isso não está fortalecido pelo youki no ar – exclamou Naoya. A voz não cruzava a sala muito bem. – Isso é a origem do youki!

Yui recuou, sentindo o corpo tremer por dentro.

Não gostava da criatura, não a queria por perto, não se aproxime, não se aproxime, não se aproxime.

As costas da garota bateram na extremidade da sala.

Yui berrou em plenos pulmões quando a sombra se materializou diante de si.

A sombra cessou.

Era uma mulher pálida. Um cadáver.

Era Rikako.

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