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4 ESTAÇÕES – INVERNO 3

 

“Naoya”.

 

 *

 

Todos os arbustos e copas de árvores pareciam que seriam arrancadas com a ventania que vinha do túnel. O ar corria para todos os lados, sem um padrão certo.

“Yui?!” – gritava Kouta, deitado no chão e protegendo a cabeça – “Onde está a Yui?!”.

Kaguya mantinha os braços abertos e se postava de pé diante dos rapazes abaixados. Uma aura fantasmagórica imensa também abria os braços no entorno do grupo, protegendo-os da ventania dentro do possível.

– Está lá dentro! – ela exclamou de volta – Yui e Naoya ficaram presos!

– Precisamos sair daqui! – berrou Yoshiki, fazendo força para erguer a cabeça.

– O quê?! Não podemos abandoná-los! – disse Kouta.

– Precisamos sair daqui… ou vamos morrer!

Kouta arregalou os olhos e consultou Kaguya. A menina fez uma expressão desgostosa.

Então era verdade.

Se podiam morrer aqui fora, como estariam Yui e Naoya lá dentro?

Kaguya engasgou-se de repente.

– O que foi?! – Kouta tentou chegar até a menina.

– A presença deles… – ela engoliu seco. – Desapareceu.

 

*

 

Ela era uma sacerdotisa.

Tinha vergonha disso quando criança, mas conforme foi crescendo e ajudando os parentes em seus afazeres no templo – incluía caçar, destruir ou selar youkais -, criou o devido orgulho que deveria ter de sua função.

Rikako salvou muitos. Quando adolescente, chegou a salvar uma menininha na rua. De um youkai atacando em plena luz do dia.

“Está tudo bem” – disse para a menina. Levou-a para sua família. Ficou tudo bem.

Ou era o que pensava.

Acabou que não era exatamente um youkai atacando nas ruas.

Era uma espécie de entidade… um grande e poderoso aglomerado de emoções de um único tipo.

Fixação. Rancor. Obsessão.

Um sentimento negro, grudento e pesado.

Rikako se viu perseguida na escola. Usou todos os poderes que tinha para se manter a salvo.

Mas a criatura a perseguiu – chamou-a de “Hanako-san”, já que tomava a forma de uma mulher indefinida -, sem desistir.

Começou a segui-la pelas ruas.

Após um ano, estava dentro de casa.

Após outro ano, estava grudado ao seu lado permanentemente. Para tudo que fazia. Para todo lugar que ia.

No canto do olho, sempre podia ver a figura horrenda da Hanako-san.

Quando estava na faculdade, todas as suas forças já tinham sido sugadas. Nenhum sacerdote conseguiu ajudá-la. Não havia mais jeito.

Sem avisar ninguém, Rikako resolveu selar a criatura.

Utilizando preces e relíquias da família Tanaka, entrou em uma caixa – o caixão em que ficaria para sempre – e dormiu para sempre.

No início, sua alma era um selo.

Mas, pouco a pouco, passou a ter consciência.

Isso não era justo.

Ela era jovem, ajudava os outros, tinha a vida toda pela frente. Deveria ter um bom carma.

Não era para ter acontecido com ela.

Tudo isso aconteceu por causa daquele dia.

É tudo culpa da menina.

Era culpa daquela menina.

É culpa de Uesugi Yui.

É culpa de Uesugi Yui.

 

*

 

“Por que está me mostrando isso?!” – berrou Yui, tampando os ouvidos – “Pare com isso!”.

Podia escutar vozes graves e enroladas entoando: perseguir, encontrar, caçar, perseguir, perseguir.

Perseguir Yui.

– Eu não matei a Rikako-san! – gritou – Pare de me mostrar isso!

“Ninguém está mostrando nada” – disse uma voz, mas era distante demais para ser ouvida.

Yui girou o corpo para desviar o olhar.

Desviar o olhar? De onde? Não era como se houvesse uma tela.

“Você está sendo engolida!” – alertou a voz, ainda distante.

Yui resfolegou e piscou várias vezes, encontrando-se no próprio corpo.

Mas já era tarde – a escuridão que vinha de todos os lados envolveu-a por inteira e a fez desaparecer junto com todo o resto.

 

*

 

O que estava acontecendo?

As leis do universo deveriam fazer mais sentido. Ele era, afinal, um sacerdote-supremo.

O universo não deveria protestar em voz alta.

Muito menos atacar.

“Vocês me deixaram vir aqui!” – protestou Naoya, caminhando pela escuridão arrastando uma das pernas – “Estou aqui por um motivo!”.

O sacerdote elevou a voz e gritou para a escuridão, mas a escuridão não brigou de volta. Usando os sentidos de sua alma, o youkai se locomovia ciente de seu corpo, mesmo não havendo chão ou horizonte.

Mas o seu corpo era o que mais sofria.

A cada passo, a cada movimento, ossos e músculos paravam no espaço e queriam ser arrastados para longe. Naoya lutava com todo o seu poder, porém ao forçar o físico a se manter no plano físico, a pele rasgava como se protestasse.

A mesma espécie de poder que havia no poço, de alguma forma, havia aqui.

Teria algo a ver com a joia de almas? Com o espírito de Rikako?

Andou mais alguns passos.

Algo em seu tronco fez um som horrendo. O kimono era agora uma mancha escura.

Sangue caiu aos montes no chão, quase como uma coisa sólida.

Naoya caiu de joelhos.

 

*

 

“Ei! Acorde!” – dizia uma voz desconhecida – “Não vá morrer num lugar desses!”.

Quem era ele?

“Volte para cá! Pode me ouvir, não pode?!”.

Podia ouvir, sim. Mas isso significava algo?

Lentamente, muito lentamente, guiada pela voz que não parava de brigar e reclamar, Yui tomou consciência de seu corpo e fez força para abrir os olhos.

Engasgou-se com a própria respiração quando se deu conta de que continuava na escuridão, abraçando a si mesma.

“Enfim!” – exclamou a voz.

Yui levantou-se num pulo, cerrando os dentes.

– Quem é que está aí?! – brigou. Colocou a mão nas costas. A Tessaiga continuava na bolsa de shinai.

“Não fique brava. Nossa. É quase como eu…”.

– O quê? – Yui virava-se confusa para todos os lados.

Não havia ninguém na escuridão sem fim. Mas escutava a voz com clareza.

Desentendida, passou a procurar no que podia ver.

Seu corpo. Suas roupas, seus objetos.

A pulseira de contas no braço.

– O quê? – repetiu Yui, fitando o objeto.

“O quê o quê?” – devolveu a voz.

Não era como se o som saísse das contas, mas algo dizia que a origem desse indivíduo era a pulseira.

Yui ficou estática por vários segundos, fazendo uma careta para o objeto.

Quase se esqueceu da situação em que estava.

“E então? Resolveu lutar?” – perguntou a voz.

– Lutar como? – bufou Yui, enquanto tirava a Tessaiga da bolsa – Mal sei onde estou.

“Eu sei. Esses lugares sem pé nem cabeça não são fáceis”.

– …Você fala como se já tivesse passado por isso.

“Só um pouco. Acho que é nosso destino como youkais não completos”.

– Ei! Eu sou humana!

“O quê?! Como assim?! Então para que essas contas?”.

– Quero dizer. Mais ou menos. Sou humana, mas sou youkai.

“Nossa. Você é pior do que eu”.

– O que isso deveria significar?!

“Esquece! Só anda!”.

Não havia uma forma para a voz, mas Yui sentiu que ele apontava para um sentido.

Resmungando e brigando com a voz, a garota passou a andar pela escuridão.

 

*

 

Então era isso? Viera até aqui só para envolver Yui?

Para trazê-la ao caos e matá-la?

“NÃO! O PODER DO POÇO NÃO É PARA ISSO!” – brigou um grito estridente, fazendo o sacerdote ajoelhado sobressaltar-se.

– Quem é você?! – perguntou. Rikako é que não era.

“Tudo bem que de vez em quando o poço trouxe youkais, mas se não fosse por ele, eu também não teria ido para o passado…”.

– Senhora? – Naoya chamou.

“O que eu quero dizer” – ela não possuía forma, mas tinha se voltado para o sacerdote -, “é que se você veio para o passado, é por um motivo. Algo mais importante”.

Ele deu um jeito de se levantar, respirando pesado.

– Não vejo o tal motivo.

Tinha vindo para ajudar o Clã, mas já havia deixado isso para depois. Havia outras prioridades.

“Bom. A garota que você procura já estava amaldiçoada, não estava? Então, pensando de uma forma mais positiva…”.

– Vim para salvá-la – Naoya completou.

“ISSO! SIM!” – a voz incentivou.

Parecia que uma jovem garota estaria dando pulinhos.

– Prefiro o pensamento mais positivo – admitiu ele.

“Para aquele lado”.

– Tudo bem.

Naoya seguiu, mancando, para “aquele lado”.

 

*

 

Yui parou ao ouvir murmúrios.

Eram tão graves e tantos que pareciam uma grande vibração no meio da escuridão.

Podia saber: era Hanako-san… fortalecida pela poderosa alma de Rikako.

– Não posso ir lá – disse Yui. – Vou ser engolida.

“Bom, engolida você seria de qualquer jeito. Todo esse lugar é a criatura”.

A garota fez cara feia e procurou um lugar para encarar, já que não via o dono da voz.

“E-eu pelo menos te trouxe para o centro do youki! Assim pode combatê-lo!”.

– Sozinha?!

“Não sozinha” – respondeu uma voz diferente, agora de mulher.

– Outro?! Era só o que me faltava.

Da escuridão, Yui viu uma silhueta familiar se aproximar muito lentamente.

– …Naoya? – perguntou, notando que o kimono da raposa não estava tão espalhafatoso.

Estava inteiro tingido de vermelho quase negro.

A figura pareceu cair no chão, porém no instante seguinte, uma raposa gigante com olhos flamejantes saltou para perto de Yui.

– Onde você estava até agora?! – a garota brigou – Foi você que nos trouxe aqui, então vamos resolver isso juntos!

– Só me atrasei um pouco – a voz de Naoya ressoou do entorno da raposa. – Você é que deveria parar de se perder.

O murmúrio lúgubre crescia gradativamente.

Estava se aproximando.

– O que vamos fazer com isso? – Yui cerrou os dentes.

“Vai dar tudo certo!” – disse a voz feminina – “Preparem-se!”.

Mal ela havia dito, o som cresceu para onde estavam – a única maneira de saber que algo estava avançando era usando a audição.

Naoya abaixou a cabeça de raposa; Yui saltou para suas costas, antes do animal gigante dar um salto para o lado e se esquivarem da ameaça invisível.

– Como vou matar algo que não consigo ver?! – se queixou Yui.

“Eu ajudo” – disse a moça.

“E depois você só pula!” – completou o rapaz.

O murmúrio avançou mais uma vez.

Naoya, guiado pela força misteriosa que os ajudava, inspirou fundo e reuniu seu próprio poder. Quando abriu a boca e uivou, sua energia foi envolta por forças que nunca poderia criar:

Puras. Muito puras.

As forças de um verdadeiro sacerdote humano.

…Ou de uma sacerdotisa, nesse caso.

A energia se chocou contra a escuridão – e Yui não esperou para ver que a escuridão atingida se dissolveu numa silhueta humana esguia. Simplesmente pulou das costas de Naoya, sacando a Tessaiga e erguendo-a sobre a cabeça.

“Não tenha medo! Não recue!” – disse a voz do rapaz – “E grite comigo!”.

Gritar? O quê? Nunca tinha gritado nada para lutar.

“É para anunciar que vai ganhar!” – ele se justificou, como se tivesse sentido a descrença de Yui.

A Tessaiga respondeu ao chamado do rapaz. Yui sentiu a vibração na espada.

E, conforme a solicitação, gritou:

– KONGOU-SOUHA!!!

O aspecto da lâmina gigante mudou para algo irregular, brilhante e esbranquiçado. Ao mesmo tempo em que atingiu a silhueta negra, pedaços afiados de pedra – lembravam diamantes – explodiram para cima da criatura, ignorando o fato dela ser etérea e estraçalhando-a em mil pedacinhos.

Um pontinho de sombra, em particular, tentou fugir para longe.

– Yui! É esse! – Naoya deu a volta para impedir a fuga, uivando para a sombra e obrigando-a a voltar até a garota.

Yui preparou a Tessaiga, mas não a brandiu.

Ao invés disso, largou a espada e agarrou a sombra com as duas mãos.

Num piscar de olhos, estava numa escuridão diferente – Naoya não estava presente e, logo a sua frente, viu um horrendo cadáver.

Pútrido em níveis diferentes em cada parte do corpo, tinha a pele acinzentada e destroçada, além de longos cabelos secos.

– Rikako-san – disse Yui, parada diante dela.

– Yui… – grunhiu o cadáver, numa voz arranhada que era muito pouco humana.

Ela estendeu os braços, querendo alcançar a garota.

– Obrigada por ter me salvado! – exclamou Yui, com a força com que queria ter dito desde quando se lembrara da colegial que a salvou.

Do sorriso, do humor radiante.

Queria que estivesse viva.

– Não posso fazer nada por você, mas queria que soubesse! – a garota completou.

O cadáver, parado por completo, encarou-a com os olhos leitosos por vários segundos.

E então baixou os braços.

– Está tudo bem – disse, com uma voz humana e viva.

O ambiente estourou em branco e brilho. No lugar do cadáver, agora havia uma Rikako radiante e vívida, da forma como Yui se lembrava.

– Está tudo bem – ela repetiu, abrindo um sorriso. – Vocês conseguiram eliminar a Hanako-san. Você está viva. Já é o bastante.

– Rikako-san! – Yui tentou alcançá-la, porém tanto o cenário quanto a imagem da moça estourou num instante, explodindo em pontinhos brilhantes.

A garota fechou os olhos para não ser cegada.

“Ela tinha cara de que faria isso” – disse a voz do rapaz.

“Tinha? Eu achei que ela ia morder a criatura ou algo assim. Tipo você” – retrucou a mocinha.

“Quando eu fiz isso?!”.

Yui abriu os olhos com o som da discussão. Estava novamente na escuridão de onde viera; estava menos escuro. Podia quase ver o bosque que cercava o túnel, embora a imagem fosse semitransparente.

“Oh. Você acordou” – disse a mocinha.

– Vocês… – Yui tentou olhar para os lados, buscando a figura das figuras que não conseguia ver. – São fantasmas?

Sentiu que eles sorriam.

“Oh, não!” – disse a mocinha – “Você precisa correr!”.

– O quê?! – Yui sobressaltou-se – Por quê?!

E então notou.

– Onde está o Naoya?!

“É para lá!” – disse o rapaz.

“Corra!” – disse a mocinha.

– Obrigada pela ajuda! – Yui deu um aceno e correu na direção indicada.

“Cuide bem dessa pulseira!” – a moça gritou.

“E da Tessaiga! Cuide MUITO BEM!” – reforçou o moço.

 

*

 

Yui correu. Correu muito.

Conforme ia avançando, as árvores sob a noite iam ficando mais e mais nítidas. O chão ainda era escuridão, mas estava quase conseguindo enxergar os céus.

Começava a se perder quando finalmente enxergou o sacerdote.

– Naoya! – chamou, vendo a figura de kimono ensanguentado de costas. Ele parecia olhar para as próprias mãos.

Repentinamente, uma intensa luz arroxeada estourou ao longe, visível mesmo nos céus borrados.

– O youki do ar está purificado – disse o sacerdote, virando-se para Yui. – Em pouco tempo, a área estará limpa.

Yui prendeu a respiração.

– Naoya, você..? – ela apontou para as pernas do sacerdote.

Das extremidades – não só as pernas, mas os braços também -, o youkai das orelhas de raposa começava a desaparecer, tornando-se transparente gradativamente.

– O poço está me chamando – ele disse. – Não sei se é porque gastei a joia de almas, ou se é porque destruímos a criatura… mas acho que minha função nesta era terminou.

– Você vai… voltar para o futuro?

Essa frase soou estranha.

– Em questão de um minuto – ele assentiu. – Ainda vai ter youkais e o mundo se tornará o meu mundo… Mas será menos violento do que se Hanako-san estivesse viva.

– Mas… – Yui balbuciou, sem saber o que dizer. – Assim? Já?

Não havia tempo nem para comemorar. Nem para conversar.

Não havia tempo para voltarem juntos para seus amigos e continuarem a noite de natal como uma família comum.

Um minuto?

O que poderia dizer?

– Foi um ano e tanto – foi o que saiu da boca de Yui.

Naoya riu.

– Com certeza. Não foi fácil para mim.

– Para mim foi pior! – Yui deu um tapa no braço do sacerdote. Ainda podia tocá-lo, mesmo estando semitransparente.

Eles sorriram, mas não souberam o que dizer em seguida.

– Vai ser estranho não ter você batendo na janela – a garota disse, estendendo a Tessaiga de volta para Naoya.

– Fique com ela – ele disse. – Uma lembrancinha das minhas batidas na janela.

Logo, podia ver só um vislumbre do que era Naoya.

– Foi bom ter te encontrado, mocinha – ele disse.

– Foi bom ter te encontrado, sacerdote-supremo – ela devolveu.

E Naoya sumiu.

O cenário tornou-se nítido em troca, devolvendo Yui ao bosque noturno que margeava a cidade cheia de luzes.

A garota ficou parada de pé, estática.

Até se lembrar.

– Ah… – Yui, sozinha, tocou o tecido colorido que vestia. – O seu haori…

A Tessaiga ele não quis, mas o haori tinha certeza que teria pegado de volta.

 

*

 

Quando Kaguya chegou correndo até Yui, após o ar repentinamente tornar-se mais leve, encontrou a garota sozinha no meio das árvores.

Ela olhava para o alto e mexia na pulseira de contas, que agora estava larga e solta.

Kaguya não a chamou por um bom tempo, e ela só foi notar a presença de outra pessoa quando Kouta e Yoshiki chegaram com bastante atraso.

Yui não desapareceu mais.

Neste dia, voltaram até a casa dos Uesugi. A família ficou intrigada com o estado deles e por que Naoya não estava mais presente.

O natal passou, o ano-novo passou, e Kaguya viu Yui convivendo com a família normalmente – mas algo não estava tão correto.

Ela estava quieta. Pensativa.

Kouta viera se consultar com Kaguya várias vezes, mas a menina não sabia explicar.

A maldição tinha ido embora. O youki no ar também.

…Ou não o suficiente?

Se considerasse que, de acordo com Naoya, o futuro era cheio de youkais de qualquer jeito…

Seria possível que, também..?

 

*

 

Yui andou pela propriedade do Templo Sem Nome, agora um pouco mudado devido à reforma feita no ano passado.

Estava frio, e deveria estar indo para a escola, mas ao invés disso encarava o fundo escuro do poço extremamente velho – a construção que o cercava estava novo e bem mais forte, apesar de continuar sendo feita de madeira.

Não havia nada no fundo. Nenhum poder. Nenhuma força misteriosa.

Yui abraçava alguns pertences que muito usara no ano passado e não carregava a bolsa que levava para a escola. Era o primeiro dia de aula do ano, mas não era necessário.

Provavelmente não chegaria até lá.

Passo após passo, a garota andou em silêncio para fora.

O céu do inverno estava bem azul e sem nuvens, iluminado radiante pelo sol da manhã.

Yui abraçou mais forte os objetos que carregava, buscando alguma salvação misteriosa.

Não veria esse cenário por muito tempo.

Após andar até perto da construção principal, notou que havia uma árvore no jardim dos fundos. Nunca tinha notado, nem do décimo andar. Ficava escondido atrás do templo.

Sentindo-se estranha – como se sentiu no último mês -, a garota aproximou-se do tronco imenso. Não era uma árvore alta, mas era larga.

A pulseira de contas vibrou em suas mãos. A Tessaiga também pareceu responder.

Yui estendeu a mão e tocou o tronco.

Lentamente, fechou os olhos.

Em questão de segundos, Kouta e Yoshiki chegaram correndo a toda velocidade, após terem conversado com Kaguya.

Mas não chegaram a ver Yui.

Ninguém nunca mais chegou a ver Yui.

 

*

 

“Senhor, precisamos fazer alguma coisa!” – suplicou um dos dez capitães que invadiram a biblioteca do Clã das Presas.

Naoya estava enfurnado no meio de livros antigos, como estivera fazendo no último mês. Sentado no chão, quase não se podia ver o sacerdote devido às pilhas desorganizadas de livros que o cercavam.

– Eu preciso saber, não entendem?! – ele brigou, mexendo na bagunça.

Desde que voltara do passado, não demorou dois dias para perceber o óbvio: seu mundo não mudara nada, como suspeitava, mas isso indicava que a joia de almas que usara para dissipar o youki era incompleta.

Ou, pelo menos, não forte o suficiente para fazer um trabalho completo. Não era como a joia da lenda milenar.

O que teria acontecido, então, com a maldição de Yui?

Teria sido eliminada por completo?

Ou só ganhara tempo?

– Preciso saber até quando Yui viveu!

– Mas senhor – um capitão disse -, esses registros foram perdidos há muito tempo! Ninguém sabe o que aconteceu num passado tão distante!

– Sacerdote! – um capitão jovem e quase chorando se aproximou – Você pode continuar suas pesquisas depois de lidarmos com o demônio que está vindo! Nossos homens voltaram desesperados e espancados do norte!

– A criatura já está quase à nossa porta! – completou outro homem.

– E sabe qual o maior ultraje?! – bradou o capitão mais velho – Os escritos dizem que essa criatura era de nosso território! O clã do norte a roubou de nós..!

– Eu sei disso! – cortou Naoya, sem mostrar reações. Os capitães suspiraram cansados – Mas nosso clã mal estava aqui nessa época! O que tenho a ver com isso?!

O sacerdote levantou-se e deixou os capitães para trás. Precisava de ar.

Andando sem olhar para trás, acabou chegando até o velho poço nos fundos da propriedade. Era mesmo um poço mágico: ninguém fazia a manutenção da coisa, mas estava de pé até hoje. Independente da sua aparência milenar.

Era uma pena que sua magia tivesse acabado para Naoya.

A raposa olhou para o fundo, mas não sentiu o poder emanando do interior como nos meses passados. Desde que completara a joia de almas e a gastara, havia acabado.

Yui ficara do outro lado.

Sem a conexão do poço, ela era uma pessoa de outra era, já morta há muito, muito, muito tempo.

Uma garota que já se foi.

“Você irá chorar” – havia alertado Hakuouko na primavera.

O frio do inverno atacou-o por fora e por dentro. Um frio que mostrava como estava sozinho novamente. Simultaneamente, um calor subiu pela sua face.

No entanto, o youkai respirou fundo e ergueu a cabeça, fechando e abrindo os olhos com força.

Não ia chorar. Não daria essa satisfação para a velhota.

– Senhor! – escutou o berro de um dos capitães.

– O que é?! – brigou, voltando-se para trás.

Foi quando escutou um estrondo no portão da frente. Parecia até que tinha sido…

Derrubada.

– O demônio está aí! – o capitão youkai-lobo chegou tremendo da cabeça aos pés.

– Já?! – Naoya arregalou os olhos – Quando disseram que estava à nossa porta, não achei que fosse literal!

– Não era! Mas a criatura foi muito rápida!

– Reúna todos os homens nos jardins de Hakuouko! – o sacerdote ordenou – Iremos batalhar!

O capitão saiu correndo a toda velocidade, e Naoya se apressou para o quarto da velha raposa. Ela já deveria estar pronta para a luta.

Conforme entrou na base do Clã e foi se aproximando do quarto de Hakuouko pelos fundos, passou a ouvir burburinhos ao longe.

“Saia da frente! Vou te matar!”. “Quer levar uma surra?!”. “Afaste-se!”.

Todas as sentenças vinham acompanhadas de um estrondo, possivelmente de homens sendo jogados para todos os lados. Os passos eram muitos, mas aparentemente quem vinha a frente abria o caminho.

– Senhora Hakuouko! – Naoya exclamou, abrindo a porta do quarto da velha.

A raposa branca estava sentada de forma imponente sobre seu futon, encarando as portas de correr que davam aos jardins. A multidão invasora se aproximava. Podiam ver a silhueta do líder – era o guerreiro que vinha a frente – andar a passos largos até a porta.

…Era a silhueta de uma mulher.

Viram dois homens do Clã das Presas saltar sobre a mulher para pará-la, mas ela os sustentou com os braços e girou o corpo, lançando-os para longe.

– Não me agarrem, seus tarados! – disse a mulher.

Naoya parou de respirar.

Conhecia essa voz.

– Aqui é a youkai-humana passando! – um chute foi enfiado nas portas, as quais voaram para o lado de dentro, cruzando o quarto e atingindo um grupo de youkais que tinham acabado de chegar para ajudar Hakuouko.

E lá estava ela.

Vestia o haori colorido de Naoya de forma toda errada, amarrando-o próximo à cintura sobre um uniforme escolar de séculos atrás. Uma espada – Tessaiga – estava embainhada em uma das ancas e usava um colar de contas.

A trança vermelha, encurvada feito o rabo de um escorpião, estava impecável.

– YUI?! – berrou Naoya em plenos pulmões.

– O QUÊ?! – fizeram todos os homens do Clã das Presas, encarando a garota que acabara de entrar.

A comoção do lado de fora – vários youkais bastante humanos lutavam contra os youkais locais – parou com a comoção do lado de dentro. Todos passaram a olhar de Naoya para Yui.

Entretanto, quem chocou a todos foi Hakuouko.

– Yui! – ela disse, com a voz de velha falhando.

A raposa branca tremia com o choque, aproximando-se passo após passo. Os olhos pretos estavam marejados.

– Oi..? – disse Yui, estendendo a mão para a raposa.

O quadrúpede, sendo envolto por um brilho branco, repentinamente tomou uma forma humanoide: primeiramente a de uma velha de cabelos compridos e, depois, como se voltasse no tempo, a de uma bela jovem de cabelos negros.

Uma jovem de rosto familiar.

– KAGUYA?! – gritaram Naoya e Yui. O sacerdote levou a mão ao peito. Eram muitos choques para um momento só.

– Você está viva..! – disse a Kaguya-Hakuouko, segurando as mãos de Yui.

Você está viva! – Naoya apontou a líder do clã com um leque acusador – Você… você… sabia o tempo todo do que ia acontecer?!

– Claro que não! – ralhou ela, agora soando como uma velha – Vocês dois sumiram da minha frente! Para mim, você tinha sido um idiota – apontou Naoya. – E você tinha morrido! – voltou-se para Yui.

– Pelo visto, eu estava selada – ela coçou a cabeça. – Prazer. Sou o demônio do norte.

Yui encarou os presentes boquiabertos. Naoya parecia que ia ter um enfarto.

Sua família, Kouta, Yoshiki, todos eles, se foram – morreram num passado muito, muito distante.

Mas ainda havia amigos aqui.

Se era para sua história no passado terminar de tal forma, de qualquer jeito, então Naoya realmente a havia salvado.

Ele era sua ligação com o passado que tanto gostava.

– Naoya – ela chamou, sorrindo de forma maldosa.

O sacerdote-supremo encarou-a e deu uma risada seca.

E chorou.

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